08/02/2021 13:45:12 O poder das telas digitais

Fonte: Fernanda Bressan - Revista Mercado em Foco/ACIL 

Nossa forma de consumir entretenimento e informação virou do avesso. O que antes se concentrava na televisão e na mídia impressa tem agora um novo meio: tablets e smartphones trouxeram interatividade e tornaram todos nós consumidores e também produtores de conteúdo. Os influenciadores digitais são os novos “Garotos Bombril”, impulsionando o consumo de produtos e serviços em um marketing diferenciado e criativo.

“As pessoas sempre foram influenciadas por outras, o que a atriz X usava, vendia; o que passava no intervalo do Jornal Nacional, vendia. O que mudou foi que o marketing de influência foi pulverizado para a grande massa. O que antes servia só para as celebridades e pessoas conhecidas, agora foi para as pessoas anônimas que têm grande engajamento nas redes sociais”, antecipa Sheila Dal-Ry Issa, consultora empresarial, especialista em marketing digital e relacionamento, e diretora de serviços da ACIL.

É uma mudança que segue ampliando a capacidade de pequenos se tornarem influenciadores. “Seguimos em evolução do marketing de influência porque até há pouco tempo ele estava nas celebridades, depois passou pelas pessoas conhecidas na internet, pelos youtubers e grandes influenciadores por nicho, e hoje temos os micro influenciadores. São pessoas que falam da cidade, da moda, da alimentação, do dia a dia. Esta é a transformação atual, se você tem 500 seguidores, já é um influenciador”, ressalta.

Tudo isto acontece pelo alto poder de captação e retenção da tela do celular. Passamos horas consumindo mídia social e nos influenciando por ela. As empresas sacaram esta mudança e migraram a forma de interagir com o público. Dados do Influencer Marketing Hub mostram que as marcas investem de 10% a 20% de seus orçamentos promocionais em influenciadores. Em 2019, o montante atingiu 6,5 bilhões de dólares, quatro vezes mais do que em 2016. O movimento é vivenciado de perto pelos influencers de Londrina, como o Londrinando.

Em 30 de dezembro de 2014, Matheus Perine resolveu ingressar no Instagram ao ver a interação que a rede da prima arquiteta tinha. “Ela tinha 5 mil seguidores, o que na época era muito! Eu achava muito legal aquilo e disse que queria fazer um Instagram assim, que não fosse meu, e ela falou que Curitiba tinha um perfil que falava só da cidade, pesquisei e vi que não tinha nada parecido em Londrina, criei o Londrinando”. Sem nenhuma pretensão, nasceu uma das hashtags mais famosas da cidade. À época, Matheus trabalhava na Folha de Londrina, e Rafael Máximo, seu parceiro, tinha um bar.

O “click” que o Instagram seria de fato uma profissão veio tempos depois. “Não tinha intenção nenhuma de ser influenciador. O Matheus gostava muito de um cappuccino da cidade e um dia ele achou uma pessoa, fez uma foto do cappuccino e colocou no Londrinando. Foi a primeira foto de comida que a gente compartilhou e os seguidores começaram a perguntar onde era, quanto custava, as marcas começaram a achar que era publicidade, mesmo não sendo, e começaram a perguntar como fazer para aparecer ali também”, conta Rafa. O trabalho foi crescendo e se tornado cada vez mais autoral.

Em 2016, Matheus pediu demissão do emprego e, meses depois, Rafa vendeu o bar. Hoje são quase 140 mil seguidores que acompanham o material extrovertido da dupla. “O conteúdo foi se transformando quando a gente começou a aparecer mostrando nossa rotina”, diz Rafa.

A vida como ela é

Mari Bernini também começou nas redes sem pretensão comercial. “Eu venho de uma carreira corporativa em que trabalhei por 10 anos em uma construtora, e também era apresentadora do Vale Sorte, era workaholic. Quando minha filha nasceu, eu não estava dando conta de trabalhar e cuidar dela, eu tinha uma visão muito romântica da maternidade, de que tudo era lindo, mas meu peito rachou, meu sonho foi desfeito. Achei que já ia sentir aquele amor incrível, e não veio de primeira, me sentia mal por isso, não era o que eu via nas redes sociais, me via como uma péssima mãe e me demiti para ser mãe. Só que, sendo exclusivamente mãe, vi que era mais difícil ainda, não tinha validade meu trabalho em casa. Comecei a postar a minha maternidade real e muita gente começou a mandar pra amiga, a dizer que vivia o mesmo”, recorda.

