16/01/2015 00:00:00 DE VOLTA À UNIVERSIDADE - O valor da pós-graduação no mercado de trabalho

Por Viviani Costa

O engenheiro agrônomo Claudio Moro Serafini trocou algumas horas de descanso pela sala de aula. Após quatro anos longe das leituras acadêmicas, ele decidiu dar início a um MBA em Gestão Estratégica de Empresas. Serafini já é pós-graduado em ovinocultura e, desta vez, optou pela especialização voltada para o setor de negócios.


Gerente de vendas na empresa Duquímica, o engenheiro não visava uma promoção ou um novo cargo. No entanto, após ocupar a mesma função por sete anos, ele se viu obrigado a buscar novas estratégias de mercado. “Para permanecer em determinadas funções, é preciso entender todas as facetas do negócio: a parte financeira, a parte comercial, a logística e o marketing, por exemplo. Eu já tinha essa visão de outras experiências, mas, com o tempo, você acaba percebendo que tem falhas no seu conhecimento e que você poderia ter resultados muito melhores. Cheguei a conclusão que estava na hora de, no mínimo, me atualizar”, explica.


De acordo com o Censo da Educação Superior 2013, mais de 7 milhões de estudantes estavam matriculados nos cursos de graduação espalhados por todo o país. Há dez anos, esse total não atingia 4 milhões de alunos. Os indicadores apresentados pelo Ministério da Educação (MEC) em setembro de 2014 reforçam o aumento no número de profissionais graduados no mercado de trabalho: mais de 900 mil iriam concluir os cursos em 2013.


Diante da vasta oferta de trabalhadores com curso superior, inúmeros profissionais decidiram retornar às universidades em busca de um diferencial para a carreira. O desejo de aprimorar o conhecimento ou de incrementar o currículo para conquistar novas oportunidades despertou o interesse desenfreado pelos cursos de pós-graduação (especialização, mestrado ou doutorado). Porém, tanta dedicação e empenho dentro das universidades podem não ter reflexos diretos no ambiente de trabalho.


Habilidades e competências


O consultor empresarial Flávio Moura alerta que o profissional precisa aliar os novos conhecimentos às habilidades e competências já exercidas na rotina de trabalho. “Hoje os profissionais são valorizados pelos resultados. Quando uma pessoa tem especialização, mestrado ou doutorado, ela agrega muito ao currículo. Ela abre portas para que seja avaliada e entrevistada para cargos de liderança, mas é preciso mostrar o quanto o curso agregou na prática à experiência profissional dela”, ressalta o consultor.


Para ele, o entendimento sobre a atividade da empresa, a experiência profissional e a capacidade de liderar demonstrada no dia a dia podem ser mais decisivos para a escolha do novo gestor do que a formação acadêmica. “Você não forma um líder de um dia para o outro. Muitas vezes, as pessoas querem ser líderes, mas não estão preparadas para tal. Por exemplo, eu exerço muito bem a minha atividade enquanto executor, mas, a partir do momento em que eu passo a ser líder, o desafio é outro. Eu tenho que fazer com que as pessoas atendam aos objetivos da empresa. Agora não depende só de mim”, afirma. Conforme ele, saber lidar com as pessoas e conseguir se comunicar de forma satisfatória são itens que precisam ser desenvolvidos por quem pretende ocupar funções em nível gerencial.


A Analista de Desenvolvimento de Pessoal, Larissa Botelho, é responsável pelo setor de seleção e recrutamento da Companhia Cacique de Café Solúvel. Ela reforça que “o comportamento interpessoal e a postura no ambiente de trabalho diferenciam os profissionais”. A formação, segundo ela, às vezes representa apenas o requisito mínimo obrigatório para a ocupação de uma das vagas.


Na intenção de qualificar os profissionais mais experientes que já atuam nas empresas, muitas delas oferecem incentivos e valorizam os funcionários que demonstram interesse pelos cursos de pós-graduação. Segundo Larissa, a Cacique concede bolsas de estudo para que o trabalhador se mantenha atualizado em relação às novidades do mercado, mas é o desempenho no dia a dia que pode fazer toda a diferença para quem tem planos de crescimento na empresa.


