31/10/2014 00:00:00 Distorção de salário é maior entre mulheres qualificadas

Fonte: JL

Apesar de ser maioria na população brasileira e de ter aumentado significativamente a própria participação no mercado de trabalho nos últimos 40 anos, a mulher ainda sofre discriminação quando o assunto é renumeração salarial. Segundo os primeiros resultados de uma pesquisa que professores do Departamento de Economia da Universidade Estadual de Londrina (UEL) estão desenvolvendo, a discriminação salarial aumentou nos últimos anos e afeta, principalmente, mulheres com nível de escolaridade alto. Portanto, quanto mais alto o cargo, maior a diferença entre os salários pagos entre homens e mulheres.

A pesquisa “A mulher do século XXI no mercado de trabalho: uma abordagem das diferenças salariais por gênero no Brasil e macrorregiões”, coordenada pela professora Katy Maia, ainda vai levar cerca de dois anos para ser concluída. No entanto, os dados sobre a discriminação na iniciativa privada constam no trabalho de conclusão de curso de iniciação científica realizado pela ex-aluna de Ciências Econômicas Sarah Cristina Bruno Cugini e foram incorporados à pesquisa. “A Sarah analisou essa discriminação em dois anos, 2002 e 2011, e apontou que, apesar de 10 anos terem transcorrido, a diferença permanece e até aumentou”, revela.

Segundo a coordenadora, em 2002, a renumeração média por hora trabalhada do homem era de R$ 7,17 e passou, em 2011, para R$ 10,24. No caso da mulher, era de R$ 5,62 e passou para R$ 8,07. Em termos de população ocupada, os homens representavam, em 2002, 58,68%. Em 2011, o índice caiu para 57,84%. “Ou seja, há uma maior participação feminina, ocupando cargos que antes eram masculinos, competindo em igualdade de condições, mas com remuneração menor”, explica. Ao mesmo tempo, a escolaridade feminina cresce. A diferença salarial não é significativa em postos de trabalho mais simples e de menor poder. “A pobreza, de modo geral, nivela.”

A pesquisa

O estudo se baseia, principalmente, na Pesquisa por Amostra de Domicílios (PNAD) do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), com dados regionais. Não há banco de dados específico de Londrina, mas, segundo Katy, a tendência é de que se repita aqui o que ocorre no resto do Brasil e do Paraná. De acordo com ela, um dos motivos para que essa diferenciação ainda ocorra é a questão cultural. “A mulher só começou a ocupar o espaço profissional na década de 1960, quando a pílula anticoncepcional permitiu que ela escolhesse quantos filhos queria ter. Mesmo assim, a mulher ainda é vista como aquela que, se o filho ficar doente, vai deixar de trabalhar para cuidar dele, enquanto o homem não.”

Para a coordenadora, a estimativa é de que essa distorção entre salários só seja corrigida em torno de 80 anos, com uma mudança cultural e um investimento maciço em políticas públicas para auxiliar a mulher profissional, como creches, escolas de ensino integral e mais assistência à saúde.

A diretora de Negócios da ADM Gestão de Competências, empresa de recrutamento de pessoal, Fátima Hamid Guerra, diz que, há algum tempo, existia sim uma diferenciação salarial entre os níveis hierárquicos mais altos, mas que a situação de pleno emprego dos últimos anos fez com que o quadro começasse a ser revertido. “O aumento na demanda por mão de obra qualificada aumentou também a participação feminina no mercado, assim como a do jovem do primeiro emprego e a do aposentado”, enumera.

Segundo ela, hoje, quando se abre uma vaga qualificada, não se busca o sexo, mas o perfil profissional. “Mesmo algumas profissões que eram essencialmente masculinas estão sendo ocupadas por mulheres.”

“Nunca percebi discriminação”, diz secretária

Antes de assumir as pastas de Trabalho e Emprego e de Recursos Humanos, a secretária municipal Kátia Marcos Gomes sempre trabalhou como executiva de Recursos Humanos em grandes empresas locais e nacionais. E diz que nunca sentiu diferenciação entre o próprio salário e os dos colegas homens. “Nunca senti nem percebi discriminação salarial. Pelo contrário. Nunca recebi menos que os colegas e não vejo isso nas empresas que conheço”, afirma.

Kátia conta que participa de grupos de discussão em Recursos Humanos, envolvendo cerca de 90 grandes empresas da região, e que o tema da discriminação entre homens e mulheres nunca surgiu. “E é um tema que seria muito interessante discutir.”

Brasil cai no ranking de igualdade de gênero

O estudo Global Gender Report 2014, divulgado pelo Fórum Econômico Mundial nesta semana, aponta que a baixa participação da mulher na economia e na política fez o Brasil cair nove posições no ranking de igualdade de gênero. O País ficou na 71ª posição de um total de 142 nações analisadas. No ano passado, Brasil estava no 62º lugar. 

O País obteve 0,694 ponto, numa escala em que 1 é a igualdade máxima de gênero. A Islândia aparece no relatório como a nação mais igualitária do mundo, seguida de perto pela Finlândia, Noruega e Suécia. Já na América Latina, Argentina (31ª), Peru (45ª), Colômbia (53ª), Bolívia (58ª) e Chile (66ª) estão melhores posicionados.

O índice leva em consideração quatro variáveis: participação e oportunidades econômicas (questões salariais e condições trabalhistas); poderio político (representatividade de homens e mulheres nas diferentes instituições públicas nacionais); desempenho educacional (alfabetização e número de matrículas); e saúde (taxa de natalidade por sexo e expectativa de vida).

Os resultados do Brasil nas duas primeiras dimensões, nas quais ocupa a 81ª e a 74ª posições, respectivamente, levaram à piora de desempenho. Se apenas o salário entre homens e mulheres fosse comparado, o País cairia para a 124ª posição.