10/02/2020 08:33:46 O Brasil sob o ponto de vista de um filósofo

Fonte: Susan Naime - Revista Mercado em Foco/ACIL

Divulgador do pensamento “liberal-conservative” ou conservadorismo liberal, Luiz Felipe Pondé viaja por todos os cantos do Brasil para dividir sua bagagem realista e intelectual - muitas vezes baseada num certo pessimismo relacionado à sociedade moderna. Escritor, filósofo e fã declarado de Nelson Rodrigues, seus posicionamentos combinam políticas conservadoras com elementos liberais, especialmente quando o assunto diz respeito a questões econômicas. Não é à toa que sua coluna semanal na Folha de São Paulo é uma das mais discutidas da imprensa brasileira. Seus aforismos sobre o cotidiano se estendem ao Jornal da Cultura, na TV Cultura, onde é comentarista. Em uma recente e rápida passagem por Londrina, Pondé reservou um período da sua agenda para conversar com nossa reportagem sobre o atual momento do País. Confira a seguir.

Mercado em Foco: Você tem viajado pelo Brasil para falar sobre o desafio da mudança. Qual é essa mudança que você acredita que precise acontecer?

Luiz Felipe Pondé: É uma mudança mais comportamental, inclusive porque a própria ciência política está migrando para objetos com comportamento, cognição. Hoje, qual é a capacidade que as pessoas têm de entender as variáveis? E no jogo político são muitas variáveis. Então, não é deixar de lado, mas acho que é preciso tirar um pouco o foco de atenção de cima da ideologia. A ideologia foi a grande estrela da ciência política e da filosofia do século XX, mas agora no século XXI a ciência política tem olhado para questões comportamentais, até mesmo através de pesquisas empíricas para entender como funciona o eleitor, como ele reage. A verdade é que o eleitor não se informa, e quando se informa, se informa para reestruturar, reorganizar e reforçar suas próprias opiniões. A ideia de que você se informa sobre política para fazer crítica é uma mentira, é um fetiche. Por isso, me interessa muito mais mudanças de comportamento, inclusive, sobre a disrupção que as redes sociais causam na vida política, a desorganização, a combustão, a dispersão. Estamos começando a entender o que tem mais força para gerar dispersão nas redes sociais e qual o impacto disso. No Brasil, em 2018, quem teve mais poder de tração ganhou as eleições. Será sempre assim?

MF: A partir desta visão, o que você diria que está em risco no Brasil?

LFP: A primeira coisa que eu diria que está em risco, e é um risco bom, é a nossa função utópica. Acho que a utopia quase sempre atrapalha. Historicamente, toda utopia virou distopia. O fascismo foi uma utopia, o comunismo foi uma utopia, a contracultura foi uma utopia. Existe um autor americano que eu gosto muito, Thomas Sowell, que afirma existir dois modos básicos de compreender o comportamento humano: a visão irrestrita e a visão restrita. A visão irrestrita é aquela que tende à utopia. Já a visão restrita é mais comedida, menos feliz, menos alegre, é aquela que é um pouco mais realista. Então, acho que a primeira coisa que está em risco é a necessidade de se diminuir a percepção irrestrita das possibilidades humanas. Agora, também está em risco a nossa capacidade de amadurecimento, acho que há uma tendência à desvalorização do amadurecimento. As pessoas querem ser adolescentes a vida inteira, não querem ter responsabilidade com nada, querem só se divertir, e isso seguramente já está causando estrago, já causou estrago na geração dos mais jovens.

MF: Já que citou a utopia, o que você pensa sobre o discurso de que o empresário precisa ser otimista o tempo todo?

LFP: Eu penso que os empresários realmente precisam em grande medida serem otimistas, mesmo porque se você tiver o próprio dono da sua empresa como uma pessoa pessimista, a chance de dar tudo errado é muito grande. Mas ao dizer isso, não significa que eu não reconheça que estar sendo otimista também pode causar danos psicológicos, morais, físicos, transformar você em uma pessoa um tanto paranoica, hiperativa e pouco empática, mas ao mesmo tempo é importante ser otimista. O fato de que às vezes a realidade é constituída de elementos não integrativos enlouquece. É necessário levar em conta o que se chamaria de elementos humanos no mundo corporativo. Hoje, as pessoas estão mais reclamantes, mais ressentidas, mais informadas, entram em combustão muito rápido, mas ao mesmo tempo elas têm que produzir.

MF: As pessoas esperam muito do outro, muito do governo, por exemplo?

