06/06/2016 00:00:00 Jovens buscam conhecimento longe da empresa familiar

Fonte: Folha de Londrina

Até 2021, 40% das empresas familiares vão se preparar para "repassar o bastão" aos herdeiros. Uma realidade que levou especialistas a buscarem respostas sobre a próxima geração de líderes dessas companhias.

Entre janeiro e fevereiro deste ano, a Pricewaterhouse-Coopers (PwC) realizou a pesquisa NextGen 2016 com mais de 268 futuros líderes de 31 países, entre eles o Brasil. O levantamento incluiu desde aqueles que estão começando como estagiários na empresa familiar até os com nível de administração com mais de uma década de experiência. 

Em relação ao planejamento em trabalhar na empresa, onde mais da metade respondeu positivamente, não houve mudanças em comparação com a pesquisa anterior. Porém, a novidade está na maneira em que estão fazendo isso. Segundo o estudo, "70% dos participantes afirmaram ter trabalhado fora da empresa da família para ganhar experiência útil e preencher a lacuna de credibilidade antes de se juntar ao negócio da família." 

Um percentual considerável e no qual se encaixa a trajetória profissional de Ana Carolina Augusto Correia, presidente-executiva da Rede de Farmácias Vale Verde. A empresa está há mais de quatro décadas na região de Londrina, com 34 lojas. Mas antes de ocupar esse cargo, há cerca de cinco anos, a farmacêutica foi buscar conhecimento fora dos negócios, até então comandados por seus pais. "Fiz estágio em uma indústria farmacêutica em São Paulo, onde trabalhei por três anos na área de desenvolvimento de produtos. Isso me deu muita bagagem sobre procedimentos, normas e de gestão", conta. 

Nesse período, Ana Carolina aproveitou para fazer cursos na área farmacêutica e também com foco administrativo. O mesmo se aplicou para seus irmãos, que estudaram e trabalharam fora dos negócios da família e hoje, juntos, formam o quadro de diretoria da rede. "Durante uma reestruturação da empresa, houve a necessidade de centralizar a gestão. Começamos com um processo de profissionalização, por meio de consultorias e a criação de um conselho, que foi assumido por meus pais", diz. 

Para Carlos Peres, coordenador-geral do capítulo Paraná do Instituto Brasileiro de Governança Corporativa (IBGC), uma vez que o jovem não conta com a proteção da família no ambiente de trabalho, ele terá a oportunidade de se expor no mercado e mostrar seu talento em uma concorrência direta com outros profissionais. Foi justamente essa motivação que levou Ana Carolina a buscar uma experiência "fora do ninho". "Quando comecei a buscar estágio, meu pai me ajudou com a indicação do currículo, mas ao ser chamada para trabalhar, desisti. Eu queria passar por todo o processo, sem estar vinculada aos meus pais. Eu buscava uma experiência sem inserção para que realmente pudesse me desenvolver, com oportunidade de crescimento por mérito", revela. 

Na pesquisa, 93% dos entrevistados concordaram que ser um membro da família significa que é preciso trabalhar ainda mais para provar seu valor para a empresa. 

Em Londrina, o consultor de empresas e coach de líderes empresariais, Abraham Shapiro, avalia essa prática como um ponto positivo para o desenvolvimento pessoal. "A necessidade de submeter-se a uma liderança sem vínculos sanguíneos ou sem a proteção ou segurança natural, que se teria na empresa da família, força o herdeiro-sucessor a vivenciar o clima da subordinação, que é salutar. Ele sentirá na própria pele o que os outros sentirão quando ele chegar a gestor, porém, com fortes possibilidade de empatia", aponta.