02/10/2014 00:00:00 ‘Debate marca posições, mas não influencia eleitor’

Fonte: Folha de Londrina

O último debate televisivo entre os postulantes ao Palácio Iguaçu, na RPC TV, a cinco dias do pleito de domingo, serviu mais para marcar posições já conhecidas dos candidatos do que para influenciar o eleitor. A avaliação é do cientista político Emerson Cervi, da Universidade Federal do Paraná (UFPR). Segundo ele, aprofundar ideias e propostas só seria possível em um sistema bipartidário. "Quando você tem vários candidatos, isso se torna inviável", afirmou. 

O encontro do Paraná foi o que contou com o maior número de participantes entre todos os 27 promovidos pelas afiliadas da Rede Globo (nos 26 Estados e mais no Distrito Federal). Pernambuco, por exemplo, teve apenas três. Aqui, dos oito concorrentes, somente Rodrigo Tomazini (PSTU) ficou de fora, pelo fato de o seu partido não possuir representação na Câmara dos Deputados. 

Como era esperado, o governador Beto Richa (PSDB), líder nas pesquisas de intenção de votos, foi o alvo preferencial dos adversários. Tanto Gleisi Hoffmann (PT) como Roberto Requião (PMDB) centraram suas críticas na administração do candidato à reeleição. Quando teve a oportunidade de contra-atacar, contudo, o tucano preferiu dirigir suas perguntas aos "nanicos" Tulio Bandeira (PTC), Ogier Buchi (PRP) e Geonísio Marinho (PRTB). Bernardo Pilotto (Psol) também participou das discussões, que se estenderam até 1 hora da madrugada de ontem, com cinco blocos e mais de duas horas de duração. 

Para Cervi, um debate que começa às 23 horas dificilmente interfere no posicionamento dos indecisos, "porque esses eleitores estão dormindo". "(As discussões atendem) mais às demandas da elite política partidária, que quer ter espaço para mostrar as diferenças entre si", opinou. O professor lembrou que, no Paraná, conforme a última pesquisa Ibope, apenas 5% dos cidadãos ainda não escolheram seus candidatos. "Para influenciar na decisão, só se houvesse alguma coisa muito bombástica, que hoje (ontem) todo mundo estivesse repercutindo." 

Críticas
Logo na segunda pergunta, de Geonísio para Requião, o peemedebista criticou o sistema prisional paranaense, repetindo um dos seus bordões nesta campanha, o de que existe um "apagão de gestão" no Estado. "Eu me escandalizo com as 22 rebeliões no prazo de um ano", afirmou. 

Gleisi também atacou Beto. Ao citar a construção de casas populares, disse que o investimento só aconteceu graças ao programa Minha Casa Minha Vida, do governo federal. "Quem lançou esse programa foi o presidente Lula, e a participação do Estado do Paraná é praticamente nula. É feio mentir, candidato." O atual governador rebateu, acusando o PT, sigla da ex-ministra da Casa Civil, de se apropriar de recursos públicos. "O dinheiro não é do governo federal, não é do governo do Estado, não é dos municípios. É do povo brasileiro." 

Ao contrário do primeiro debate, na TV Bandeirantes, quando trocaram farpas entre si, desta vez Gleisi e Requião atuaram numa espécie de dobradinha. Como em cada bloco só era possível perguntar até duas vezes para um mesmo candidato, em várias oportunidades o senador fez questionamentos à colega de Congresso, mas sempre aproveitando para alfinetar o atual governador. Ontem, em sua conta no microblog Twitter, Requião chegou a elogiar o desempenho da petista: "Gleisi mostrou capacidade e consistência administrativa". 

Ainda que em respostas direcionadas a outros participantes, Beto reagiu. Falou que as críticas da senadora eram um "sinal claro de desespero" e que assumiu o Estado com um "baixíssimo desempenho econômico", resultado da truculência e da falta de segurança jurídica impostas pela administração de Requião. 

Acusações
O último enfrentamento direto antes das eleições foi marcado por acusações de parte a parte, que renderam um total de dez pedidos de resposta. Destes, seis foram feitos por Beto, três por Requião e um por Pilotto. O tucano foi o único a ter uma de suas solicitações atendidas, por ter sido acusado pelo peemedebista de "roubo" no que se refere ao pedágio. Gleisi também disse que as conversas do governador com as concessionárias eram "macias". A declaração, contudo, foi interpretada como parte do jogo político. 

Em uma das trocas de farpas, o senador perguntou ao tucano como ele conseguiu "adquirir" o apoio dos deputados peemedebistas na Assembleia Legislativa (AL). Citou, ainda, a participação de seu correligionário e ex-aliado Orlando Pessuti (PMDB) no programa eleitoral do PSDB. De acordo com o chefe do Executivo, a maioria na AL se deve ao respeito de seu governo para com as pessoas e à opção pelo diálogo. Em seguida, ao usufruir de seu direito de resposta, Beto chamou o peemedebista de "mitômano" (mentiroso compulsivo). 

Assim como tem feito em suas inserções na televisão, Ogier mencionou que Requião recebe a aposentadoria de ex-governador, benefício concedido àqueles que já ocuparam o cargo. "O Beto Richa foi criado com a verba de representação do seu pai. Ele paga hoje para a sua mãe, que nunca foi governadora, a mesma verba", disse o peemedebista. "O senhor está é criando mais uma bolsa, a Bolsa Insulto. (A aposentadoria) serve para pagar os insultos que o senhor faz a outras pessoas", rebateu o candidato do PRP. 

No terceiro bloco, quando os temas eram livres, Pilotto falou que daria uma "oportunidade" para o atual governador, a quem chamou de representante do "mensalão mineiro", agradecer aos seus financiadores de campanha. O candidato à reeleição, contudo, revelou não saber, ao certo, quem são seus doadores. "Nós temos um comitê que é encarregado da captação de recursos, e nós temos a confiança de toda a sociedade." Na tréplica, ele se referiu às declarações do candidato do Psol como "brincadeiras de mau gosto e molecagens". 

Beto também foi questionado por Geonísio sobre o inquérito que investiga a existência de funcionários fantasmas em seu antigo gabinete na AL, no esquema conhecido como "gafanhoto". O político do PRTB citou um processo no Superior Tribunal de Justiça (STJ) e perguntou se o tucano foi convocado a depor. "Todo gestor público, ainda mais agora no período de campanha, sofre ataques daqueles que não têm compromisso com a verdade. Deponho com a maior satisfação. Minha vida é um livro aberto e minha trajetória política ilibada", respondeu.