27/05/2016 00:00:00 Na Mercado em Foco: As pontes de Orsi

Aos 61 anos, o londrinense Valter Luiz Orsi, industrial do setor metalúrgico, é um lutador que não se abate com a pior crise econômica dos últimos 25 anos. Antes de ser um obstáculo para suas pretensões de líder empresarial, a triste conjuntura brasileira funciona para ele como um estímulo para congregar e dar unidade ao setor produtivo. Do limão dos indicadores negativos, ele faz a limonada de um associativismo mais forte e atuante.

Por Lúcio Flávio Moura - Revista Mercado em Foco

O presidente da Associação Comercial e Industrial de Londrina é um especialista em construir pontes: une os pequenos e grandes empresários contra o aumento de impostos e contra a corrupção, aproxima as principais entidades da sociedade civil de Londrina, harmoniza as demandas da iniciativa privada e do poder público municipal. “Acredito que este tipo de atuação deva se perpetuar porque todas as partes envolvidas entenderam que assim é melhor para cada um de nós e melhor ainda para Londrina”, diz Valter Orsi, convicto nos resultados de dois anos de trabalho intenso à frente da ACIL. 

Em julho, ele completa sua segunda passagem no comando da entidade, uma honra reservada apenas ao fundador David Dequêch (1937-1944 e 1949-1959) e a outros três líderes históricos – Lizandro de Almeida Araújo (1962-1965 e 1972-1973), Olavo Garcia Ferreira da Silva (1974-1975 e 1976-1977) e Nilo Dequêch (1978-1979 e 1982-1983).

Guardião da vocação histórica da entidade – o papel de estimular a competitividade do empresariado –, Orsi também teve participação incansável na articulação da sociedade civil no período, com a criação do G7 (Grupo de Defesa Econômica de Londrina) e dos movimentos cívicos Pé Vermelho, Mãos Unidas e Brasil, Mostra Sua Garra.

Confira a entrevista à Mercado em Foco em que Orsi faz um balanço da segunda gestão, comenta as diferenças dos dois períodos na presidência (1998-2000 e 2014-2016), explica como é exercer o papel de liderança em um ambiente tão hostil e na qual prevê a consolidação de um novo ciclo de industrialização na próxima gestão municipal.

Mercado em Foco: Como foi a experiência de voltar ao posto que marcou tanto sua biografia?

Valter Orsi: Depois de ocupar o mesmo cargo 15 anos mais experiente, em um ambiente tão diferente da primeira passagem, posso dizer que foi um biênio muito rico. Desta vez havia uma sinergia entre os interesses da entidade, de outras instituições importantes, da Câmara de Vereadores e da Prefeitura. Esta coesão, inclusive no âmbito da diretoria, foi decisiva. Em prol do desenvolvimento do município, atuamos mais efetivamente nos principais debates da cidade, numa relação estreita com o poder público, tanto no sentido de fiscalizá-lo quanto no de apoiá-lo. A cada manifesto, temos uma posição muito mais fortalecida graças a esta unidade nas intenções. Acredito que este tipo de atuação deva se perpetuar porque todas as partes envolvidas entenderam que assim é melhor para cada um de nós e melhor ainda para Londrina. 

Mercado em Foco: Quais foram as principais diferenças daquela primeira passagem pelo cargo – entre 1998 e 2000 – para esta, já na reta final?

Valter Orsi: Tive a felicidade de viver dois momentos extremamente diferentes. Na primeira, estávamos ainda no século 20, quando as cobranças eram feitas por cobrador, porta a porta. Hoje a ACIL é uma entidade que agregou tecnologia nos seus processos, modernizada, mais dinâmica, com um leque de serviços muito mais abrangente. Em relação às relações externas da entidade, a mudança foi ainda mais profunda. A gestão de 1998-2000 foi marcada por muita turbulência política (neste período a gestão municipal foi abalada por um grande escândalo de corrupção que culminou com a cassação e a prisão do então prefeito Antonio Belinatti). Esta turbulência afetava diretamente as atividades da ACIL porque a entidade é uma espécie de antessala do município, por onde todo mundo passa e por onde todas as informações correm. A cidade estava muita agitada, primeiro com a venda das ações da Sercomtel e uma enorme esperança que gerava todo aquele montante para nossa economia; depois, com o “desaparecimento” do dinheiro, com a omissão da maioria dos vereadores, com o avanço das investigações no Ministério Público e com a mobilização da sociedade civil. Nossa energia era usada apenas para romper barreiras, não realizávamos. Quando eu voltei, havia uma calmaria e todos caminhando para o mesmo lado. Hoje a ACIL está na Prefeitura e a Prefeitura está na ACIL. Também há boas relações com o Legislativo. Hoje há um foco comum de desenvolvimento e uma preocupação muito maior com a qualidade na gestão do que com política.

