10/10/2014 00:00:00 Mantega e Armínio Fraga defendem combate à inflação em debate na TV

Fonte: Gazeta do Povo com Folhapress

Sem bate-boca ou momentos de maior tensão, o ministro da Fazenda, Guido Mantega, e o ex-presidente do Banco Central, Armínio Fraga, defenderam as políticas dos governos do PT e doPSDB, respectivamente, no combate à inflação, em entrevista à jornalista Miriam Leitão, da Globonews. "É um problema que massacrou o país por muitos anos", disse Fraga. Para Mantega, a "inflação não vai terminar neste ano acima [do teto] da meta [6,5%]".

O ponto alto do debate foi a discussão sobre o papel dos bancos públicos e os subsídios do BNDES à empresas. "Se não tivesse o BNDES, não teríamos como fazer crescer o investimento em períodos de crise", disse Mantega. Para Fraga, o país "precisa de um modelo" de juro mais baixo para todos, não só para "quem toma dinheiro no BNDES."

Armínio: Não é uma hiperinflação [como FHC pegou], mas há uma "sensação" de que os 6,75% (IPCA 12 meses) "possam ser mais". "A inflação para quem é mais velho é um problema que massacrou o país por muitos anos. Não há espaço para correr riscos nessa área. Quem perde sempre são mais os pobres." O que parece "preocupante" é a combinação de inflação alta e "mascarada" pelo governo e baixo crescimento, o que é "um problema muito sério". O BC tem de segurar [com juro alto] e governo tem outras medidas de estímulo ao consumo. "É algo esdrúxulo. Falta coordenação." "O ano de 1999 foi um ano de crise. Foi uma crise cambial, quando eu entrei uma das âncora do Real, a taxa de câmbio, saiu do lugar. Naquele momento, houve pânico e a expectativa de inflação quando eu cheguei estava entre 20% a 50%. Havia muito medo de que o Plano Real fosse deixar de existir". E "acabou que a inflação ficou em 9% naquele ano", um "bom resultado" num momento de tensão. "O mais surpreendente é que no início daquele ano havia um consenso de queda de 4% e acabou que o PIB cresceu" em 1999. Depois, a inflação foi atingindo a meta. [Em 2002], houve especialmente, no ultimo ano, "um pânico de natureza política". "A taxa de câmbio estava na faixa de R$ 2 e foi para R$ 4. Isso tem um impacto enorme sobre a taxa de inflação. Tomamos as precauções e a principal delas foi dialogar com a oposição [Lula já eleito]". "[...]Foi um problema essencialmente do governo Lula que se aproximava. Honestamente, está mais complicado hoje [...] com crescimento extremamente baixo e uma inflação controlada de maneira artificial. Nós já vimos esse filme. Se não tratar o problema rápido, essa é uma doença grave."

Mantega: A inflação não vai terminar neste ano acima [do teto] da meta [6,5%]. "Vamos ter 6,3%, 6,4%." O ministro disse ainda "que a pressão inflacionária vem da seca" e do aumento da "energia". "A boa notícia é que a inflação de alimentos, a principal, vai ser a menor em dois anos. Eles também ficaram muito longe atingir o centro da meta. Eles tiveram crise, nós também temos crise. Período de eleição sempre tem uma turbulência a mais para todo lado, mas não acredito que foi por causa do governo Lula que a inflação subiu. Era porque a economia brasileira estava fragilizada" e o país "teve de recorrer ao FMI." Não foi a iminência [do PSDB] perder a eleição."

