17/06/2019 09:08:10 Olhar apurado, faro certeiro

Por Fernanda Bressan - Revista Mercado em Foco - ACIL

Tudo o que se planta com dedicação gera frutos. Do sítio do interior de Minas Gerais nasceu um menino inovador e observador. Eduardo Frezarin ainda era garoto quando teve as primeiras experiências com vendas. Hoje, está à frente de um grande grupo empresarial e lançou uma startup premiada para a área de eventos.

“Sou mineiro, de família pobre que vivia plantando café, uma agricultura familiar mesmo, de subsistência. Isso despertou em mim um desejo de fazer algo diferente. Quando tinha 13 anos comecei a vender roupas, minha tia trazia do Brás e eu vendia de porta em porta”, conta. Eram os primeiros passos da inquietude de quem queria buscar novos horizontes.

Pouco tempo depois, ele já estava estudando no colegial técnico. “Odiava todas as matérias, menos uma, a de empreendedorismo. A disciplina falava tudo o que fazia sentido para mim e isso me contagiou”, explica. “Com 17 anos, fui para São Paulo trabalhar em uma empresa de telecom, mas o sonho de fazer algo diferente continuava. Assistia o programa Pequenas Empresas, Grandes Negócios toda semana, sonhava em vender suco na praia, ter uma pousada em Santa Catarina, até que em 2002 precisei vir a Londrina porque uma londrinense pescou meu coração”, recorda.

Sem conhecer nada na cidade, Eduardo começou a dar aulas na Adetec, experiência que o fez conhecer muitas pessoas. No ano seguinte, nascia a Frezarin Eventos, primeiro CNPJ oficial dele. “De lá pra cá, tem sido, ano após ano, aprender com os erros, superação. Em 2006, cheguei a um ponto que não tinha dinheiro para pagar a conta de energia elétrica de casa. Parei, recapitulei a minha vida, resgatei os valores e desde então eu não tive mais nenhum momento sem faturamento”, relata.

Era o início da jornada que daria origem ao Grupo Frezarin e, mais recentemente, à Yazo, startup que desenvolveu um aplicativo inovador a partir da visão atenta do empresário para as necessidades do segmento de eventos.
 

Ousado e sem controle

O lado empreendedor de Eduardo cresceu em 2011 quando ele participou do Empretec, programa do Sebrae. “Descobri que tinha uma parte de todos os 10 pilares do empreendedorismo, mas eu era muito ousado e sem controle”, recorda.

Ao entrar depois para o MEG – Modelo de Excelência em Gestão, ele deu mais uma reviravolta. “O MEG me fez olhar para a empresa em 360°, para as pessoas, os processos, o financeiro, a inovação, o resultado, era como se antes eu olhasse para a empresa com a visão turva de uma água de rio e, depois, esta visão fosse cristalina como uma água de piscina”, compara.

O caminho continuou em 2015 quando Eduardo foi a São Paulo participar de um evento da Cisco Systems, empresa de tecnologia, e lá se deparou com o que ela chama de “uma grande empresa de tecnologia lidando com um evento de forma arcaica, subindo em um banquinho com microfone na mão para dar uma informação importante”. Desta fragilidade, ele viu uma oportunidade de negócio. “Sou da área de tecnologia e da área de eventos e vi ali que a área de eventos precisava de uma solução para se organizar, melhorar a comunicação, ter um contato eficiente com o público e gerar engajamento. Saí daquele evento com isso em mente e procurei o Sebrae”, conta.

O programa Sebraetec Diferenciação foi o caminho que ele encontrou para dar os primeiros passos no que se transformaria na Yazo. “O programa tinha recursos para 10 empresas apenas, então tinha que passar por um processo de seleção. Escrevi toda a ideia de desenvolver uma ferramenta para a área de eventos para melhorar comunicação e criar engajamento e o projeto foi selecionado”.