Mercado em Foco: Produzir riqueza e gerar empregos durante uma crise econômica tão profunda é uma prova de fogo para o setor produtivo. Como líder empresarial, o que o senhor diria para quem está com medo do futuro?

Valter Orsi: A situação é muito delicada. Como líder você tem que lidar com setores que estão em situações diferentes. Alguns estão mais preparados porque já estão atuando com base em inovação e ainda conseguem se inserir no mercado. Outros setores estão mais frágeis porque estão defasados e não têm fôlego para se manter. Porém, algumas considerações podem ser úteis de forma geral. São ações muito difíceis de serem implementadas, mas absolutamente necessárias. O empresário deve priorizar a produtividade dos empregados, fortalecer o setor de vendas porque a concorrência está muito mais acirrada, melhorar o produto e o preço. Tudo isso hoje é uma questão urgente e significa a sobrevivência no mercado. Ao mesmo tempo, se estes empresários fizerem esta lição de casa, eles estarão muito mais fortes quando o cenário melhorar.

Mercado em Foco: Há um consenso entre os economistas e o setor produtivo sobre os erros recorrentes do governo Dilma na condução da política econômica. Por outro lado, a ideia de que a crise política é o fator mais dramático para a degradação do cenário também é muito propagada. O que o senhor acha destas duas correntes de pensamento?

Valter Orsi: Estamos no pior dos mundos: recessão com inflação. É claro que para se chegar numa condição como esta é preciso que a condução macroeconômica tenha falhado bastante. Mas creio que o grande problema é mesmo a crise nas lideranças, a falta de confiança no governo.  Nenhuma economia resiste ao medo. Eu brinco dizendo que esta crise poderia ser resolvida em 10 minutos, se o setor produtivo olhasse para o espelho ao mesmo tempo e dissesse “puxa vida, as coisas melhoraram. Vou tirar aquela economia do cofre porque agora eu estou seguro”. Isso faria tudo se movimentar rapidamente, com a contratação de serviços que estavam engavetados, com planos de investimentos saindo do papel, com a criação de novas oportunidades de trabalho. Basta uma dose de confiança, saber qual rumo o país, enfim, tomou, para isso acontecer. Um exemplo é a Argentina: a simples mudança no comando mudou o astral do País.

Mercado em Foco: A opinião pública está mergulhada no ceticismo como nunca esteve antes, com a sensação que a corrupção é uma chaga invencível na sociedade brasileira. O senhor também perdeu a esperança?

Valter Orsi: Quem lutou contra a corrupção na Prefeitura 15 anos atrás sabe que os esquemas ocorriam à luz do dia e não se sabia o que fazer para combatê-los. Entendo que hoje a situação é bem menos grave. Os instrumentos de combate são mais fortes, a legislação ficou mais rigorosa – temos que lembrar da Lei da Ficha Limpa, por exemplo – e há iniciativas não-governamentais muito eficientes, como é o caso do Observatório da Gestão Pública, aqui em Londrina e em outros municípios. Estamos caminhando para a aprovação das Dez Medidas Contra a Corrupção, uma iniciativa do Ministério Público Federal que a população abraçou. Estamos mais indignados e corajosos contra os desonestos. Em geral, as instituições melhoraram, mas, é claro, ainda há muito o que caminhar.

Mercado em Foco: O que o senhor espera da próxima gestão municipal?

Valter Orsi: Londrina precisa de duas boas gestões consecutivas. Temos muitas deficiências, mas a atual gestão mantém as contas equilibradas, formula muitos projetos estruturantes nas áreas essenciais e, até prova em contrário, é honesta. Hoje temos um Plano Diretor, que ficou muito tempo em discussão, temos conselhos fortalecidos, com ativa participação da sociedade civil. Avançamos também na questão do empreendedorismo, que se encorpou com os canais de fomento, com o atendimento mais eficiente e com o aperfeiçoamento das garantias de crédito. A ACIL tem muito orgulho de ter contribuído para todas estas conquistas. Creio que a sociedade pode contribuir muito na próxima gestão. Daqui para frente tenho uma grande expectativa em relação aos novos parques industriais. Queremos que a agência de atração de investimentos, que é apoiada pela ACIL, comece de fato a funcionar e seja decisiva neste esforço de industrialização, derrubando todas as muralhas construídas ao longo do tempo. E também acredito muito no projeto Cidade Genial, que vai garantir que Londrina se torne um polo de Tecnologia da Informação (TI) com destaque nacional. Em pouco tempo poderemos nos surpreender com a industrialização e da melhor maneira, sem agredir o meio ambiente.