17/03/2016 00:00:00 Projeto deve revitalizar Avenida Higienópolis

Fonte: Pauline Almeida - Revista Mercado em Foco - ACIL


Criada na década de 1930, a Avenida Higienópolis foi uma inovação em Londrina, até então formada por vias estreitas. Ocupando a área mais alta da cidade que ainda se formava, a Higienópolis já nasceu com charme e glamour para abrigar famílias em palacetes. Projetada por Arthur Thomas, desde a sua criação a avenida é um cartão-postal e foi inspirada na Avenida Paulista, em São Paulo.

O asfaltamento veio na década de 1960, mas foi em 1970 a maior mudança da avenida, até então puramente residencial: as casas começaram a dar lugar ao comércio. Hoje, com cerca de oitenta anos, a Higienópolis ainda é uma das avenidas mais bonitas de Londrina, e reúne lojas, ótimos restaurantes e outros estabelecimentos. Os antigos casarões continuam, dando um toque histórico e lembrando que a cidade um dia foi a Capital Mundial do Café.

Se a via larga que se construía na década de 1930 era uma grande novidade, hoje a Higienópolis já sente o “gargalo” de metrópole. Como liga o Centro à zona sul, tem intenso tráfego, especialmente nos horários de pico. Além disso, é rota importante para o sistema de transporte coletivo – é, por sinal, o caminho que leva milhares de estudantes diariamente à Universidade Estadual de Londrina (UEL).

A Prefeitura Municipal tem se mostrado preocupada com a mobilidade urbana e possui um grande projeto em andamento: o Superbus. O novo sistema de transporte coletivo vai ligar a cidade de norte a sul e de leste a oeste, com corredores exclusivos para ônibus, diminuindo o tempo de deslocamento dos londrinenses. O projeto terá investimento de R$ 140 milhões.

Uma das vias escolhidas para receber o Superbus é a Avenida Higienópolis. A notícia trouxe preocupação aos comerciantes e os pegou de surpresa, já que o corredor exclusivo para o transporte coletivo afetaria as vagas de estacionamento. O que a princípio foi um susto passou a ser encarado como uma possibilidade de inovação junto à Avenida Higienópolis, como aconteceu no início da história de Londrina.

Empresários e entidades – entre elas a ACIL, Associação Brasileira de Bares e Restaurantes (Abrasel), Londrina Convention & Visitors Bureau (LC&VB) e Clube de Engenharia e Arquitetura de Londrina (CEAL) – se uniram para colocar em prática uma ideia antiga, quase um sonho: um grande boulevard ligando a Avenida Higienópolis ao Calçadão, em um projeto de revitalização do Centro.

Sonho possível

Calçadões são alguns dos principais pontos turísticos em diversas cidades do mundo. Barcelona, na Espanha, por exemplo, possui um dos mais famosos, conhecido como Las Ramblas. O trecho tem uma movimentação enorme de pessoas, tanto de dia quanto à noite, atraídas pelos restaurantes, lojas, cafés, quiosques e também pela arte local. Barcelona sozinha recebe cerca de 7 milhões de turistas por ano, número maior do que a quantidade que o Brasil reúne durante todo o ano – cerca de 6 milhões.

Pode parecer estranho comparar Londrina a Barcelona, mas o empresário Carlos Grade acredita que a cidade pode formular um projeto-modelo no Brasil. Proprietário do restaurante Villa Fontana, ele foi um dos primeiros a saber da notícia do Superbus na Avenida Higienópolis e a movimentar empresários para discutir o assunto.

Grade destaca que a Higienópolis ainda é uma das áreas mais fortes do comércio em Londrina, referência em gastronomia e outros serviços. “Temos aqui na região um grande número de hotéis. Quando a pessoa chega à cidade, ela pergunta ‘onde eu posso comer, passear?’ A Higienópolis é uma avenida de referência. Todo mundo que vem a Londrina conhece e acha linda. É uma via que cruza a cidade, passa pelo Lago Igapó. Sem dúvida, é uma avenida que a gente deve melhorar, não matar”, afirma.

Revitalização e ocupação

A crise econômica nacional afetou Londrina. Na Rua Sergipe e no Calçadão, por exemplo, é possível observar vários imóveis para locação, cenário estranho para dois pontos tão tradicionais do comércio. O diretor da ACIL, Cláudio Tedeschi, avalia que no cenário de crise também surgem oportunidades – a proposta de revitalização da Avenida Higienópolis é uma delas.

Tedeschi sugere integrar a Higienópolis ao Calçadão e à Rua Sergipe, dando novo “fôlego” para o Centro. “Londrina atrai pessoas de toda a região. Hoje, estamos recebendo essas pessoas em shoppings, mas podemos criar um grande shopping a céu aberto e aproveitar a avenida de maior charme da cidade.”