O grande diferencial foi que Frezarin viu de fato um problema na área, a dificuldade de manter a atenção dos participantes em um evento. “Uma das maiores dores do organizador é a dificuldade de engajar o público: ele faz um evento lindo, gasta pra trazer bons palestrantes, cria uma estrutura excepcional de audiovisual, contrata o melhor buffet... Só que a pessoa senta, assiste 15 minutos de palestra, abre o celular e vai responder o whatsApp e e-mail. Pensei: poxa, temos que trazer o evento para a palma da mão da pessoa. Se ela olha para o celular várias horas por dia, é inevitável que ela vai ficar olhando para a tela do celular durante o evento”, explica o empreendedor.

A ideia era transformar os participantes em protagonistas do evento. “Pelo aplicativo o público pode fazer publicação de conteúdo, responder enquetes, enviar pergunta pra palestrante, jogamos o resultado disso nas telas e o participante está no evento não mais como um mero espectador, ele passa a estar no evento como um contribuinte do conteúdo, alguém que tem uma importância maior ali e isso acaba atraindo mais a atenção dele”, garante.

O início do desenvolvimento do aplicativo se deu no Instituto Senai de Tecnologia, depois Eduardo contratou uma equipe para dar sequência aos trabalhos. “Contratei alunos do próprio Senai e hoje temos cinco pessoas na equipe desenvolvendo o aplicativo”, diz.

Em abril de 2018, a Yazo foi oficialmente lançada. “De outubro de 2015 até abril de 2018 foi um tempo de pesquisa, de desenvolvimento, de validar isto com o mercado para ver se estava no caminho certo. Uma startup nasce com uma proposta para resolver um problema, antes de validar uma solução a gente tinha que validar o problema, saber se ele realmente existia”, pondera. E, de fato, a falta de engajamento e interação nos eventos era uma pedra no sapato.
 

Triunfo no hackathon

A validação do app teve momentos especiais. “Em 2017 foi o auge deste momento de validação. Participamos de um hackathon em um fórum de eventos em São Paulo. O hackathon é uma competição de tecnologia, uma maratona. No começo se expõe alguns problemas e a gente prepara uma solução para eles. Quando vi os problemas apresentados, eram exatamente os problemas que a gente vinha pesquisando pela Yazo, fazia muito sentido eu pegar os membros da minha equipe e levar para este evento. E fomos”, conta.

Por lá eles disputaram com outras seis equipes. “Neste hackathon validamos o projeto com no mínimo dez organizadores de grandes eventos, com professores universitários de turismo e eventos”, relembra. “A partir daí, o produto que a gente vinha desenvolvendo teve um upgrade absurdo. Ouvimos quem realmente sente as dores e organiza grandes eventos. Melhoramos funcionalidades, fizemos adequações para atender melhor às necessidades das pessoas e, para nossa surpresa, a gente ganhou este hackathon”.

Outros prêmios vieram, como o Jacaré de Prata no Prêmio Caio e, com a maturação do projeto, a Yazo se tornou uma spin-off do Grupo Frezarin, uma nova empresa com CNPJ e vida própria.

Hoje, eventos de todo o país – e até de fora do Brasil - podem usufruir dos benefícios do app, que é personalizado para cada evento, cada necessidade. “Temos uma plataforma do aplicativo que copiamos e, a partir dela, personalizamos para cada evento com a logo, as funções que são necessárias para aquele evento e publicamos isso nas lojas de aplicativos. A empresa nos paga um licenciamento para usar o aplicativo por um período determinado. Não vendemos o app”, explica.

Como o menino do interior se interessou tanto por inovação e tecnologia e criou uma startup? A resposta do hoje, empreendedor de 37 anos, remete a raízes bem mais profundas. “Uma coisa que eu sempre tive foi um interesse de entender as pessoas”, esclarece.

“Sempre gostei de tecnologia, mas antes de gostar de tecnologia observo a forma como as pessoas se comportam. Nesses 15 anos trabalhando com eventos é muito comum me ver lá no fundo de pé prestando atenção nas pessoas, observando o que chama mais a atenção. Prestar atenção nas pessoas pra mim é a chave da inovação”, ensina. “A tecnologia por si só não resolve nada. Ela não tem poder nenhum. É uma mera ferramenta. Uber, Netflix, IFood, eles não têm grandes ferramentas tecnológicas, não criaram nada que já não existisse, o segredo não está na tecnologia, mas em entender o que as pessoas querem e usar a tecnologia para atender isso”, conclui.