24/07/2017 08:08:04 O desafio de construir novas pontes

Fonte: Revista Mercado em Foco - ACIL - Por Celso Felizardo 

 

Na primeira metade da década de 1940, chegar ou sair de Londrina não era tarefa simples. A travessia do Rio Tibagi só era possível pelo trem ou por meio de balsa. A construção de uma ponte rodoviária ligando o chamado sertão ao restante do estado era o primeiro gargalo para o desenvolvimento da cidade que ultrapassaria os 500 mil habitantes e se tornaria uma potência do Interior.

O problema na época era conseguir recursos para tal feito. Criada há apenas quatro anos, a ACIL elegeu a construção da ponte como uma de suas primeiras bandeiras. A conquista se deu durante uma visita de Manoel Ribas, em 1941. Após alguns drinques, o interventor federal nomeado por Getúlio Vargas anunciou que o Estado arcaria com 50% do valor da ponte. Para erguer a outra metade, a diretoria da ACIL fez a doação de milhares de sacas de café, além de promover rifas e outras campanhas. Em 1944, o sonho se tornou realidade.

Agora, em meio às comemorações pelos 80 anos, a Associação Comercial resgata o histórico de engajamento nas questões essenciais ao município de olho nos novos desafios. Quais as novas pontes a serem construídas? Para responder a esta pergunta, a diretoria convidou seis associados para um bate papo nas dependências da instituição. Após um café da manhã, eles discutiram sobre o papel da instituição, sobre a cidade e também sobre a importância do associativismo. A conversa de quase duas horas foi mediada pelo superintendente Diego Menão.

Oxigenação

A empresária Izabel Diez, proprietária da relojoaria Diez e Diez, elogiou a iniciativa e destacou a importância da proximidade entre associação e associados. "Estou no mercado há 60 anos e já passei por várias crises. Gostei muito dessa iniciativa porque nos permite trocar informações", comentou. "Encontrei muita gente jovem aqui e achei excelente. Nós que já estamos no mercado há mais tempo precisamos dessa oxigenação, aprender coisas novas", completou.

De outro lado está Tatiane Lopes Martins, de 30 anos. Mais jovem do grupo, ela é proprietária da Auto Peças Tibagi. Associada há cinco, começou a participar mais ativamente da associação nos últimos dois anos. "Não sabia de 20% do que é oferecido - serviços, produtos. Sou jovem e ainda fico um pouco assustada em tocar meu negócio. É muito bom poder conversar com pessoas mais experientes, que já passaram pelo que eu estou passando", disse.

Para ela, os cursos são um dos principais atrativos da instituição. "Gosto muito dos cursos de capacitação. Sou formada em Administração e pós-graduada em Logística, mas os cursos me deixam muito antenada com o que está acontecendo. Além do mais, o contato humano é muito bom", considera. Tatiane acredita que criar uma rede de contatos é fundamental para sobreviver em tempos de crise. "Essa união é fundamental, nos faz mais fortes".

Networking

A troca de experiências também é fundamental para Alexandre Takashi, da agência de viagens Takashi Tur, uma das primeiras empresas do ramo de Londrina. "Meus pais nunca foram muito participativos dentro da ACIL. Mas eu vejo que é muito importante esse networking. Como segunda geração, espero participar mais", externou. Para ele, uma das prioridades da entidade é ajudar o município a encontrar uma nova identidade. "A grande questão é definir como nós queremos ser vistos? Acho que falta um pouco disso. Não temos uma marca. A do café já ficou para trás. As pessoas têm que ter um certo posicionamento na cabeça quando pensam em Londrina. Não vejo isso hoje", opinou.

Takashi usou o exemplo de cidades da serra gaúcha que conseguiram se firmar como polos turísticos investindo em identidade. "É claro que é um outro universo, mas em Gramado e Canela os projetos têm um foco bem definido. Eles imprimiram uma marca, criaram uma identidade em um lugar que não era visitado. Será que não podemos tentar algo assim aqui? A partir do momento que tivermos essa marca, nós associados podemos trabalhar para propagá-la", sugeriu.

