14/11/2014 00:00:00 Compra compulsiva pode ter tratamento psiquiátrico

Fonte: Folha de Londrina

Rosa (nome fictício), de 57 anos, trabalhou anos e anos em uma indústria antes de se aposentar. Gastava boa parte do salário com produtos que, segundo ela mesma, nem sempre lhe faziam falta. "Via uma oferta e comprava só para o outro não comprar", revela. O problema se agravou quando as dívidas foram se acumulando. "Minha filha de 13 anos falava que eu comprava coisa que nem usava." Há um ano e meio ela resolveu buscar ajuda no grupo dos Devedores Anônimos de Londrina (D.A.). Aprendeu a pôr no papel a relação de tudo o que comprava para controlar os gastos. "Antes, eu ficava danada se não comprasse alguma coisa que eu via, não podia nem ver oferta. Hoje, a oferta não me atrai, a não ser que eu precise daquilo", garante. Para Rosa, a saída do fundo do poço começa pela força de vontade. "Você sabe que não tem controle, mas falta responsabilidade para assumir seu problema e procurar ajuda", afirma.

A síndrome da compra compulsiva (CC) já é avaliada por psicólogos e psiquiatras como uma patologia associada a transtornos do impulso. E, portanto, exige tratamento. O Instituto de Psiquiatria do Hospital de Clínicas da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (IPqHCFMUSP) é pioneiro no atendimento ambulatorial gratuito, via SUS, a pessoas diagnosticadas com a oneomania. A doença do consumo é uma das patologias associadas ao transtorno do controle do impulso (TCI). 

CONSEQUÊNCIAS


Em sua dissertação de mestrado defendida na FMUSP, "O comprar compulsivo e suas relações com transtorno obsessivo-compulsivo e transtorno afetivo bipolar", a psicóloga Tatiana Zambrano Filomensky afirma que a prevalência da compra compulsiva é estimada em cerca de 5% da população geral, e identificada com maior frequência no gênero feminino. 

O estudo se propõe a investigar qual classificação de transtorno pode ser mais adequada para a compra compulsiva (CC), se o TCI, uma subsíndrome do transtorno afetivo bipolar (TAB) ou uma variante do famoso transtorno obsessivo-compulsivo (TOC), semelhante ao armazenamento compulsivo. "O comportamento repetitivo e crônico do comportamento de gastar descontroladamente gera consequências negativas ao indivíduo, além dos elevados índices de comorbidades com transtorno de humor, ansiedade e outros transtornos do controle de impulso, o que contribui para manter a divergência existente sobre a classificação da compra compulsiva (CC)", escreve a psicóloga. 

Em uma análise feita com 80 pacientes, Tatiana Filomensky avalia que os diagnosticados com a síndrome da compra compulsiva revelaram ter aquisição impulsiva, o que se assemelha ao transtorno do controle do impulso em vez do TOC ou do transtorno afetivo bipolar. A FOLHA tentou vários contatos com a psicóloga, mas não obteve retorno. 

O vice-presidente da Associação Paranaense de Psiquiatria (APPSIQ), Alexandre Karam, afirma em entrevista por e-mail que o ato de comprar exageradamente e se endividar não é necessariamente considerado uma doença psiquiátrica. "Há situações em que essa atitude pode advir de falta de organização e planejamento financeiros adequados, infelizmente muito comuns. Contudo, podemos ter o excesso de gastos como parte de alguns quadros psiquiátricos", pondera. 

"O mais importante de se pensar em primeiro lugar, devido à hierarquia de diagnósticos em psiquiatria, seria que esta atitude seja parte de um quadro maníaco, que pode ocorrer devido ao transtorno bipolar", explica. Nessa condição, acrescenta o psiquiatra, o paciente pode apresentar aumento de energia, euforia, pensamento acelerado e grandiosidade, o que poderia levá-lo a gastar de forma exagerada. "E aí o tratamento psiquiátrico é imprescindível, para proteger o paciente das consequências negativas de seus atos", recomenda Alexandre Karam. O vice-presidente da APPSIQ diz que desconhece haver no Paraná qualquer serviço semelhante ao prestado pelo Instituto de Psiquiatria do Hospital de Clínicas da USP. "Normalmente a abordagem recomendada seria uma avaliação psiquiátrica e psicológica para descartar os principais diagnósticos que poderiam cursar com tal comportamento", pontua.