“Com o vírus, estão vindo nossos medos e angústias mais primitivos”

Fonte: Folha de Londrina

Dados da OMS (Organização Mundial da Saúde) divulgados no ano passado alertam que o Brasil possui o maior número de ansiosos do mundo, cerca de 9,3% da população, ou mais de 18 milhões de pessoas. Em meio ao clima de pânico gerado por informações verídicas, como a confirmação pelo Ministério da Saúde da terceira morte causada pelo coronavírus, e outras ainda sem confirmação, os cuidados com a saúde mental já recomendados independentemente do estado de pandemia se tornam ainda mais necessários para se evitar o adoecimento.  

Para o psicanalista e colunista da FOLHA, Sylvio do Amaral Schreiner, a sociedade está lidando com uma ameaça real (o vírus) e outra imaginária (o pânico e o medo). Basta ver as filas nos supermercados de clientes com carrinhos lotados desnecessariamente. “É claro que existe um instinto de sobrevivência dentro de cada um e instinto é forte. Não vai haver desabastecimento, mas as pessoas causam esse desabastecimento e depois dizem ‘tá vendo como ia faltar’”, ironizou.  

Questionado se com o fim da pandemia a sociedade voltará ao “normal”, Schreiner avaliou que não. “E ainda bem que não voltará porque está na hora de aprendermos a lidar com as nossas emergências, necessidades, com o que fazemos em relação aos outros. A vida vai seguir, mas como vamos seguir essa vida?”, questionou.  

Em Londrina, na tarde desta quarta-feira (18), milhares de pessoas se surpreenderam com uma mensagem que informava o fechamento do comércio. Poucos minutos depois, a informação foi considerada falsa pela Acil (Associação Comercial e Industrial de Londrina), que também ressaltou que medidas ainda vão ser alinhadas com o poder público e repassadas oficialmente. Entretanto, a preocupação já havia sido criada desnecessariamente pela forma como todos foram surpreendidos.   

No ambiente corporativo, a redução do capital intelectual dos trabalhadores também já é apontada pelo Fórum Econômico Mundial como uma grande preocupação de gestores de recursos humanos e os próprios empresários por gerar queda na produtividade. Questionado, o psicanalista sugeriu que as empresas abusem da criatividade para amenizar o problema que é mundial. “Temos a oportunidade de rever estas relações. As coisas foram se estabelecendo de uma forma que não foi devidamente pensada, mas não é nada fácil mesmo, as pessoas precisam pedir e ceder e saber que ninguém é mais importante do que ninguém. Óbvio que muitas pessoas e empresas não vão aprender nada com isso, mas algumas vão e isso já é importante”, avaliou.

Além da psicoterapia, a meditação vem sendo apontada como uma das principais aliadas dos ansiosos por auxiliar no controle dos pensamentos, sejam sobre o futuro (ansiedade) ou sobre o passado (melancolia). Desde o agravamento dos casos de coronavírus, a professora de Kundalini Yoga, Camila Tabosa, suspendeu as aulas e tem orientado os alunos a ficarem em casa. Voluntária na Secretaria Municipal da Mulher, Tabosa lembrou que um link será disponibilizado no site da Prefeitura de Londrina com o conteúdo das aulas.  

“Meditação e a respiração nos conectam com o presente, chamamos de prana no Yoga. É o movimento do ar que é o movimento da vida, nos colocamos no momento presente e deixamos de projetar as inseguranças do futuro. Por conta disso, eu digo que a meditação é extremamente parceira”, afirmou. 

Para um momento como este, a professora londrinense lembra que o objetivo torna-se evitar que adoecimento mental acabe colaborando para reduzir os níveis de defesa do organismo e facilitando o aparecimento de outras doenças. E também também aproveitou para questionar sobre o que a sociedade pode aprender com a pandemia.    

“A minha visão pessoal é que temos que ficar muito atentos ao que esse vírus está querendo nos comunicar como humanidade, como aprender a se responsabilizar coletivamente. Nos últimos tempos desenvolvemos uma habilidade de pensar o que melhor apenas para nós mesmos. É importante saber que isso não é uma brincadeira, mas me manter confiante neste aspecto que está sendo colocado, da responsabilidade coletiva", avaliou.