10/12/2014 00:00:00 80 ANOS DE COMPETITIVIDADE - Londrina é um caso espetacular de desenvolvimento e superação

Por José Antonio Pedriali


Seu destino foi traçado antes do nascimento por seus idealizadores, um grupo de investidores ingleses: ser um polo agropecuário e de prestação de serviços, com indústrias de produtos semielaborados, despontando-se nesse setor, no primeiro estágio de sua história, a madeira. Oito décadas, desastres climáticos e transformações radicais depois de sua emancipação, Londrina superou os planos de seus colonizadores em tudo – população, volume de negócios, importância regional –, mas se mantém fiel ao destino, embora a ordem dos fatores tenha de alterado.


A agropecuária, que deu impulso à expansão vertiginosa do município e do Norte do Paraná, tendo o café como carro-chefe, ocupa a terceira colocação na produção de riquezas. Em 2011, última data de referência, produziu R$ 133, 9 milhões, o equivalente a 1,52% do Produto Interno Bruto do município. A indústria ocupa a segunda colocação, tendo gerado R$ 1,6 bilhão, ou 18,3% do total. Disparado na dianteira está o setor de serviços, que produziu R$ 7,1 bilhões – 80,1% de nossas riquezas.


Os números falam por si, mas comparados aos de 1999 mostram a estabilidade do setor agropecuário, que correspondeu naquele ano a 1,63% do PIB, oscilando ligeiramente para mais ou para menos nos subsequentes; mostram também o encolhimento da indústria – 23,1% e em ritmo descendente – e a expansão dos serviços - 75,3% e em ritmo ascendente.

A primeira década de existência formal, que remonta a 1930, Londrina lançou as bases de seu núcleo urbano, do comércio – em 1937 foi fundada a Associação Comercial - e da produção agropecuária, com a venda de lotes a agricultores paulistas, mineiros e estrangeiros – mais de trinta etnias fincaram raízes aqui. Na década seguinte, ao mesmo tempo em que se ampliava a área cultivada, desenvolvia-se o comércio, com a instalação de empresas paulistas – cerealistas, comércio em geral e financeiras. E a indústria de semielaborados – madeira e beneficiamento de café e cereais – se consolidava.

Estavam, assim, criadas as condições para o salto populacional que o município teria na década de 1950, chegando a 75 mil habitantes (metade na área rural), 55 mil a mais que na década anterior. A cidade, então, se projetava nacionalmente como a Capital Mundial do Café. O aeroporto local era o terceiro em pousos e decolagens do país. Surgiram o moinho de trigo, a Maltaria e Cervejaria Londrina (extinta) e a Companhia Cacique de Café Solúvel. O processo continuou na década seguinte, com a expansão de seu núcleo urbano e abertura de faculdades, culminando com o grande salto tecnológico que foi a criação do Sercomtel – era a alforria das comunicações telefônicas – pelo prefeito José Hosken de Novaes. Em 1970, quando sua população era de 230 mil, surgiu a Universidade Estadual de Londrina, instalou-se, por iniciativa do prefeito Dalton Paranaguá, o primeiro parque industrial e o setor de prestação de serviços teve forte expansão. Como contraponto, a geada de 1975 exterminou o café. E a cidade recebeu milhares de refugiados do campo.

Era preciso encontrar alternativa a este produto, alternativa, aliás, desejada com ansiedade desde a década anterior para livrar Londrina e região da dependência da monocultura cafeeira. Começaram, então, os primeiros cultivos em larga escala de milho, soja e trigo, que se consolidaram na década de 1980, período em que o núcleo urbano expandiu-se na periferia para abrigar os deserdados das lavouras de café. Os anos 90 foram marcados pela consolidação do setor de serviços. Londrina se consolidou como a terceira mais importante cidade do sul do país.

E o setor de serviços agregou a tecnologia da informação. Londrina e Região Metropolitana concentram hoje 1,2 mil empresas desta área, que geram 14 mil empregos. A consolidação dessa atividade levou a Codel, ACIL, Sebrae, Senai, APL-TI, Cintec e Sinfor a proporem a Lei Municipal de Inovação, sancionada em outubro pelo prefeito Alexandre Kireeff. A lei estimula a cooperação entre poder o público, empresas e instituições de ensino no setor de tecnologia da informação e faz de Londrina, como definiram as entidades, uma Cidade Genial. “Na área de tecnologia da informação”, disse na solenidade de assinatura da lei o presidente da ACIL, Valter Orsi, “muitos querem ser e não são; Londrina já é um grande centro tecnológico, mas precisa mostrar que é.”