LFP:
No caso do Brasil, sim. Nosso país tem uma população muito pobre, uma classe política historicamente irresponsável, uma elite historicamente cretina e irresponsável, que não assume responsabilidades. A posição liberal exige que se fique muito em pé por si só, exige aguentar o tranco, acordar otimista, ter muita energia, muito tesão pelo que faz. Então é mais fácil você esperar e pedir do outro. Mas a verdade é que viver é sangrar, não tem jeito. E sobre a ideia de que o estado vai conseguir resolver tudo, não podemos esquecer que no Brasil temos um estado disforme que arrecada muito e entrega pouco. De um lado, você tem uma elite que sempre foi politicamente irresponsável, então, quando entra o discurso liberal, parece que você está fazendo o discurso da elite, mas o discurso liberal é do extrato médio da camada produtiva, e não dos grandes capitalistas. É esse que sofre, que dá emprego, que não participa da grande corrupção, e quando participa é para sobreviver.

MF: Você já afirmou em seus debates que a desorganização política que o mundo vive pode ser um ponto positivo. Por quê?

LFP: Primeiro, uma certa desorganização traz de volta a vida. A vida é organização, mas ela é organização sempre ameaçada pela desorganização. Então eu acho que a desorganização é positiva porque ela traz para a realidade, ela chama para a necessidade de você organizar melhor, pensar em coisas que você não tinha pensado. No caso específico, a desorganização que estamos vendo na política me parece positiva pra gente, inclusive, parar de esperar tanto da política, que é uma das outras coisas que a gente tem esperado ao longo do século XXI inteiro. Não sem razão, mas eu acho que esperar demais da política, dos políticos e do estado, às vezes atrapalha a sua ação.

MF: Como você analisa o atual momento político do Brasil, o governo Bolsonaro e até o futuro das reformas que estão sendo discutidas?

LFP:
Pensando nessa trindade das reformas – trabalhista, previdenciária e tributária, acho que elas são necessárias para organizar um pouco o estado brasileiro, que é um estado caótico e burocrático, que não serve a camada mais pobre da população. Ele é montado para servir a ele mesmo, é voltado a extorquir a sociedade e alimentar a ele mesmo. E continua assim em grande medida. Essas reformas lentas, graduais e doloridas são necessárias para um país que tem capacidade econômica sob a mordaça do pequeno e médio empresário. Sobre o governo Bolsonaro, um dos elementos que atrapalha essa administração é o próprio Bolsonaro, a sua família e a desarticulação política do seu partido [O PSL ainda era o partido do Bolsonaro quando a entrevista foi concedida]. O PSL é um exemplo didático da perversão que é o fundo partidário, onde você cria uma sigla que não existe, tem dinheiro, e aí você organiza um suposto partido com pessoas que não têm nenhuma relação, não tem nenhuma organicidade. O resultado é essa dificuldade de articulação que vemos no atual governo, que vai sobrevivendo graças à micro e pontual competência de alguns elementos do Legislativo, e até mesmo da equipe econômica que vai desenrolando essas reformas, por exemplo. Então, acho que o governo Bolsonaro, naquilo que ele funciona, não é graças ao Bolsonaro. O Bolsonaro acabou navegando na competência técnica da sua equipe em redes sociais.

MF: É grande a discussão política de que as pessoas têm que ser de direita ou de esquerda. Como filósofo, de que forma você avalia o quanto isso pode ser ruim ou prejudicial para o país e para a sociedade?

LFP: Eu acho que no ponto de vista do debate político eleitoral e do ponto de vista da tentativa de entendimento do que é a vida política hoje, isso é quase sempre negativo. Não concordo com quem acha que a polarização é boa. Entendo que ela é parte do jogo. Ela é parte, inclusive, de uma democracia que vive em redes sociais. Ela é parte do sinônimo, é um sintoma, é um modo de ação, mas eu não acho que ela seja positiva.

Acredito que ela empobrece a semântica, acirra os afetos, dificulta o mútuo entendimento. Não estou querendo ser idealista no sentido de dizer que as pessoas podem chegar a um consenso. Eu acho que o problema da polarização é que ela, inclusive, escraviza a classe política, se usa dela para ser eleito. Iremos ver neste ano, durante o pleito eleitoral para as prefeituras e vereadores – que já servirá como um ensaio da grande eleição de 2022, se a polarização será de novo a ferramenta que vai eleger os candidatos. E esse não é um problema ideológico, é um problema de comportamento.

MF: Considerando todo esse contexto, em sua visão, qual é o grande desafio da sociedade?

LFP:
Para além da política, existe um grande desafio que é a desorganização da vida afetiva e do comportamento na medida em que a gente vai entrando no mundo das redes sociais. As pessoas viraram produtos de si mesmas, as vidas são editadas no Instagram, existe um certo protocolo da mentira em toda parte. Em termos, digamos, comportamentais das pessoas, para além do debate político, eu acho que há um grande desafio que é resistir à demanda que se minta o tempo inteiro.