17/09/2018 08:14:35 Criatividade + inovação = Mais força no mercado

Fonte: Revista Mercado em Foco - ACIL - Por Susan Naime

Quando o assunto é sobrevivência e competitividade, uma peça-chave pode mudar a realidade de todo um mercado: inovação. Mas por que devo inovar meu produto se já tenho uma clientela fixa? Uma nova ideia vale mais que um negócio consolidado? A verdade é que o atual cenário apresenta clientes cada vez mais exigentes e uma concorrência atenta e pronta para “engolir” a sua fatia do mercado em questão de tempo. Para Marcos Piangers, a inovação é um caminho sem volta e colaboradores criativos são peças fundamentais para o sucesso das empresas. O jornalista, especialista em inovação e tecnologia e autor do best seller O Papai é Pop é mais uma das grandes atrações do Lidere 2018, realizado pela ACIL nos dias 3 e 4 de outubro. Confira a entrevista exclusiva que a reportagem da Mercado em Foco fez com o comunicador.

Mercado em Foco: Além das abordagens sobre a paternidade, você também fala em suas palestras sobre as práticas da tecnologia e inovação em um mundo cada vez mais conectado. Em sua opinião, as empresas estão sabendo enxergar essas mudanças e oportunidades ou as organizações ainda precisam abrir os olhos para esse caminho sem volta que é o ambiente da criatividade?

Marcos Piangers: Em termos de teoria, as empresas estão, sim, abertas, interessadas e discutindo novas práticas. Mas com toda a carga tributária e toda a falta de incentivo governamental para a inovação, são poucas as companhias inovadoras que ainda oferecem serviços e produtos baseados numa indústria anterior a essa que a gente está vivendo. A verdade é que os últimos 20, 30 anos, impactaram profundamente os negócios, e se há dez anos as maiores empresas do mundo, as mais valiosas, eram petrolíferas, eram bancos, hoje as mais valiosas do mundo são empresas da área de tecnologia. A tecnologia oferece uma possibilidade, uma ferramenta, de todas as empresas apresentarem serviços e produtos mais baratos, mais acessíveis e, principalmente, mais convenientes para o público. Ela pode ser aplicada de maneira incremental, melhorando um pouquinho o seu produto, oferecendo um aumento de faturamento, um aumento de eficiências em seus negócios; e a tecnologia também pode ser aplicada de uma maneira disruptiva, realmente inovadora, com possibilidade de reescrever aquele mercado, redesenhar a forma como os negócios são feitos naquela indústria, por exemplo. Mas essa segunda maneira de aplicar a tecnologia é pouco empregada no Brasil, e muito empregada lá fora. As empresas disruptivas se propõem a dominar não apenas o mercado dos seus países, da sua região, mas um mercado global. É aí que a gente vê grandes empresas chinesas e americanas dominando mercados globais de varejo, mobilidade urbana, hospedagem, contato social, publicidade, jornalismo, e começamos a perceber que essas empresas podem impactar os nossos negócios aqui no Brasil. É importante que o empreendedorismo brasileiro perceba esse potencial disruptivo da tecnologia e não fique apenas na conversa, mas coloque isso na prática.

MF: Organizações mais conservadoras podem enxergar a inovação como um problema? Como quebrar esta barreira?

MP: Sem dúvida! As organizações mais conservadoras esperam que os negócios sejam feitos da mesma maneira que sempre foram e, consequentemente, se posicionam em geral contra as inovações. O que acontece é que essas empresas correm o risco de serem ultrapassadas pelos novos players, por empresas novas. Talvez, hoje, seu mercado, sua indústria, seja um espaço com pouca mudança, como por exemplo a construção civil que passou por pequenas melhorias incrementais de aplicação da tecnologia. Temos algumas áreas que absorvem a tecnologia pouco a pouco e não sofrem rupturas, mas essas áreas podem ser a qualquer hora impactadas por uma nova tecnologia. Por isso, é importante que todas as empresas estejam dispostas a estudar as mudanças e a desenvolver uma cultura de aprendizado constante.

MF: As empresas estão aproveitando corretamente os benefícios do mundo digital?

