06/03/2015 00:00:00 52% dos novos empreendimentos são comandados por mulheres

Fonte: Juliana Mastelini - Revista Mercado em Foco

As mulheres sempre participaram da vida econômica do país. Seja saindo de suas casas para trabalhar ou trabalhando em casa, dando suporte para que os maridos pudessem acumular capital financeiro para a família. Hoje, elas lideram a maioria dos novos negócios: 52% dos empreendimentos com menos de três anos e meio são comandados por mulheres, aponta a GEM (Global Entrepreneurship Monitor), pesquisa anual sobre empreendedorismo. 66% delas abrem um negócio porque viram uma oportunidade. “Ou seja, elas têm um olhar empreendedor e enxergaram ali uma possibilidade, não que necessariamente faltava emprego no mercado de trabalho e elas precisaram abrir um negócio para se virar”, explica a consultora do Sebrae Liciana Pedroso.


Para Liciana, a mulher vê no empreendimento uma possibilidade de conciliar trabalho e vida pessoal, com mais flexibilidade para a atenção aos filhos e à família. “A maioria delas acaba trabalhando ainda mais no empreendimento do que trabalhava antes, mas tem mais flexibilidade e assim pode conciliar essas questões”, explica Liciana.


A Temp’s, temperos desidratados, da empresária Vaniza Goulart Costa, nasceu da possibilidade de conciliar família e trabalho. Quando viajou com a família para a Argentina em 2013, uma pergunta já ocupava o pensamento de Vaniza: “O que eu vou fazer da vida?” E foi na mala que ela trouxe a resposta: temperos.


Vaniza é pedagoga, trabalhou por cinco anos na área, mas teve que deixar o emprego para cuidar dos filhos: cinco no total. Na visita à Argentina conheceu os temperos desidratados vendidos nas feirinhas de rua do país. Achou aquilo uma boa ideia e uma oportunidade para trabalhar aqui. De volta ao Brasil, foi pesquisar onde poderia comprar os temperos para embalar em porções menores e vender. “Falei com meu marido, que, mesmo meio desacreditado, investiu na ideia. Então eu compro os produtos prontos e embalo num recipiente próprio para a dona de casa. São potes práticos que facilitam muito a rotina de casa”, conta Vaniza.


Desde o momento em que decidiu montar o negócio, a empresária busca se atualizar, estudar e começou até a dar mais valor aos programas de culinária da TV. “Antes eu nem ligava para esses programas, mas agora assisto porque eles usam todos esses temperos desidratados que eu trabalho e sempre dão dicas de como usar. São coisas que eu nem conhecia antes.” Dessa forma, além de vender, Vaniza presta uma assessoria aos clientes e mostra as qualidades do seu produto, baseada na sua experiência em casa. “Eu costumo dizer que o pacotinho não fala com você, então eu procuro sempre estudar pra conversar e explicar para as pessoas. E elas se interessam muito em aprender, saber como dá pra usar. As próprias clientes compartilham as suas experiências”, conta Vaniza.


A busca por informações é uma das peculiaridades das mulheres apontadas pela consultora do Sebrae. “Além de terem maior grau de escolaridade, elas buscam mais informações do que os homens quando estão empreendendo. Assim, quando um cliente chega, por exemplo, elas são mais detalhistas, estão mais atentas e podem dar um suporte melhor”, explica.


Vaniza montou o seu negócio em casa, empacotando os temperos e vendendo para as amigas. E seu público foi aumentando. “Uma foi indicando para a outra e agora tenho clientes que não ficam sem os temperos. No final do ano passado, meus temperos foram levados para diversos estados do país.” Hoje, com menos de dois anos de negócio, a empresária se prepara para se estabelecer num local próprio onde futuramente será sua loja. “Dentro de 20 dias o local estará pronto, só falta a vigilância liberar para mudarmos”, conclui.


Um universo de colaboração


Segundo a consultora do Sebrae, comparadas aos homens, as mulheres tem mais sensibilidade, estão disposta a ouvir e refletir mais as decisões que tem que tomar. Ao contrário dos homens, que costumam ser mais práticos. “Cada característica funciona para certas coisas. Não que um seja melhor que o outro, mas se complementam”, afirma.


O comércio é a área de maior concentração das mulheres. Para a consultora do Sebrae, isso se deve a questões culturais. “A ideia que se tem da indústria, por exemplo, é que é uma coisa mais pesada, os serviços também. Mas já está havendo uma quebra de paradigma, as mudanças acontecem aos poucos”, completa.


Liciana lembra que as mulheres sempre trabalharam, mas não eram reconhecidas. Chegou um momento em que elas começaram a assumir outras responsabilidades. “Houve uma ruptura e elas decidiram trabalhar para ganhar dinheiro, se viram empreendedoras. É uma história de conquistas que dependem de mudanças culturais. Sem essas mudanças o mundo não se sustentaria. Sempre depois de um momento de rupturas as coisas vão se ajeitando”.


