29/06/2015 00:00:00 Londrina deve ser celeiro de novas empresas de TI

Fonte: Folha de Londrina

Londrina não precisa de uma grande empresa âncora para se consolidar como referência em Tecnologia da Informação (TI). O modelo que deve ser seguido na cidade é o de Israel, baseado nas pequenas empresas e não o do Vale do Silício americano. Esses foram alguns dos recados deixados pelo professor Carlos Arruda, da Fundação Dom Cabral, durante o 4º EncontrosFolha, na última quarta-feira, no Hotel Blue Tree. 

Arruda falou francamente com a plateia. E não se furtou a criticar posturas dos empresários presentes. "Fujam da ideia de uma grande âncora (empresa). Porque ela vai ficar só quando interessar. A âncora tem de ser vocês", disse. Durante o debate, os painelistas comentaram que grandes empresas de TI deixaram de se instalar em Londrina por falta de empenho de administrações municipais anteriores. "O desafio que tem Londrina é ser o celeiro de novas empresas pequenas. Meu modelo não é o Vale do Silício, mas sim de Israel", declarou. 

Em uma de suas intervenções no evento, o presidente do Sindicato da Indústria de Software do Paraná (Sinfor-PR), Marcus von Borstel, disse que as âncoras de Londrina eram instituições como o Senai, o Sebrae, o Arranjo Produtivo Local (APL) de TI e a Prefeitura. O professor se disse incomodado. "A Prefeitura tem de ser o indutor e não âncora", declarou. 

De acordo com Arruda, o Estado só deve investir na fase pré-competitiva dos empreendimentos. "Depois, a empresa tem de ganhar dinheiro. Se não for boa, ela morre. Morrer faz parte. O Estado corre os riscos pré-competitivos e o setor privado, os riscos empresariais", afirmou. 

Questionamentos sobre supostos salários baixos pagos pelas empresas de TI na cidade e sobre a dificuldade de reter talentos devido a isso também provocaram críticas de Arruda. "Essa discussão de salário, de trabalho e capital me incomoda. Ela é do século 19. Isso é marxismo. A forma de reter talentos é transformar todo mundo em capitalista", declarou. 

E fez uma analogia com a China, que, segundo ele, é o "maior país capitalista do mundo". "Lá, um prefeito chega para o dono de terra e fala que quer criar um parque industrial na área. O chinês cede a terra em troca de ações das empresas (que serão instaladas)", ressaltou. Segundo o representante da Fundação Dom Cabral, em vez de pagar salários aos colaboradores, os empresários devem propor participação nos negócios para eles. "Não veja seu colaborador como empregado, mas como sócio. Você vai ficar surpreso com o resultado que vai gerar", destacou. 

Outra crítica feita pelo professor foi endereçada a um empresário que disse ter cancelado todos os contratos de telefonia com operadoras de fora de Londrina. Segundo esse empresário, a cidade precisa de mais "amor próprio" e, por isso, ele manteve contrato apenas com a operadora local. Arruda discordou: "Preocupa-me o protecionismo, a reserva de mercado. Se seu fornecedor local não tem a competência da qual você precisa, não compre dele por ser local", declarou. 

De acordo com ele, proteger o fornecedor local não é boa ideia. "Aparentemente, você o está ajudando, mas, na verdade, você está perdendo valor e não está incentivando o fornecedor a ser mais competitivo. Pensem nos seus fornecedores e colaboradores como parceiros de negócios." 

O professor disse que o grande desafio de Londrina é tornar-se um polo internacional porque, principalmente na área de TI, não há fronteira para os negócios. "Minha sugestão é trazer o mundo para Londrina, criar parcerias globais para mostrar oportunidades de crescimento", ressaltou. 

Não foi só o empresariado local alvo de críticas de Arruda. Segundo ele, o modelo de empresário de TI dominante no País é do século 20. "Ele gera um produto e vai oferecer para o cliente. No modelo digital, tem de ir perguntar o que pode fazer pelo cliente e aí desenvolver o produto", explicou. 

Segundo ele, as empresas de modo geral no País não perceberam as oportunidade e os desafios da digitalização. E ainda não aprenderam a transformar dados em negócios. "O desafio, às vezes, está mais na cabeça das pessoas do que na tecnologia. Tecnologia é meio e não fim. A sociedade ainda não entendeu. Tem mais dúvidas que certeza."