FMI

Armínio: "Foi um momento de crise com o mercado estava absolutamente em pânico. Em 1999, a ajuda externa veio não porque havia a necessidade de honrar algum compromisso. Foi para suavizar o ajuste aqui dentro." Quando o mercado se fecha, é necessário [tomar a medida] para não punir a população com uma recessão desnecessária. O FMI serve para isso. É um dinheiro barato e naquele momento nos ajudou bastante." Em 2002, foi diferente, disse. "De fato, havia um pânico e o problema mais grave é que não conseguíamos vender títulos da dívida brasileira para os nossos próprios investidores na nossa própria moeda. Ninguém queria comprar títulos que fossem vencer depois de novembro [após as eleições]. O FMI entrou não para nos financiar: 80% dos recursos que nós levantamos, diga-se de passagem sem condicionalidades, ficou para facilitar a chegada do governo Lula, que felizmente -e merece todo o crédito- chegou, trabalhou bem e desfez essa tensão."

Mantega: O relatório do FMI diz que a recuperação da economia mundial está decepcionante. Vai crescer 3,3%. É um dos piores crescimentos. Há seis anos, a economia mundial vive a maior crise que tivemos nos últimos 80 anos. A economia sempre tem crises, mas menores. Na época deles teve crise também, mas esta crise é a maior de todas. Comprometeu o crescimento de todos os países. Todo mundo reduziu seu crescimento. Desde os países mais dinâmicos como China e Índia (...) sem falar dos países avançados. Só os EUA está com alguma recuperação. Fica difícil crescer muito quando tem falta de comercio internacional porque todo mundo quer exportar.

Armínio: "A crise aconteceu em 2009. Foi um ano de recessão. Depois, a economia vem se recuperando e está crescendo. Não cresce tanto como nos anos de bolha [início dos anos 2000 até 2008]. Aquilo não era real. Está crescendo a um ritmo menos exuberante, mas está crescendo. O preço das nossas importações comparado às nossas exportações deve ser 20% a 30% mais altos. Ainda temos hoje preços bastante favoráveis [se comparado aos anos FHC]. Eu realmente acredito que o modelo [do PT] fracassou e estamos esticando a corda. A economia está com uma situação fiscal muito preocupante."
Mantega: "Afirmo que 90% das economias estão desacelerando. Num momento de 2009 para 2010, houve uma recuperação. Todo mundo fez políticas anticíclicas de estímulo e aí houve uma recuperação. Mas logo veio uma recaída. Nós estamos com a economia saudável. No governo Dilma, geramos 5,5 milhões de empregos, mais do que tudo o que foi gerado em oito anos do FHC, 5 milhões" (a confirmar). O mercado de trabalho "está ativo." "Fizemos muita inclusão social e falta só crédito [para o consumo], que no momento é escasso por causa uma política de restrição de crédito por causa da inflação."

Investimentos e subsídios

Armínio: "Esse governo tem tido muita dificuldade em mobilizar capital. O setor de petróleo, um dos mais importantes, está há cinco anos sem fazer novas concessões. O setor de ferrovias e rodovias enfrenta dificuldade para ter concessões. A nossa proposta é fazer o país crescer, crescer com responsabilidade e com transparência. A falta da transparência está assuntando. As pessoas estão vendo isso. O país está inseguro."

Mantega: A diferença é que o Armínio professa um tripé: fazer superávit primário maior, reduzir a inflação mais rapidamente, "o que eu considero que deve ser com juro alto". "Só fundamentos não são suficientes em crise. Durante a crise, temos de fazer política anticíclica. Significa que tem de incentivar o investimento dando juro subsidiado. Foi o que fizemos no programa de sustentação do investimento do BNDES, que mais gastou R$ 240 bilhões". Sem o BNDES, diz, "as pessoas não iriam comprar máquinas e equipamentos." "Eu sou favorável que os bancos privados estejam mais presentes no investimento de longo prazo. Criamos várias medidas. Mas num momento de crise, eles [os privados] se encolhem e usamos os bancos públicos para fazer isso."