Os benefícios da pós-graduação


A escolha preferida entre os cursos do setor de negócios é o MBA (Master Business Administration) classificado pelo MEC como especialização. O coordenador de vendas da empresa Duratex, João Paulo Fratelli, optou pelo MBA na área de Gestão Comercial. “A gente sente na prática que a empresa passa a valorizar mais o funcionário. Quando você participa de reuniões com clientes ou com representantes da empresa, você se sente mais preparado e acaba conseguindo melhores resultados. Estamos nos deparando com uma geração muito mais preparada para esse mercado e, por isso, a atualização é essencial”, ressalta Fratelli.


Cursar a pós-graduação também garante o aumento da rede de relacionamentos e o conhecimento sob diferentes pontos de vista. O engenheiro agrônomo Claudio Moro Serafini garante que a experiência é enriquecedora. “Na minha turma de Gestão Estratégica de Empresas tem médico cirurgião, médico radiologista, veterinário, agrônomo, empresário, engenheiro e nutricionista, por exemplo. É uma gama de gente com conhecimento e análise de mercado bem diferentes. Provavelmente eu não teria a chance de esbarrar com todos esses profissionais no mercado de trabalho”, comenta.


Conforme Serafini, quem já trabalha no setor de negócios precisa estar disposto a enfrentar novos desafios ao retomar os estudos. Entre eles estão a desconstrução de velhos conceitos colocados em prática nos últimos anos e a adaptação aos novos modelos de gestão. “Quem volta tem que ter a mente bem aberta. É um grande laboratório. Após algumas aulas, já estou fazendo adaptações na empresa. Modifiquei a descrição do trabalho dos funcionários e aprendi a escutar cada um deles para saber dos interesses profissionais para aproveitá-los melhor na empresa”, avalia. Com a medida, Serafini espera aumentar em até 10% o faturamento previsto para o final deste ano.


Como fazer a escolha certa?


Dezenas de cursos de especialização, mestrado e doutorado surgem a cada ano em todo o país nas modalidades presencial e à distância. Diante das diversas opções, é preciso verificar se a instituição é cadastrada junto ao Ministério da Educação (MEC) e se os temas das disciplinas atendem, inicialmente, às expectativas dos futuros estudantes.


O consultor empresarial Flávio Moura alerta que é preciso ter foco para elaborar as estratégias e definir os rumos da carreira. “Existem muitos profissionais que estão frustrados no mercado porque cursaram uma especialização da moda ou porque o curso não era sobre aquilo que ele sabia fazer ou sobre o que ele queria fazer. É importante que o profissional identifique aonde ele quer chegar, qual o tipo de carreira que ele pretende ter e aí então definir o que ele pode desenvolver de habilidades e competências para atingir os objetivos. O profissional pode fazer cursos em áreas diferentes da graduação desde que esses estudos façam parte da meta escolhida para a carreira. A pós-graduação é importante não só pelo título, mas pelo que vai agregar na prática”, conclui Moura.


Universidades buscam mapear necessidades do mercado


As universidades estão de olho no mercado de trabalho e no interesse dos profissionais na hora de ofertar novos cursos de pós-graduação. Uma das novidades previstas para 2015 em Londrina é a especialização em Gestão Estratégica do Varejo.


A Coordenadora de Educação Continuada da PUC Londrina, Elenice Cacia Teixeira, ressalta que esta foi uma das áreas de interesse apontadas pelos estudantes da área de administração. “Nós montamos o curso de Gestão Estratégica do Varejo para atender a essa demanda de Londrina e região. Fizemos pesquisas com os alunos e constatamos que havia essa necessidade”, explica. O curso será lançado em 2015 juntamente com a reformulação dos outros cursos de pós-graduação.


O Diretor de Educação do Isae/FGV, Antônio Raimundo dos Santos, afirma que as universidades tiveram que se adaptar para corresponder aos desejos dos profissionais que saem em busca de uma qualificação diferenciada. “O terceiro mundo, em geral, ainda não entendeu o que é estar na Era do Conhecimento. Significa o seguinte, no nosso meio produtivo ainda impera a Revolução Industrial. A principal ferramenta de uma empresa moderna hoje chama-se conhecimento. Então isso já traz um impacto. Cada vez mais as escolas entendem que elas precisam se aproximar desse novo mercado de trabalho para entender os desafios enfrentados pelos estudantes”, analisa.


Para Santos, a tendência nos próximos anos é o aumento na oferta de cursos de mestrado e doutorado devido a quantidade crescente de profissionais que já possuem uma ou duas especializações.