11/02/2015 00:00:00 De olho na Páscoa, comércio antecipa venda dos ovos de chocolate

O domingo de Páscoa é dia 5 de abril, mas janeiro mal tinha começado e alguns supermercados de Londrina já estavam vendendo ovos de chocolate. “Levei um susto quando vi chegarem ovos de Páscoa em pleno janeiro”, diz a gerente de um supermercado. O gerente de outro estabelecimento afirma que é comum a oferta dos produtos com antecedência, mas admite que é a primeira vez que as vendas dos ovos começaram em janeiro.

Os gerentes contam que são os fabricantes que antecipam as vendas. Quanto maior o tempo de oferta do produto, maior a quantidade vendida.

No ano passado, a assistente social Maria Fernanda Vetrone foi surpreendida pelo sobrinho. “Antes da Páscoa ele já tinha comido tanto ovo de chocolate que me pediu para não dar ovo para ele, e sim um carrinho.”

Laís Fontenelle, psicóloga do Instituto Alana, conversou com o JL sobre como a lógica de mercado consome as crianças e a sociedade. O Instituto Alana é uma organização da sociedade civil, com sede em São Paulo, criada em 2002, sem fins lucrativos, que reúne projetos na busca pela garantia de condições para a vivência da plena infância.

JL – Como você avalia esse comportamento do mercado? 
Laís Fontenelle – A análise que não podemos deixar de fazer e que é a mais importante diante desta lógica consumista é que as datas comemorativas, especialmente as de cunho religioso, perdem o sentido. A Páscoa é uma data bastante simbólica. Tem um tempo de preparo, 40 dias que a antecedem, o que tem um significado. O próprio domingo de Páscoa tem um sentido, a ideia de renovação. Tudo isso é abocanhado pelo mercado. Ao esvaziar todo esse sentido, a Páscoa, para a criança, passou a ser apenas ovos de chocolate com brinde dentro. É preciso reverter esta lógica de mercado.

De que forma?
Resgatando o sentido da data, disseminando valores mais humanos. É importante mostrar que ninguém precisa comer ovo de chocolate para celebrar a Páscoa. Estes chocolates são vendidos o ano todo, só ganham um novo apelo para capturar o consumidor.

É um apelo bastante forte da publicidade e voltado para um público vulnerável, por isso é mais nefasto, certo?
Este apelo é um convite para a compra sem limites. A publicidade incute o desejo por algo que não se precisa, ela é feita para isso. E na criança é mais cruel porque distorce os valores convidando-a para um consumo em excesso, e de alimentos que não são saudáveis. 

Além do problema do consumo de alimentos não saudáveis, o que já é bastante grave, há ainda os efeitos psicológicos. Antigamente, a criança esperava até a Páscoa para comer o ovo de chocolate, até o Natal para ganhar o presente. Agora tudo é imediato. Quais os efeitos disso?
Hoje vemos uma geração que não lida com frustração e com limites e isso faz parte da formação emocional e do exercício de cidadania do sujeito. Temos o mercado dizendo para esta criança, por meio da publicidade, que tudo é possível, que tudo é vendido, e cada produto lhe trará a felicidade. Nesta lógica, até os afetos são mediados pelo consumo.

A grande vilã é a publicidade voltada para o público infantil?
Não estamos dizendo que não se pode anunciar produtos para crianças. O que estamos dizendo é que a comunicação não pode ser diretamente com elas. A publicidade tem que ser voltada para os pais e para maiores de 12 anos.

Os pais têm que resistir?
Tem que haver o empoderamento para que não comprem. Cabe aos pais, mas sozinhos não vão dar conta diante desta avalanche da publicidade. É urgente que a publicidade não fale diretamente com a criança, um sujeito em formação.

A aprovação da resolução 163 da Conanda, há quase um ano, ainda não tem efeitos práticos?
A resolução 163 determina que seja cumprida a legislação já existente. Os artigos 36 e 37 do Código do Consumidor – um dos mais avançados do mundo – e o ECA, determinam que quando a publicidade se aproveita da vulnerabilidade do sujeito para vender ela é abusiva e, portanto, ilegal. Mas a efetividade da resolução 163 não acontece ainda.

Qual a dificuldade em fazê-la valer?
A dificuldade é que se trata de um mercado altamente lucrativo [o infantil].

Como cada um pode agir para fazer valer a resolução 163?
Denunciando aos órgãos competentes – Ministério Público, Procon. A chave principal é a conscientização da sociedade, para que se sinta agredida ao entrar no supermercado em janeiro e se deparar com ovos de Páscoa e a partir daí aja: não comprando e denunciando.

Serviço - O Criança e Consumo é um dos projetos do Instituto Alana e em seu site http://criancaeconsumo.org.br/ há orientações sobre como proteger as crianças contra o consumismo.

Fonte: Jornal de Londrina