18/08/2015 00:00:00 Franquias, um atalho no mercado

Fonte: Amanda Abranches - Revista Mercado em Foco/ACIL

Pensemos na seguinte hipótese: você quer investir. Poupou um valor razoável durante alguns anos e acredita que está pronto para abrir seu próprio negócio. Por onde começar?

Os riscos para qualquer empreendedor, seja ele experiente ou de primeira viagem, são altos. Se não houver preparo, uma empresa pode estar fadada a morrer antes mesmo de começar. Nesse contexto, o modelo de franquia ou franchising, como é conhecido, pode ser considerado uma boa opção. “A franquia já tem um modelo de negócio, essa é a grande vantagem”, explica o consultor e pesquisador Mario Nei Pacagnan. Ele define esse tipo de negócio como um atalho no mercado, uma forma de viabilizar um retorno assertivo em um espaço mais curto de tempo.

O sistema de franquias consiste em uma concessão para uso de uma marca já testada e colocada no mercado por seu criador, conhecido também como franqueador. “Através de um contrato firmado entre franqueador e franqueado, ambas as partes são beneficiadas. A primeira porque expande sua empresa para locais onde antes, talvez, não chegaria sozinha e recebe mensalmente para isso uma porcentagem chamada de royalties sobre o faturamento do franqueado. E o franqueado ganha porque adquire todo o know-how de um negócio já experimentado e bem-sucedido”, explica Fabio Pozza, diretor de mercado do Cebrac.

Segundo a Associação Brasileira de Franchising, o risco de um empreendedor que adquire uma franquia é cinco vezes menor em relação a empreendedores independentes. Mas, como todo empreendimento, o sistema apresenta vantagens e desafios.

As dificuldades para quem opta por este tipo de negócio, segundo o especialista Mario Ney, são os custos elevados e a baixa oportunidade de iniciativas individuais. O consultor atenta que, além da taxa de aquisição, o franqueado tem que dispor de no mínimo o triplo do valor investido para os procedimentos práticos. “O que é vendido é chamado ‘luva’ que é o direito de explorar a marca, como se fosse uma embalagem, o conteúdo do pacote é responsabilidade do franqueado. Custos como os de campanhas de marketing, treinamento de pessoal e compra de equipamento, por exemplo.”

Para lidar com estes desafios e garantir o sucesso do negócio é preciso começar da maneira correta. O planejamento, como em todo novo negócio, é imprescindível. O futuro franqueado deve ter em mente três passos antes de escolher uma franquia: “A primeira é a análise de mercado, ou seja, pesquisar as demandas existentes e nesta fase se guiar pela pergunta: Qual é a carência do mercado na região em questão? Em Londrina e região, temos o Sebrae, órgãos de apoio e orientação que constantemente realizam pesquisas para descobrir as lacunas do mercado”. Identificadas as necessidades, o segundo passo é pesquisar modelos de negócios existentes, franquias que se encaixem nas deficiências de mercado da região. Pesquisar em sites como o da ABF (Associação Brasileira de Franchising), que classificam e certificam as empresas e apresentam os investimentos necessários, ajuda o empresário a identificar o negócio que melhor se encaixa e selecionar as melhores alternativas para o capital disponível para o investimento. “O terceiro passo, e não menos importante, é levar em consideração sua vocação. A chave de um bom negócio é ter paixão por aquilo que se faz, se não for assim, com o passar do tempo o trabalho se torna enfadonho e o valor recebido não supera o desgaste. Seguindo este tripé, o empresário terá o equilíbrio necessário para iniciar um negócio de sucesso”, ensina Nei.

Da parte do franqueador, o suporte ideal deve abranger todas as áreas da empresa. “Começa antes da abertura do negócio, com treinamento intensivo e ajuda na escolha do ponto. Envolve auxílio no recrutamento, seleção e treinamento da equipe. Suporte em marketing e em compras também são importantes. Por fim, depois do suporte de implantação, é papel do franqueador manter a constante consultoria de campo nos primeiros meses da operação para auxiliar o franqueado na obtenção de seus resultados de forma mais rápida”, explica Fabio Pozza, diretor de Mercado do Cebrac.


Quem Disse, Berenice?

É o exemplo da franquia de cosméticos “Quem Disse, Berenice?”. A marca pertence ao Grupo Boticário e a princípio, apenas franqueados de O Boticário podem adquirir a concessão.