Rodolfo Peccin Motti, de 36 anos, é da segunda geração de proprietários da Dislon Solution, distribuidora de produtos industriais. Há quatro anos trocou São Paulo por Londrina e não se arrepende da mudança. Apesar de tecer elogios à cidade, lembrou a carência do setor industrial. "Hoje Cambé e Ibiporã têm parques industriais mais modernos que o nosso. Temos que ser mais eficientes em parques tecnológicos e industriais. Não falo só do parque em si. É preciso reforçar toda a cadeia produtiva. Considero este um grande desafio. Como sou da área da indústria, para mim esta é a nova ponte", comparou.

Há 22 anos no mercado com a Dhermus Farmácia de Manipulação, a farmacêutica Maria do Rocio, de 49 anos, domina a parte técnica, mas confessa que ainda encontra um pouco de dificuldade para administrar o negócio. Na ACIL, ela encontrou soluções para alguns problemas administrativos. "Na verdade, o farmacêutico tem a visão técnica, a gente está lá dentro do laboratório. A gente não tem a visão administrativa. E é isso justamente que a gente tem dificuldade. Com o Núcleo das Farmácias, por exemplo, aprendi muita coisa importante que antes não tinha conhecimento de como fazer", relatou.

Tatiane usou o exemplo do Núcleo das Farmácias do Programa Empreender para destacar a importância do associativismo. "Antes, tínhamos medo do concorrente saber o que se passava na nossa empresa. Hoje, não. São objetivos em comum. Lá na frente podemos disputar o espaço, mas antes disso, é fundamental que lutemos para fortalecer o setor", opinou. Ela citou também a importância do fortalecimento da cadeia local. "Temos que incentivar as pessoas a consumir produtos da nossa região. Eu morei um tempo na Austrália, e os produtos lá tinham um selinho do país. É uma coisa que funciona."

Mais união

Angela Kazuko Ida, de 42 anos, está à frente das imobiliárias Coroados e Casa Branca. Segundo ela, o negócio da família era tocado pelos irmãos, mas ela acabou assumindo o gerenciamento. "Há alguns anos eu caí de paraquedas na empresa, depois de voltar do Japão. Não entendia nada do administrativo, tive que aprender na marra", contou. Angela estudou Administração, mas não concluiu o curso. Segundo ela, quase tudo que aprendeu foi com os cursos de capacitação da ACIL. "São realmente muito bons." Angela acredita que a ACIL tem um papel fundamental de agregar as pessoas. "Eu sinto que em comparação com outras cidades, nós estamos mais dispersos. É preciso mais união", cobrou.

O superintendente da ACIL, Diego Menão, lembrou alguns fatores que contribuíram para uma desagregação na cidade. No entanto, segundo ele, o cenário já é mais positivo em comparação com as últimas décadas. "Nós vivemos hoje um momento melhor. Londrina foi muito abalada pela crise e pelo boom de muitas pessoas chegando após as geadas, com crescimento desordenado. Isso refletiu em desagregação nas décadas de 1980, 1990 e 2000. Porém, hoje, já retomamos uma maior proximidade", aponta.

Segundo ele, iniciativas como o Fórum Desenvolve Londrina, criado sob liderança da ACIL, se tornaram instrumento deste arranjo mais sólido. "Na última década, as instituições se preocuparam com isso. No Fórum Desenvolve Londrina são mais de 30 instituições que discutem desenvolver a cidade. A desagregação num simples ato acontece, já a agregação demora décadas".

Ao final do bate papo, Menão avaliou a iniciativa como positiva. "Vamos buscar cada vez mais essa aproximação com nossos associados", disse. Ele definiu o momento da instituição como "muito especial". E pontuou: "Comemorar os 80 anos da ACIL, que é só dois anos mais nova que Londrina e hoje tem 2,7 mil associados, é contar a história da cidade sob o prisma empresarial, das transformações urbanas. Isso tem feito a instituição rever seu papel, procurar saber como podemos ter mais relevância.”

O presidente Cláudio Tedeschi agradeceu a presença dos convidados e enfatizou a importância do engajamento das pessoas na sociedade. "A gente olha para a TV e fala: 'alguém precisa fazer alguma coisa', mas às vezes nos esquecemos que isso também inclui a gente. Por isso é importante que vocês opinem, que tenham voz ativa", incentiva.