Armínio: "Os bancos públicos são uma ferramenta que pode ter esse papel [em crises agudas]. Sou favorável também. O problema é que eu tenho uma leitura totalmente diferente da do Guido [Mantega]. A crise acabou em 2009. Depois teve um período de crise em 2011, na Europa, mas a economia mundial vem se recuperando. Não é uma recuperação pujante, mas ela vem se recuperando. Somos totalmente a favor do Bolsa Família, que começou no governo FHC, com grande impacto na pobreza extrema. Todo esse programa [de estímulo à economia] gera um subsídio [R$ 400 bilhões ao BNDES] que é comparável a todo o programa Bolsa Família e mais [80%] do Minha Casa, Minha Vida. Pra quê, se não está andando?" "Sinto falta é de mais critério [no crédito de bancos públicos]. Entendo fazer um programa emergencial. O que não entendo é banco publico emprestar dinheiro para Petrobras e grandes empresas privadas que têm acesso ao mercado. Tem de ter critério porque é um recursos social muito escasso. A ideia da transparência tem uma medida fundamental. Tudo tem de estar no orçamento: se quero dar subsidio à Petrobras, fazer mais Minha Casa Minha Vida, dar mais à educação. Sinto muita falta de debate [sobre o orçamento]."

Mantega: "Se não tivesse o BNDES não teríamos como fazer crescer o investimento em períodos de crise. Fomos "bem sucedidos" com o investimento, apesar da crise. "Os programas sociais também foram muito importantes para manter o poder aquisitivo da população e a reduzir a pobreza do país." Todos os programas foram "para aumentar o emprego, a nossa prioridade máxima." "O desemprego hoje, com toda essa crise, está 5 e poucos por cento."

Área fiscal

Mantega: "Tivemos comportamento fiscal muito rigoroso. Procuramos manter o [superavit] primário elevado [poupança para pagar os juros da dívida]. Quando começou a crise, tivemos de fazer política anticíclica. Talvez ele [Armínio] não faria. Reduzimos tributos [desoneração da folha de pagamento e descontos de IPI] para dar competitividade às empresas. Significou dar subsídio de modo que as taxas de juros fossem mais baixas. Juro mais baixo é uma condição para que a economia possa crescer. O Armínio [no BC] praticava taxas de juros elevadíssimas."

Armínio: "A questão fiscal é crucial, mas não é tudo. Eu propus mecanismos anticíclicos, mas o problema é quando se inventa uma crise que já acabou há cincos anos e põe nela toda a culpa. Deixa-se de resolver as questões mais importantes que o país têm. O Brasil cresce há quatro anos 2 pontos menos que a América Latina." O ex-presidente do BC diz: "o que está acontecendo é pedalada na Previdência"; faltou dinheiro e o governo usou a Caixa para pagar; "pedalada no BNDES que está dando subsídios para empresas que não precisam" fora de um momento de crise. "É uma situação que é entendida por todos como uma ameaça à estabilidade e ao crescimento."

Mantega: "Chegamos ao final da crise, se é que ela está no final, com a economia brasileira muito mais sólida. O que temos é aumentar o investimento em construção, mobilidade urbana e infraestrutura (...), o que já está em curso. No passado [governo Lula], nós provemos bens, geladeira, fogão, automóvel e habitação. Agora é preciso bens e mais os serviços [públicos como saúde e educação]. Agora é o momento dos serviços e estamos dando prioridade a isso (...). Fundamentalmente, investir em educação (...) para dar mais produtividade à economia."

Armínio: "Escutamos o ministro mencionar uma série de programas, mas o fato é que as coisas não estão acontecendo". Com todo esse subsídio, diz, "o Brasil tem investido muito pouco e com uma situação macroeconômica bastante perigosa." "Essa, sim, eu considero uma herança: são restos a pagar, são pedaladas, contabilidades criativas. A nossa proposta diz, "é arrumar a casa". Esses mecanismos mais improvisados não deram certo: o país está crescendo pouco, investindo pouco e produtividade parou de crescer". "[É preciso] fazer uma reforma tributária profunda, desonerar as exportações e parar também de penalizar o investimento."