01/12/2014 00:00:00 Lava Jato generaliza ideia de corrupção de brasileiros

Fonte: Folha de Londrina

A reboque da Operação Lava Jato, que traz à tona um esquema de desvio de verbas públicas de proporções astronômicas por meio de fraudes dentro da Petrobras, a corrupção volta a ser o foco da atenção e passa a ideia de uma prática generalizada entre brasileiros. Enquanto advogado de suspeitos e até o ministro da Justiça, José Eduardo Cardozo, se mostram céticos em relação à aversão dos brasileiros com práticas ilícitas, o cientista político e professor de Ética e Filosofia Política da Universidade Estadual de Londrina (UEL) Clodomiro Bannwart espera que o caso tenha um efeito pedagógico que desestimule ilegalidades. 

Após a prisão do lobista Fernando Soares, o Fernando Baiano, seu advogado Mário Oliveira Filho disse à imprensa que qualquer obra a ser executada no Brasil precisa fazer o que chamou de "composição" para ser levada a cabo. "Pode pegar aí uma prefeitura do interior, uma empreiteirinha com quatro funcionários. Se ele não fizer acerto, ele não põe um paralelepípedo no chão", afirmou. 

Dias depois, em evento organizado pela Associação dos Magistrados Brasileiros, José Eduardo Cardozo disse que a corrupção é reflexo da cultura social brasileira, que mistura o público e o privado, ilustrando com a prática de dar dinheiro a policiais para escapar de multas. "Vivemos numa sociedade em que até o síndico de prédio superfatura quando compra o capacho", completou. 

Para Clodomiro Bannwart, as denúncias no caso da Petrobras estão passando do ponto que ficam apenas nos indícios. "Está ocorrendo delações, gente assumindo devolução de dinheiro e uma declaração como a desse advogado são a materialização de algo que já é visto ao longo do tempo. E um caráter de corrupção institucionalizada", avalia. 

Bannwart também lembra que esse novo escândalo ocorre um ano depois da prisão de pessoas condenadas no mensalão, após sete anos de tramitação do processo – e com os agentes políticos já fora da cadeia, cumprindo pena em regime semiaberto. "Parece que ninguém aprendeu a lição." Ele avalia a corrupção como endêmica e que transcende a coisa pública. "O jeitinho brasileiro nada mais é que corromper o que é público para benefício próprio", diz. 

Além disso, apesar do avanço das ferramentas que dão transparência aos órgãos públicos, não há participação efetiva da população na fiscalização e as punições também não são efetivas. "Há um ano, houve a prisão dos mensaleiros. Um ano depois, eles estão soltos e vemos a prisão de vários empresários", compara. 

Vice-presidente do Observatório de Gestão Pública de Londrina (OGLP), o jornalista Fábio Cavazotti reconhece que o pagamento de propinas existe no Brasil, mas considera a generalização perigosa porque insere gestores públicos e empresários sérios no mesmo rol dos corruptos. "(A frase do Mário de Oliveira Filho) É extremamente mal colocada porque valoriza o mau exemplo e dá a entender que o empresário não tem o que fazer, mas ele tem. Deve ir atrás dos órgãos públicos, Ministério Público, da polícia", exemplificou. 

Ele também lembra que um empresário, ao aceitar pagar propina para fazer negócios com a gestão pública, está agravando um problema que ele próprio critica. "O que se espera de um empresário, que também é um cidadão, é que colabore com os esforços para acabar com a corrupção. E isso só se muda dizendo não à corrupção, denunciando os casos e atuando para que parem de ocorrer", afirma. 

O presidente da Associação dos Municípios do Paraná (AMP) e prefeito de Nova Olímpia (Noroeste), Luiz Sorvos (PDT), considera a expressão típica de um advogado de defesa, mas inadequada pela generalização. "Ele devia se ater aos assuntos do cliente apenas", opina. Na defesa de outros prefeitos, ele afirma que tem "muitos honestos, que estão na miséria ou perdem patrimônio". Além disso, frisa que os contratos das prefeituras são fiscalizados pela Câmara de Vereadores, pelo Tribunal de Contas (TC) e mesmo pelas controladorias internas do Executivo.