07/08/2014 00:00:00 Gaeco prende 3 vereadores e filhos de prefeito

Fonte: Folha de Londrina

Notas fiscais superfaturadas, uso de dinheiro público para o pagamento de serviços particulares e repasses ilegais para a realização de serviços que nunca foram executados estão entre as irregularidades investigadas pelo Grupo de Atuação Especial de Combate ao Crime Organizado (Gaeco) em São Jerônimo da Serra (Norte Pioneiro). Na manhã de ontem, foram cumpridos 18 mandados de prisão durante a Operação Sucupira. Mais duas pessoas, entre elas o prefeito da cidade, Adir dos Santos Leite 

(PSDB), foram presas por posse ilegal de arma de fogo. Ele, que tinha armas sem registro em casa, pagou fiança de R$ 6 mil e foi liberado no final da tarde. 

Entre os 18 presos a partir de mandados estão dois filhos do prefeito, Adcarlos Santos Leite e Alisson Santos Leite, além de servidores do Executivo, três vereadores e empresários. Ontem, o Gaeco não deu detalhes sobre a participação dos presos nas supostas fraudes. 

O Gaeco cumpriu, ainda, mandados de busca e apreensão nas sedes de empresas investigadas, em Santa Cecília do Pavão, Maringá, São Sebastião da Amoreira, Fazenda Rio Grande, Pinhalão, Nova Santa Bárbara e Mandirituba. A Justiça deferiu mandados de busca em 55 locais, incluindo a Prefeitura de São Jerônimo da Serra e casas dos envolvidos, e decretou a quebra de sigilo bancário de 51 pessoas e empresas. Os detidos foram conduzidos para a Penitenciária Estadual de Londrina (PEL 2) e, no caso das mulheres, ao 3° Distrito Policial. 

Após cinco meses de investigação, o Ministério Público protocolou 34 pedidos de prisão na Justiça. Desse total, 12 prisões preventivas e seis temporárias foram decretadas. O restante foi descartado neste primeiro momento. Entre os pedidos negados estavam o de prisão do prefeito Adir e da esposa. 

Conforme o promotor de Justiça Claudio Esteves, desvios de recursos públicos teriam ocorrido por meio de contratos firmados entre diversas empresas e a administração municipal. Postos de combustíveis, estabelecimentos comerciais ligados a fornecimento de alimentos e de peças de veículos, consultórios odontológicos e de fisioterapia são investigados. Os nomes dos empresários não foram revelados. 

Proprietários de postos de combustíveis detidos durante a operação confessaram parte das irregularidades em depoimento aos promotores. "Eles já admitiram parcialmente a nossa suspeita. Não podemos adiantar detalhes dos fatos, mas eles prometeram colaborar com a apuração a partir de agora", afirmou Esteves. O Gaeco seguirá tomando novos depoimentos em São Jerônimo da Serra nos próximos dias e não estão descartadas novas prisões. Os detidos devem ser ouvidos na sede do Gaeco em Londrina. 

Entre os presos estão o tesoureiro da Prefeitura de São Jerônimo da Serra, o chefe de gabinete do prefeito, o pregoeiro responsável pelo setor de licitações e os vereadores José Jacir Sampaio (PSD), Isaque Pereira Martins (PPS) e Amarildo Bueno (PR). Os três vereadores teriam sido beneficiados por meio do abastecimento de veículos particulares no Auto Posto Godoy, em Santa Cecília do Pavão. A suspeita é de que a conta costumava ser paga com recursos da prefeitura. 

O grupo é suspeito de ter cometido os crimes de fraude em licitação, peculato, corrupção ativa e passiva, formação de organização criminosa e lavagem de dinheiro. "Já existem indícios bastante consistentes da prática desses crimes", resumiu Esteves sem detalhar os fatos. A reportagem não conseguiu falar ontem com o prefeito de São Jerônimo da Serra e nem com a defesa dos investigados. 

OPERAÇÃO
Segundo o promotor de Justiça Jorge Fernando Barreto da Costa, os investigados apostavam na impunidade. "Na investigação percebemos que eles não tinham preocupação em evitar rastros." Documentos, computadores, pen drives e notas fiscais apreendidos em empresas, na sede da Prefeitura de São Jerônimo da Serra, na Câmara de Vereadores e nas casas das pessoas detidas foram juntados no Fórum e depois levados ao Ministério Público de Londrina. 

A operação contou com a presença de 80 policiais civis e militares e a população da cidade de São Jerônimo da Serra parou para ver a movimentação ao longo do dia. O município possui menos de 12 mil habitantes. Várias pessoas permaneceram no centro cívico sem entender o que estava ocorrendo. Poucos se dispuseram a dar entrevista. "Eu moro aqui há 30 anos e nunca vi isso acontecer. Votei nesse prefeito três vezes nas últimas eleições até que ele ganhou. Se for comprovada alguma coisa irregular, é de decepcionar. Corrupção não é normal, é comum, são duas coisas diferentes. Vai travar a cidade", disse um senhor que preferiu não ser identificado. Uma funcionária do setor de endemias recuou ao entrar no prédio. "Eu vi a movimentação e me assustei. Vou acompanhar do lado de fora. Nunca soube de nada de fraude", comentou.