Tânia Regina Tirola, gerente geral da franquia em Londrina, explica que enquanto franqueadores, o Grupo Boticário oferece o suporte desde a negociação do local até as campanhas motivacionais. “Eles entram na negociação com os shoppings e negociam valor de aluguel, percentual, valor do ponto e etc. Existe um apoio desde o projeto até a finalização da construção. Na parte comercial apoiam com treinamentos e direcionamento das equipes, criam campanhas motivacionais aos funcionários e dão todo o suporte para o bom desempenho da marca.”

No Brasil, a lei que estabelece o sistema de franquias é a 8.955/94, chamada Lei de Franquia Empresarial. Nela estão estipulados os papeis de franqueado e franqueador.

“Além do cumprimento das disposições da lei, existe a Associação Brasileira de Franchising (ABF), entidade criada em 1987 para divulgar, defender e promover o desenvolvimento do setor de franquias no Brasil. A ABF promove anualmente uma avaliação rigorosa com as redes de franquias associadas. Aquelas que se enquadram dentro de um padrão de qualidade estabelecido pela instituição recebem o Selo de Excelência em Franchising e podem usar a chancela em suas peças publicitárias”, completa Pozza.


Segmento em expansão

“O segmento de franquias tem expandido e segue uma tendência de crescimento mundial”, garante o especialista Nei Pacagnan. Segundo a ABF, o mercado brasileiro de franquias está entre os maiores do mundo em termos de unidades criadas. Do total de franquias do país cerca de 90% são de iniciativa nacional e, de acordo com a pesquisa feita pela Rizzo Franchise, o porcentual de mortalidade dos negócios ao final do primeiro ano é de 26% na área de varejo, 23% entre pequenos negócios e de apenas 3% no segmento de franquias. “O Paraná é o quarto estado em número de unidades franqueadas, segundo dados da ABF. Londrina, como a segunda maior cidade do estado, tem uma posição de destaque no cenário do franchising. Duas franqueadoras consideradas as melhores do Brasil em seus segmentos têm sua sede em Londrina. A cidade, portanto, é destaque, tanto como mercado para unidades franqueadas, e também como centro de difusão de franchising através das empresas franqueadoras sediadas aqui”, destaca Pozza.

Nivaldo de Freitas Miotto, dono da franquia Chiquinho Sorvetes, é exemplo do desenvolvimento deste tipo de negócio na região. O empresário conta que a empresa funciona há dois anos e meio e está abrindo a terceira filial. “Sempre defendi a ideia de ter um negócio em família. Por curiosidade e afinidade com temas relacionados a gestão comecei a buscar informações sobre como montar um negócio e tive a clareza de que montar algo por conta própria trariam riscos muito grandes. Aos poucos a ideia da franquia se fortaleceu e se consolidou.” O proprietário conta que o desafio foi abrir uma empresa em uma cidade que não morava. “Minhas filhas ficaram à frente do negócio até que eu e minha esposa pudéssemos nos mudar para cá.”

O especialista Nei Pacagnan, atenta para o fato de que o maior problema para o não desenvolvimento de um negócio de franquia é a ausência do empresário no estabelecimento. Ele explica que a gestão não pode ser feita por “controle remoto”, “é preciso que o dono da franquia esteja atento e inserido nos desafios diários da empresa. O trabalho necessita de disposição integral”.

Nivaldo Miotto é exemplo disso. “Antes, eu trabalhava oito horas por dia e aos sábados até o meio dia. Hoje, com o Chiquinho, a família toda trabalha de segunda a segunda, de dez a dezesseis horas por dia. Tem que haver essa identificação e dedicação para conseguir tocar o negócio”, conta o empresário.

E a crise?

Falar em condição de mercado e sem mencionar crise é quase impossível. Em tempos em que corte nos gastos e recessão econômica são tão discutidos, a palavra investir causa receio até para os mais visionários. Para Pacagnan, nestes casos, o critério deve aumentar e o cuidado deve ser redobrado, mas as regras não mudam. “É importante pensar que em todos os momentos da economia o consumo sempre vai existir. Com uma crise, certos setores podem até sofrer, mas vão continuar funcionando. E por que não enxergar uma oportunidade? Não podemos deixar de pensar que se empresas recuam, deixam o mercado desguarnecido. Aí está uma chance de novas empresas entrarem e ocuparem o espaço.”