05/01/2015 00:00:00 Analistas preveem ano nebuloso e recuperação econômica apenas em 2016

Fonte: Folha de Londrina

O setor produtivo entrou no ano de 2015 com a perspectiva de que dias melhores virão somente em 2016. A nova equipe econômica do Governo Federal assume a tarefa de promover ajustes para fazer o Produto Interno Bruto (PIB) aumentar um pouco mais do que em 2014. Analistas ouvidos pela FOLHA, porém, dizem que a tendência é de que o crescimento seja fraco, exija maior eficiência da indústria e gere leve desemprego ao menos até o fim do primeiro semestre. 

Para que o horizonte se desenhe melhor para o próximo ano, será preciso que o governo desembace a vista para o mercado no curto e médio prazos. Há necessidade de conter a inflação, de dar diretrizes para o desenvolvimento produtivo e segurança sobre investimentos, sem que prejudique o mercado de trabalho. 

Assim, a desconfiança que estancou os investimentos no ano passado pode ser revertida, afirma o economista da Federação das Indústrias do Estado do Paraná (Fiep), Roberto Zurcher. "Basta esperar se o ministro da Fazenda vai ter liberdade de ação", diz, ao se referir ao temor de que a presidente Dilma Rousseff interfira sobre o novo titular da pasta, Joaquim Levy. 

Os sinais dados por Levy são de um forte ajuste das contas públicas para buscar um superavit primário de 1,2% do PIB. O ministro disse que será preciso coragem para fazer os cortes necessários, ainda que afirme que o governo manterá o compromisso de elevar o crescimento, o número de empregos e a qualidade de vida. 

O presidente do Sindicato dos Economistas de Londrina, Ronaldo Antunes, considera que a política será restritiva. "Teremos corte de gastos e um grau maior de alta sobre os impostos", diz. Como ele acredita que será preciso reajustar duramente os preços administrados, como o de combustíveis e de energia elétrica, Antunes espera por novas altas de juros para evitar a inflação. O dólar, mais valorizado frente o real, também tende a pressionar os preços. "Isso deve refletir na queda dos investimentos, dos níveis de emprego e da atividade econômica", aponta. 

Zurcher afirma, no entanto, que a desocupação não deve ser significativa. "Estamos trabalhando quase no pleno emprego, o que gera um bom nível de demanda interna", explica. Com as medidas de austeridade, ele afirma que a expectativa é de que o País passe a se recuperar entre o fim do segundo trimestre e o início do quarto. 

O supervisor técnico do Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos (Dieese) no Paraná, Sandro Silva, cobra, no entanto, que o compromisso de campanha de Dilma, de priorizar a geração de emprego, o crescimento da economia e a redução da desigualdade, seja cumprido. Para tanto, critica a política do Banco Central de promover reajustes na taxa básica, a Selic. "A discussão sobre a inflação precisa ser qualificada, porque temos questões sazonais que interferem e só elevar juros não tem adiantado", argumenta. 

Silva lembra que foram gastos R$ 250 bilhões em 2013, ou o equivalente a dez vezes o custo dos estádios da Copa do Mundo, para pagar juros, recursos que acabam nas mãos de especuladores e instituições bancárias. "Não adianta ter inflação de 3% se a economia não crescer e não gerar emprego", diz. "A lógica do Estado tem de ser a de melhorar a situação de quem precisa mais, tributar menos o consumo e mais a renda", completa.