Aos poucos, a audiência foi crescendo, e hoje está perto dos 100 mil seguidores. O dia a dia e os perrengues da maternidade seguem como foco do conteúdo, atraindo mães para o perfil. “Antes, o maior entretenimento era a televisão, a gente assistia ao programa e tinha que ver o horário comercial, ou mudava de canal, porque o que atrai a pessoa é o programa. Vejo que muitos influencers colocam só o horário comercial e as pessoas são influenciadas por isso. São mulheres com corpos maravilhosos, ricas, casadas com famosos e os seguidores quererem consumir o que as pessoas fazem”, revela Mari Bernini.

“Minha tentativa é remar contra a maré. A cada 10 solicitações de publi que recebo, aceito uma. Eu faço merchan, mas só de coisas que são do meu dia a dia, que eu uso, de consumo consciente, de criar os filhos sem eletrônicos. Tento direcionar para uma vida mais leve e divertida, que não é perfeita. Mostro meus dias de lágrimas para que a minha influência seja que as pessoas vejam que está tudo bem a gente errar tentando acertar ou perder a paciência de vez em quando”, conta.

Esta credibilidade é um dos caminhos do sucesso no marketing de influência. “Tem que ser real, não adianta a gente construir um marketing inventado. Se vai investir em um influencer ou microinfluencer, tem que ver se ele condiz com seus valores e público-alvo, se a linguagem também condiz. Outra coisa é se a pessoa consumiria o seu produto, se ela jamais compraria, não funciona. Quando a gente faz essa ação tem que casar o briefing com os influenciadores, eles já têm experiência. Alinhamos o que queremos comunicar e eles fazem da melhor forma possível, quanto mais real, mais certo dá”, diz Sheila.

O Londrinando compartilha da mesma filosofia. “Só fazemos publicidade de coisas que conhecemos e que combinam com a gente. Não tem como, por exemplo, divulgarmos uma camisa de futebol, a galera sabe que não é real. Quando é algo que não tem a nossa cara, a gente direciona para outros canais que temos, como o site Londrinando, e se não tem relação alguma, não fazemos. Sempre que envolve a nossa imagem tem que ter esse cuidado, essa identificação”, diz Matheus.

Para quem quer investir no marketing digital, Sheila aponta que há espaço para todos. “A própria empresa pode se tornar uma micro influenciadora, desde que se arrisque a estar na rede e se comunicar, e também vimos contas gratuitas aparecerem na pandemia para fortalecer o mercado de Londrina. Além disso, todo mundo hoje é influencer, tenho caso de cliente que não tem verba para investir, mas envia ‘mimos’ para várias pessoas que tenham na casa de mil seguidores e que têm poder de influência na cidade, e isso dá resultado”, elenca.

A perenidade é um diferencial. “Não adianta fazer uma vez e achar que vai bombar, tem sempre que fazer um reforço com o influenciador alguns dias depois da primeira ação, porque isso mostra a realidade, mostra que ele está consumindo o que mostrou. E também tem que pensar que não é porque um influencer deu certo que vai se agarrar a ele pelo resto da vida, porque já vai ter comunicado com aquela audiência. Faça umas três campanhas com o mesmo influenciador e depois dá uma respirada, espera ele trabalhar novos públicos para depois refazer parceria”, orienta Sheila.

Conteúdo de qualidade

Além dos publis, os influenciadores têm conteúdo próprio. Dar leveza aos dias é um ponto comum entre Londrinando e Mari. “Hoje, meu objetivo é mostrar que nem tudo é perfeito e que a visão romântica da maternidade é porque as pessoas postam só os melhores momentos. Dói viver achando que só a gente está errando”, salienta.

As responsabilidades de ser um influenciador é outra preocupação comum. “Me preocupo com isso e com a qualidade dos influenciadores que estão surgindo. Será que eles têm responsabilidades com o que falam? Muitas pessoas reclamam que ‘ah, não pode falar nada’, mas não podemos mesmo, tem que ter cuidado, equilíbrio e bom senso, a influência digital nada mais é que você influenciar digitalmente alguém”, diz Rafa.

Mari também pensa sempre no que posta e alerta os seguidores. “A responsabilidade também é de cada um de avaliar o que quer consumir e não ser enganado, tem que abrir os olhos e entender que a vida nas redes sociais é o que as pessoas querem mostrar delas e não necessariamente a realidade”.

O mundo digital está aí, em nossas mãos! Vamos usufruir o que ele tem de bom?