26/08/2014 00:00:00 Fotos ilustram a Londrina do passado

Fonte: Folha de Londrina

As estradas de ferro que trouxeram tanta riqueza e prosperidade nos anos 1930 à então infante Londrina também foram responsáveis por trazer famílias que fugiam da fome, de doenças ou que simplesmente buscavam um lugar melhor para viver. Na manhã do último domingo, um céu azul recepcionou pioneiros e seus familiares no Museu Histórico, antiga ferrovia da cidade, para um café da manhã e cerimonial, que homenageou os primeiros habitantes do município. 

A curadora do museu, Regina Célia Alegro, conta que a homenagem foi organizada para celebrar o Dia do Pioneiro, comemorado no último dia 21, e também para abrir a exposição "Acervos Familiares Contam a História dos 80 anos de Londrina", que ficará aberta até 30 de novembro.

"É uma forma de resgatar nossa história, lembrar experiências de quem foi responsável por construir nossa cidade", explica. Ela acredita que também é um momento de reflexão para os mais jovens. "Para construir o futuro, é importante conhecer o passado e refletir sobre tudo o que já foi feito", diz. 

Com cinco anos de idade, em 1937, o pioneiro Antenor Capello, hoje com 82 anos, chegou com pai, mãe e cinco irmãos à cidade de terra roxa, com promessas de grande futuro. A mudança da família chegaria dias depois, de trem, metade inutilizada. 

"Meu pai veio um ano antes, para comprar uma casa onde hoje é a Vila Nova. Naquela época, era no meio do nada", relembra ele. "Quando chegamos aqui, ele alugou uma carroça para levar todo mundo para casa. Minha maior lembrança da chegada é o carroceiro, meus pais e meus irmãos indo a pé, enquanto eu estava sozinho em cima da carroça." A família veio de Coroados (SP) para cá porque na cidade havia um surto de ancilostomíase, popularmente conhecida como amarelão. "Todo mundo na cidade estava infectado, e meu pai quis salvar os filhos disso. Chegando aqui, só a água boa de Londrina curou a gente. Nem precisamos de remédio", garante. 

Capello estudou em Londrina, constituiu família e começou a trabalhar como mecânico. Aqui teve com a esposa Maria Inês cinco filhos, "todos apaixonados por Londrina". "Meu pai sempre disse para comprarmos terras onde o trem apita, que é onde a cidade vai crescer. Ele tinha razão. Nunca imaginei que Londrina ia ficar desse tamanho, mas ele já sabia", afirma, saudoso. 

Um ano depois, em 1938, Londrina receberia um ilustre jovem que também abandonou a cidade natal, Ribeirão Claro (SP), em busca de um futuro melhor na também jovem Londrina. Ileser Zanoni, na época com 20 anos, deixou pai, mãe e irmãos para vir morar com um tio. "Buscava um lugar com melhores recursos." O simpático senhor de 97 anos lembra que a maior vontade na época era "constituir família". "No próximo dia 28 de setembro completo 70 anos de casado", afirma, orgulhoso por saber exatamente a data do matrimônio com dona Rute, de 91 anos, com quem teve 16 filhos ao longo da vida, oito mulheres e oito homens. "Meu mais velho vai fazer 71 anos", diz. 

Ao chegar na cidade, Zanoni arrumou emprego como auxiliar de delegado e depois assumiu um posto no Juizado de Menoridade, onde trabalhou por nove anos. "Como eu não recebia nenhum vencimento, acabei ficando doente e tive que trabalhar como taxista de charrete." Após mais dez anos levando e buscando passageiros da ferrovia ao centro da cidade, ele iniciou uma carreira de encanador, a qual exerceu até os 65 anos de idade, quando aposentou-se. Zanoni é colaborador do Hospital do Câncer há muitos anos, título da qual se orgulha muito. Outro título que gosta de exibir é o de motorista. "Eu ainda dirijo, quer ver?", pergunta, mostrando a carteira de habilitação válida. 

Com 16 filhos que lhe deram 38 netos, 15 bisnetos e uma tataraneta, Bianca, que está para nascer, o sorridente senhor que carrega quase um século de histórias conta que se tivesse recursos financeiros quando era jovem, "seria dono de quase metade da cidade". "Não dá para acreditar no tamanho que Londrina chegou. Quando eu vim para cá, não tinha uma só rua de paralelepípedo, somente barro e poeira à vontade", recorda.