31/10/2014 00:00:00 Mercado de crédito se fortaleceu em setembro


O mercado de crédito brasileiro se consolidou em setembro com a segunda queda consecutiva da taxa de juros, estabilidade do calote e o aumento de 7,4% das concessões, após surgirem os reflexos das medidas de estímulo aos financiamentos feitos pelo Banco Central em julho e agosto. Mas nuvens mais negras são aguardadas à frente para esse segmento com o aumento inesperado da taxa básica de juros na quarta-feira, 29, promovida pelo mesmo BC, para 11,25% ao ano. 

"São coisas distintas", afirmou o chefe do Departamento Econômico do BC, Tulio Maciel, que não quis comentar a decisão da cúpula da instituição da véspera. As medidas adotadas lá atrás, segundo ele, não tinham como objetivo estimular o crédito. "Eram de caráter regulatório, portanto, não foi contraditório (com a elevação da Selic)", argumentou. 

O mesmo economista do BC, no entanto, admitiu que o aumento da concessão de financiamentos para automóveis, um dos principais focos das medidas na ocasião, era esperado e já seria reflexo "gradual e defasado" daquelas ações. Apenas em setembro, o aumento das concessões de empréstimos para veículos foi de 11%, atingindo o maior valor do ano, de R$ 8,5 bilhões. Segundo ele, não é possível dizer se esse movimento de alta vai persistir. 

Até porque o cenário para o mercado de crédito brasileiro tende a mudar com a decisão de alta dos juros - no mercado financeiro já começaram a surgir projeções sobre a magnitude e a extensão desse ciclo. "Claro, o efeito de uma elevação da Selic sobre as taxas ativas também é de elevação", considerou. 

Em setembro, o juro médio cobrado no mercado foi de 31,9% ao ano. Para pessoas físicas, fechou o mês passado em 42,8%. Maciel comentou que essa taxa tem oscilado em torno de 43% nos últimos meses. "As taxas vêm crescendo desde o ano passado e chegaram a esse patamar depois da interrupção de alta da Selic", disse, citando o mês de abril de 2014. 

Em quanto tempo se dará essa transmissão do avanço da Selic para as demais cobranças de juros, é uma incógnita, segundo o técnico. Isso porque o repasse depende de uma série de outras variáveis econômicas, como a demanda por financiamentos, por exemplo. Apesar disso, o economista manteve a estimativa feita no mês passado de expansão do crédito no País em 12% ao ano - em 12 meses até setembro estava em 11,7%. A próxima revisão das projeções do BC só se dará em dezembro. 

Calote
A inadimplência ficou estável em 5% em setembro sobre agosto, com o calote entre os endividados (6,6%) maior do que entre as companhias (3,6%). Ontem, o BC divulgou que houve uma nova queda do endividamento das famílias brasileiras com o sistema financeiro em agosto - dado mais recente disponível. A taxa estava em 46,01% em julho e passou para 45,97% no mês seguinte, a mais baixa desde maio (45,96%). 

Se forem descontadas as dívidas imobiliárias, o endividamento cai para 28,65% da renda anual em agosto ante 28,86% em julho. Esta taxa de dois meses atrás - a menor desde setembro de 2009, quando os reflexos da crise internacional de um ano antes estavam mais latentes. Na ocasião, estava em 28,55%. Ainda segundo o BC, o comprometimento de renda das famílias com o Sistema Financeiro Nacional (SFN) ficou em 21,47% em agosto. O dado, apresentado com ajuste sazonal, também é o mais baixo desde março deste ano, quando ficou em 21,40%.