Esse universo de conquistas da mulher ainda está em processo. Tanto que o número de mulheres à frente ou como executivas de grandes empresas ainda é baixo. “É uma escalada, as empresas que são grandes hoje, um dia foram pequenas. As mulheres são maioria na chefia de novos empreendimentos que um dia também serão grandes. Mas como executivas, as mulheres ainda são minoria. É uma questão cultural que aos poucos vai mudando. Hoje as mulheres disputam o mesmo espaço com os homens e convivem com eles num ambiente de cooperação. Já avançamos muito, mas ainda vai um período para suprir o tempo de desigualdade”, completa Liciana.


A patinação como negócio


“Trabalho, trabalho, trabalho”. Esse é o segredo dos 25 anos da escola Dancing Patinação da empresária Juliana Bicalho. Há 43 anos no esporte, Juliana é pioneira na patinação em Londrina. Trabalhava como professora de patinação em São Paulo quando o namorado mudou-se para Londrina, no final da década de 80.


Ela concordou em acompanhá-lo, mas com a ideia de trazer a patinação pra cá. Juliana, então, apresentou projeto a três clubes de Londrina e um deles a chamou para que começasse a dar aulas. Um espetáculo de patinação inaugurou a escola em 1989 no Clube Canadá. “Com seis anos em Londrina, a escola já contava com 200 alunos. Aí tivemos a oportunidade de montar uma escola própria na avenida Santos Dumont, onde ficamos por 19 anos. E há oito meses estamos em um local novo na avenida Harry Prochet”, conta Juliana.


O maior desafio que a empresária enfrentou foi implantar a cultura da patinação em Londrina. Mas ela também encontrou na cidade um campo propício para o trabalho, tanto que depois do espetáculo de inauguração e na abertura da escola, já havia 30 crianças matriculadas. A partir daí, trabalho e dedicação foram essenciais. “Tem que ter persistência para superar as dificuldades e transformá-las em oportunidades, saber lidar com problemas e ser organizado. E não se acomodar. Em vez disso, buscar fazer o melhor sempre. O empresário é uma multifunção, que faz de tudo um pouco e conhece de várias áreas. Mas é essencial se cercar de bons profissionais e boas empresas que o auxiliem”, explica.


Para Juliana, a característica principal da pessoa empreendedora é que ela não depende de fatores externos para fazer algo. “O empreendedor tem um inconformismo intrínseco positivo que o leva sempre a fazer melhor. Ele não fica muito tempo no mesmo patamar. Sempre busca se aprimorar, criar. Tem gente que gosta de segurança, saber que vai fazer sempre a mesma coisa todo dia. Já o empreendedor gosta de aprimorar, de criar”, conclui Juliana.


Oportunidade de empreender


Foi a oportunidade que fez com que Maria do Rocio Lázaro Rodrigues abrisse a Dhermus Farmácia de Manipulação em 1994. Depois de se formar na graduação em Farmácia, Maria trabalhou um ano em um laboratório de bioquímica, mas seu sonho era ter uma farmácia. Foi então que, junto com uma sócia teve a possibilidade. “Na época não tinha tantas farmácias de manipulação como tem hoje. Era uma coisa nova. A farmácia era um sonho que eu sempre tive e a minha sócia, que ficou comigo apenas seis meses, foi alguém que deu coragem.”


A farmácia começou bem pequena e nela trabalhavam apenas as duas sócias. Hoje, o estabelecimento conta com 16 funcionárias e trabalha com manipulação de produtos para animais e humanos e com revenda de medicamentos e produtos de nutrição com foco na qualidade de vida. “Todas as funcionárias são mulheres, até as entregadoras. Na manipulação de remédios geralmente é mulher que trabalha mesmo. Elas são mais focadas e mais delicadas na manipulação. E eu vejo as entregadoras saindo com a moto, tem mais cuidado com os produtos. Na verdade nem aparece homem procurando emprego na farmácia. Acho que por ser tudo rosa, acaba assustando um pouco”, explica Maria do Rocio.


Segundo a empresária, para manter-se no mercado há tanto tempo é preciso muito trabalho e acreditar no sonho. “Além de estar sempre se atualizando, se modernizando e buscando informações”, conclui.


Conselho da Mulher Empresária da ACIL


Com 30 anos de existência, o Conselho da Mulher Empresária (CME) da ACIL traz o olhar feminino para a associação. Para 2015, o conselho planeja ações que estimulem e contribuam com o empreendedorismo feminino em Londrina. O conselho busca aproximar as mulheres empresárias e debater assuntos de interesse delas e, assim, renovar conhecimentos, fomentar o associativismo e atuar na defesa social, cultural e econômica da mulher. “Oferecemos cursos, capacitações, debates que visam fortalecer e integrar as mulheres empreendedoras, envolvendo-as nas ações da ACIL”, explica a presidente do CME/ACIL, Marisol Chiesa.