Do apogeu à agonia do café



Abundante e altamente compensadora vai sendo a safra atual no município. O arroz teve uma produção surpreendente e capaz de satisfazer os mais exigentes quanto ao tipo comercial de alta qualidade. O algodão já está sendo colhido fartamente e em condições econômicas de lucros invejáveis (...). O feijão, a batata e o milho, além de outros produtos, foi colhido na proporção dos desejos dos agricultores.

Temos agora o café. Este começou a ser produzido no ano passado. Apesar da pouca idade das lavouras, custa crer ou fazer acreditar, sem ver, a carga enorme e maravilhosa que nelas se ostenta, como um atestado (...) palpável do que seja a terra roxa do norte paranaense.”

A menção à primeira safra de café em Londrina, feita pelo jornal “Paraná Norte” na edição de 11 de abril de 1936, é o registro público de nascimento deste cultivo na região de mais de 500 mil alqueires colonizada pela Companhia de Terras do Norte do Paraná e, pela segunda vez, marcava uma reviravolta nos planos de seus proprietários – ao mesmo tempo em que delineava o futuro da região.

A vasta propriedade adquirida no início da década anterior, e ampliada com a incorporação de mais e mais lotes, destinava-se ao plantio de algodão para abastecer a dinâmica e monopolista indústria têxtil britânica, mas os investimentos exigidos eram altos demais e a rentabilidade do negócio pequena – então o projeto, idealizado e tocado pela Brasil Plantation, com sede em Londres, foi adaptado. As terras seriam vendidas em pequenos lotes, e em longo prazo, incentivando-se o cultivo do algodão, e para isso foi criada a Paraná Plantation, também com sede naquela cidade, e sua subsidiária brasileira, a Cia. de Terras, com matriz em São Paulo e filial no acanhado, mas promissor, distrito de Três Bocas, de Jataizinho, o embrião de Londrina.

A extração de madeira e o plantio de cereais permitiram que os primeiros colonos se mantivessem, quitassem e investissem em suas propriedades, destinadas a abastecer o ávido mercado inglês. E eis que a comunidade japonesa, a primeira a se estabelecer no local, abismada com a produtividade do solo de coloração vermelha, resolveu plantar café com mudas da vizinha Sertanópolis...

... e a história seguiu seu curso. Havia 3,6 milhões de cafeeiros de até quatro anos e cinquenta mil com mais de quatro anos, informou, em 1936, o serviço de estatísticas da Prefeitura. A produção agrícola daquele ano foi de 2.610 sacas (60 quilos) de café, 80.715 arrobas de algodão, 4.081 sacas de milho, 8.023 de feijão, 3.188 de arroz e oitenta arrobas de fumo.

Em 1941, as estatísticas apontavam a consolidação da agricultura e o potencial do café: 110 mil sacas desse produto, três milhões de arrobas de algodão, 1,2 milhão de sacas de milho, 360 mil sacas de feijão e oitenta mil de arroz. O extrativismo ainda era uma atividade rentável: foram exportados 82.703 metros cúbicos de madeira e 1.555 dúzias de palmito.

Oito décadas depois, as propriedades de pequeno porte ainda prevalecem no município de Londrina. Levantamento feito em 2006 contabilizou 4.151 propriedades rurais, totalizando 159.143 hectares. Somente 15% dessas propriedades têm acima de mil hectares. A maior concentração – 40% - está na faixa de 200 a 500 hectares. O café perdeu definitivamente seu trono: é cultivado em apenas 3,4 mil hectares. O milho é o seu sucessor, com 53 mil hectares plantados; a soja ocupa a posição de rainha, com 45 mil; e o trigo ocupa o terceiro lugar, com 9,5 mil hectares. O café permanece, no entanto, como símbolo de uma cidade que orgulhosamente soube se reinventar.