29/10/2014 00:00:00 Moedas desaparecem do comércio londrinense

Fonte: JL

Em tempos de crise, poupar moedinhas se torna hábito comum. A dona de casa Beatriz Alves Ferreira se tornou adepta da prática há três anos e, graças a isso, conseguiu comprar um fogão e uma TV de plasma de 32 polegadas para dar cara nova à própria cozinha. “Decidi que só iria guardar moedas de R$ 0,50 e R$ 1. Começo em janeiro e só quebro o cofrinho em dezembro. Em média, consigo poupar até R$ 1 mil por ano”, conta.

Apesar do retorno positivo para quem poupa, o hábito é apontado como uma das causas para a falta de moedas generalizada no comércio de Londrina. Proprietário de uma lanchonete no Jardim Shangri-Lá, na zona oeste, e de uma casa de carnes na Vila Iara, no centro, Renato Bertoluci conta que o problema ficou mais grave há cerca de 40 dias. “Faz mais de seis meses que enfrento o problema, mas neste último mês está ainda pior.

Para driblar a falta de moedas para troco, Bertoluci diz que utiliza uma técnica no mínimo peculiar. Nos finais de semana, ele passa pelas igrejas do bairro onde mora para trocar dinheiro por moedas. “Já tentei trocar em mercados e até no banco, mas não tem [moedas]. A falta é geral.”

Funcionário da agência dos Correios no Jardim Shangri-Lá, Josiê Sambati confirma o cenário. Ela conta que o problema é antigo, mas tende a melhorar em dezembro e janeiro. “Nessa época, as pessoas começam a gastar as moedas que economizaram durante todo o ano.”

O presidente do Sindicato dos Empresários Lotéricos do Paraná (Sinlopar), Aldemar Mascarenhas, relata que fixou um cartaz na própria Casa Lotérica para estimular os clientes a fazerem pagamentos em moedas. “Já conseguimos clientes que trocaram até R$ 600 em moedas. Precisamos criar alternativas porque nos bancos realmente não tem [moedas].”

A funcionária da Banca Com-Tur, Marília Nishikawa, afirma que, recentemente, trocou dinheiro para um funcionário do Banco do Brasil (BB). “Eles sabem que na banca entra bastante dinheiro trocado. Por isso, quando faltam moedas lá, eles vêm trocar aqui.”

A Caixa Econômica Federal (CEF) confirma o problema em Londrina. De acordo com o banco, a responsabilidade em distribuir moedas é do BB. No entanto, nenhum representante deste último foi localizado para comentar o problema.

Uma exceção parece ocorrer no setor de transporte. O Sindicato das Empresas de Transporte Coletivo de Londrina (Metrolon) relata que o problema não ocorre nos ônibus, porque a maioria dos usuários utiliza o cartão magnético para fazer o pagamento das passagens.

A Associação Comercial e Industrial de Londrina (Acil) diz que, formalmente, não foi ainda comunicada sobre o problema da falta de moedas pelos comerciantes.

Fabricação de moedas diminuiu no País

O sumiço do troco na rede bancária se deve, também, aos cortes sucessivos no orçamento do Banco Central (BC). Sem recursos, a instituição foi obrigada a reduzir as encomendas de moedas para menos de um terço dos pedidos feitos no ano passado. Em cédulas, foram solicitadas menos da metade das unidades de 2013, segundo o contrato firmado entre o BC e a Casa da Moeda, responsável pela fabricação de dinheiro no País.

De janeiro a setembro deste ano, a Casa da Moeda produziu 654 milhões de cédulas e 286 milhões de moedas, quantidade significativamente inferior à dos últimos anos. Em 2012, por exemplo, foram 2,8 bilhões de cédulas e 1,2 bilhão de moedas. 

Até o momento, porém, não há evidências de que essa produção menor tenha se refletido em diminuição da base monetária - o dinheiro em circulação. Uma hipótese para isso é de que, para economizar, o BC tenha, por exemplo, mandado imprimir uma nota de R$ 100 no lugar de cinco de R$ 20. (Estadão Conteúdo)