O boulevard que seria criado a partir dessa integração ganharia uma estética singular, com iluminação, parklets (minipraças nas calçadas), calçamento largo para fluxo de pessoas e outros pontos. Segundo o diretor da ACIL, a Prefeitura de Londrina poderia dar incentivos fiscais para empresários se instalarem no futuroboulevard. “Nós não estamos pensando apenas nos comerciantes e empresários. É um projeto para a cidade, que incluiria um grande circuito gastronômico e cultural, aproveitando as praças e os museus de Arte e Histórico até o trecho do Cadeião”, detalha o diretor da ACIL.

O presidente do LC&VB e diretor-executivo da Abrasel Norte do Paraná, Arnaldo Falanca, ressalta que o projeto do boulevard no Centro de Londrina atrairia mais turistas, em especial do turismo de negócios, área na qual o município é forte. Cada turista deixa, em média, R$ 300/dia na cidade, o que aumentaria a movimentação de dinheiro e a arrecadação do poder público.

“Londrina tem um custo/benefício de leitos e restaurantes muito chamativo para quem vem de fora. O projeto é importante para as famílias, especialmente as que vivem no Centro – elas vão ganhar um espaço comunitário e social. Temos um Centro Histórico com o Cadeião, Catedral, praças. É possível interligar isso com um lado um pouco mais moderno e de glamour. Queremos continuar o Calçadão e interligar com a Higienópolis com calçadas largas, em um trecho arborizado, sem fiações aparentes”, pontua. Questionado sobre os custos para se tocar um projeto de tamanha envergadura, Falanca acredita que “são os custos para se viver bem”.

Uma pedra no caminho

Para o projeto de revitalização da Avenida Higienópolis e sua integração com o Calçadão ir adiante, é preciso conciliá-lo com o Superbus. A Prefeitura de Londrina suspendeu temporariamente a instalação do novo sistema de transporte coletivo na via, mas precisa de uma proposta concreta das entidades e empresários, como explica a presidente do Instituto de Pesquisa e Planejamento Urbano de Londrina (Ippul), Ignes Dequech Alvares.

“Qualquer proposta de benefício da cidade é bem-vinda. Estamos aguardando o projeto de forma a compatibilizar tudo. Nossa prioridade é o transporte coletivo e estamos buscando um índice de qualidade no serviço.” Ignes lembra que existem restrições quanto ao uso de outras vias para o Superbus em virtude do ângulo para curvas e a qualidade do asfalto, que é diferenciada para a passagem do transporte coletivo.

O CEAL está encabeçando a viabilização do projeto. Segundo o presidente da entidade, José Fernando Garla, o plano é lançar um concurso em nível nacional, em troca de um bom prêmio, para confecção da proposta – a expectativa é que universidades e escritórios de arquitetura tenham interesse em participar. Essa ideia precisa estar em consonância com o cronograma do Superbus, já que o município recebe verbas federais e tem prazos a cumprir. Em suma, é preciso um esforço conjunto do poder público e do setor privado para garantir a melhoria do transporte coletivo, mas também não trazer prejuízos ao empresariado e, de quebra, garantir um novo cartão postal a Londrina.

Em discussão: quem paga?

A proposta de revitalização da Avenida Higienópolis e de reocupação do Centro de Londrina traz à tona alguns pontos polêmicos, como o custeio da construção do boulevard. Entidades como CEAL e ACIL admitem que o setor privado teria de bancar parte dessa mudança. O empresário Marcelo Cassa, dono da Ótica Viso Center, por sua vez, acredita que o subsídio deveria vir do poder público.

Cassa também aponta que deve haver mais transparência na apresentação dos projetos municipais. “Acho que o poder público precisa mostrar a necessidade do Superbus. Que benefícios ele trará? Nós precisamos de mais dados técnicos. Também acredito que é obrigação do município trazer a solução pedida pela cidade. Às entidades cabe mais profissionalismo para cobrar mudanças e mobilizar.”

Outra discussão diz respeito à flexibilização do horário do comércio. Calçadões pelo mundo garantem um fluxo intenso de pessoas, já que as lojas funcionam à noite e existem várias opções de lazer. Levar adiante o boulevard traria a necessidade de um novo debate sobre o expediente das lojas, que levaria em conta a diluição do tráfego de veículos nos horários de pico.

Além disso, o boulevard poderia dar força à proposta de existência de um ônibus turístico em Londrina, cujo projeto já está em estudo e que passaria pelo Centro Histórico.


SUGESTÕES PRÓ-BOULEVARD

Confira sugestões de entidades para revitalização do Centro

  • Transporte coletivo – os ônibus seriam deslocados para ruas paralelas à Higienópolis, como Belo Horizonte e Hugo Cabral.

  • Parklets – possibilidade de minipraças nas calçadas.

  • Rebaixamento das guias – viável para instalação de jardins ou até mesmo uma ciclovia.

  • Instalação de valet parking – serviço para estacionamento de carros e organização das vagas.

  • Cabos – o cabeamento que hoje é visto nos postes passaria a ser subterrâneo, diminuindo a poluição visual.

  • Quiosques – volta dos quiosques ao Calçadão, com livrarias, cafés e floriculturas.

  • Licença para artistas – autorização para artistas se apresentarem ao ar livre.

  • Iluminação – lâmpadas mais baixas para melhorar a iluminação pública.