MP: Acho que algumas empresas conseguem, sim, aproveitar os benefícios do mundo digital. Num primeiro momento eu percebo que algumas empresas estão mais abertas para áreas de inovação, aplicação e experimento tecnológico. Inovação nada mais é do que isso! São experimentos que, se derem certo podem ter um impacto muito grande nos negócios, mas, no geral, a inovação acontece quando você se permite experimentar. Então, acho que algumas empresas aproveitam corretamente os benefícios do mundo digital, seja para a comunicação, para a disseminação de cultura e aprendizado dentro da empresa. Mas ainda existem companhias que bloqueiam a capacidade dos colaboradores utilizarem ferramentas tecnológicas dentro da empresa, o que me parece um contrassenso e um cultivo de uma cultura negativa.

MF: Como se tornar um profissional inovador?

MP: É muito fácil. É só você se permitir experimentar, se permitir aprender o tempo todo e se esforçar para ir atrás de três motivadores criativos: autonomia, domínio e propósito. A autonomia, no sentido de que você é dono de si mesmo, é protagonista na melhoria daquilo que você faz, no seu trabalho, e que você pode, sim, se apropriar de tecnologias novas para fazer o seu trabalho de uma forma mais eficiente e melhor. O domínio é porque você tem que estar sempre aprendendo, sempre se qualificando, sempre lendo, participando de palestras e treinamentos para aprender o tempo todo e, consequentemente, se tornar um profissional melhor. E, por último, o propósito, porque a inovação acontece quando você tem um propósito alinhado com o propósito da sua empresa, e isso te faz acordar todos os dias de manhã e ir trabalhar. O propósito é, muitas vezes, negligenciado, porque falamos bastante sobre autonomia, protagonismo, domínio, aprendizado, e falamos pouco sobre o propósito. E nós só encontramos uma solução inovadora quando estamos alinhados com nosso propósito de vida que, no fim das contas, tem a ver com melhorar o mundo e melhorar a vida de outras pessoas também.

MF: As facilidades que as tecnologias proporcionam podem nos deixar menos criativos?

MP: Em uma sociedade obcecada por tecnologia, sofremos o risco de cair em algumas armadilhas. Existe uma série de benefícios e comodidade que a tecnologia nos traz e, sem dúvida, nos coloca em uma posição de tanto conforto que a gente pode deixar de ser criativo. Mas podemos estar atentos para analisar, refletir e fugir dessas armadilhas.

MF: Como utilizar tecnologia e inovação para fortalecer a relação entre empresas e funcionários?

MP: Todos os funcionários vão querer mais conveniência, todos os funcionários vão celebrar uma empresa que tem propósitos alinhados com os propósitos dos colaboradores, que tem incentivo, autonomia e aprendizado. Então, não vejo nenhum problema em uma empresa que abraça a tecnologia e a inovação para manter o time motivado e criativamente disposto a pensar em soluções melhores, mais convenientes e mais baratas para o usuário final.

MF: Para quem enxerga crises econômicas apenas como ameaças, qual a importância delas para a inovação?

MP: Crise é esse mar de oportunidades para o inovador, e estou chamando de inovador aquela instituição ou empresa que oferece soluções mais convenientes e mais baratas. Posso citar algumas marcas que foram fundadas no ano de crise na economia americana: FedEx, IBM, CNN, Apple, Disney, MTV, Microsoft, Burguer King, HP. Todas essas são marcas que nós amamos. São marcas que, em algum momento, perceberam uma mudança de comportamento do público e souberam oferecer um serviço ou um produto mais conveniente, mais barato e, principalmente, mais moderno, mais alinhado com o ano que aquelas pessoas estavam vivendo. A crise empurra o usuário para uma solução mais conveniente e mais barata. Empurra você a vender o carro e a usar o Uber, empurra você a não fazer mais ligações e usar apenas o WhatsApp. E quando você olha para a crise como uma obrigação de oferecer um serviço ou produto mais conveniente, mais barato, você tem que passar por uma solução tecnológica.

MF: Em sua opinião, eventos de caráter corporativo e empresarial podem ser boas ferramentas para ajudar empresários a refletir sobre seus modelos de negócios e incentivá-los a olhar para a nova realidade e novas tendências do mercado?

MP: Sem dúvida. Acabou a época em que as pessoas tinham um período de aprendizado na escola, depois entravam no mercado de trabalho e não estudavam mais nada. Começa, então, uma época de aprendizado contínuo, de qualificação contínua. Palestras e eventos corporativos são fundamentais para que se dissemine uma cultura, para que se busque a qualificação daquele público e para que se desperte insights vindos, muitas vezes, de pessoas que estão fora da empresa e que podem, portanto, ter uma visão mais sistêmica daquele negócio.