12/09/2014 00:00:00 Onde foi parar meu voto? - Londrina carece de uma representatividade política à altura de sua importância.

Por Marco Feltrin

Segunda maior cidade do Paraná, uma das maiores do interior do País, mais de 500 mil habitantes e Produto Interno Bruto (PIB) acima dos R$ 10 bilhões. Mas, quando os números se referem à representatividade política, Londrina deixa a grandiosidade de lado e as contas não batem. Na Assembleia Legislativa do Paraná, apenas duas das 54 cadeiras estão ocupadas por londrinenses. Na Câmara dos Deputados, entre os 513 parlamentares há apenas três com carreira política desenvolvida na cidade.

Com mais de 330 mil eleitores, ficam os questionamentos: onde vão parar estes votos? Por que cidades como Marechal Cândido Rondon, com cerca de 35 mil eleitores, pouco mais de 10% dos eleitores daqui, têm o mesmo número de deputados estaduais que Londrina?

Nas últimas eleições gerais, em 2010, cerca de 96 mil dos 227 mil votos válidos registrados na cidade para deputado federal foram para candidatos com domicílio eleitoral fora de Londrina, o que representa mais de 40% do total. Um exemplo vindo do último pleito ilustra bem a situação: o atual prefeito Alexandre Kireeff, então candidato a deputado federal, fez três vezes menos votos na cidade do que outro candidato baseado em Curitiba. Com o êxodo nas urnas, a segunda maior cidade do estado vira a quinta em número de deputados, atrás de Curitiba, Cascavel, Maringá e Ponta Grossa.

No entanto, a situação não é recente. Analisando os últimos 16 anos ou quatro mandatos, percebe-se a dificuldade de Londrina em lançar novos nomes e reforçar a presença no Legislativo. Em apenas uma oportunidade a cidade conseguiu superar a marca de três deputados na Câmara: entre 2007 e 2008, antes de o então parlamentar Barbosa Neto ser eleito prefeito (cassado quatro anos depois).

O quadro é muito semelhante na Assembleia. Londrina teve apenas dois deputados estaduais nas quatro últimas legislaturas. A exceção ocorreu entre 2003 e 2006, quando André Vargas, Barbosa Neto e Elza Correia representaram a cidade.

Na opinião do cientista político Elve Cenci, doutor em Filosofia e professor da Universidade Estadual de Londrina (UEL), a baixa representatividade política é resultado de uma soma de fatores, a começar pela carência de lideranças capazes de levar adiante os interesses da cidade. Segundo Cenci, ainda predominam os parlamentares ou candidatos identificados apenas com um projeto político pessoal.

“Cada deputado tem um partido. Ao redor dele não surgem lideranças porque o apoiado hoje pode ser o adversário de amanhã. Muitos mantêm uma relação com prefeitos da região que se beneficiam com emendas em troca de apoio, desde que um não ocupe o espaço do outro. Assim, eles conseguem angariar votos suficientes para se manter no cargo”, analisa.

A fragilidade dos partidos também contribui para o enfraquecimento da política local. Com mais de 30 legendas “à disposição” do eleitor, vira prioridade para os nanicos a concentração de todas as forças em apenas um nome, com objetivo de evitar o risco de ficar sem espaço no Legislativo. “Ninguém quer abrir mão disso. Aí fica difícil agregar lideranças ligadas a diversos partidos em torno de uma com condições de se eleger para representar a cidade. Mais uma vez o interesse de Londrina fica em segundo plano.”

Com partidos incapazes de revelarem novas lideranças, muda também o perfil do candidato. A partir dos anos 60, mesmo em meio à ditadura militar, boa parte dos representantes políticos despontava de movimentos estudantis, da efervescência das universidades. Os novos nomes da atualidade são parentes ou apadrinhados de ‘caciques eleitorais’, que muitas vezes não nascem por amadurecimento ou formação política, mas sim pela projeção de quem já está no poder.

O ambiente escolar e universitário hoje é pouco propenso ao surgimento de lideranças. Não se discute mais política em um espaço que deveria ser rico de novas ideias. Movimentos estudantis, sindicatos, associações de bairro enfrentam muita dificuldade de lançar um nome e conseguir projeção. Também falta uma movimentação na sociedade civil. Não há uma articulação de forças para apostar em um candidato potencial. O que vemos são lideranças isoladas, que acabam enfraquecidas diante de quem já está no poder e tem um eleitorado formado”, compara o cientista político.

Pulverização de votos

A dificuldade em eleger deputados estaduais também pode ser explicada por um fenômeno cada vez mais frequente de quatro em quatro anos: o elevado número de vereadores que lançam o nome visando ascensão política e uma cadeira na Assembleia. Nas próximas eleições serão sete, mais de um terço dos representantes do Legislativo local. Há ainda um candidato a deputado federal.

A última tentativa bem-sucedida de pular o trampolim entre os legislativos ocorreu em 2002, quando André Vargas e Elza Correia ascenderam da Câmara para a Assembleia Estadual.

Nas últimas eleições, em 2010, seis buscaram o mesmo caminho. Com exceção do presidente da Câmara à época, que teve mais visibilidade ao ocupar o cargo de prefeito interinamente por conta da realização do “terceiro turno” para prefeito na cidade, os demais flutuaram entre 4 mil e 6 mil votos conquistados em Londrina, número muito abaixo do necessário para figurar entre os primeiros das coligações. O único deputado eleito de forma direta e o segundo representante da cidade, que acabou entrando como suplente, somaram mais de 25 mil votos dos londrinenses cada.

Para Elve Cenci, falta articulação entre os vereadores para lançar menos nomes, o que resultaria em uma concentração maior de votos, elevando a chance de eleição e criando uma ponte direta entre o Legislativo municipal e o estadual. Mais uma vez, o interesse pessoal acaba prevalecendo. “Eles usam a estrutura de campanha pensando já na próxima eleição para vereador. Ocupam o espaço de rádio e televisão para fortalecer a imagem. Desta forma, daqui a dois anos, o eleitor ainda pode lembrar dele. Só que o efeito colateral é a diluição dos votos e esvaziamento da representatividade.”

Se os cerca de 5 mil votos obtidos por um vereador são insuficientes para elegê-lo, servem para complementar a fatia de candidatos de outras regiões que estão na mesma coligação. “Nossos candidatos atuam como uma espécie de cabos eleitorais. O voto de Londrina fortalece a candidatura de nomes mais competitivos que já possuem uma base e estarão certamente entre os mais votados. No final das contas, eles trabalham como coadjuvantes dos deputados de outras regiões”, avalia Cenci, lembrando que Londrina também fica à margem nas escolhas para cargos maiores, como senador e governador.

É hora de tomar posição

Diante da baixa representatividade política de Londrina no poder Legislativo estadual e no federal, entidades locais começam a se mobilizar para reverter o quadro. O principal objetivo é sensibilizar o eleitor sobre a importância do voto em candidatos próximos, para facilitar tanto a atração de recursos que impulsionam o desenvolvimento da cidade quanto a cobrança de postura e atitude dos representantes.

Temos que pensar naquele nome que você pode encontrar no bairro, na cidade, com um contato próximo depois de eleito. Não naquele que vem só em época de eleição. Tem que ser cidadão nessa hora. Quem vota em candidatos de fora não tem moral para reivindicar e reclamar. O instrumento que ele tinha para fazer a diferença acaba despachando para outra região”, exemplifica o presidente da ACIL, Valter Orsi.

Um dos principais desafios para evitar a debandada de votos é resgatar a confiança em políticos locais, prejudicada por uma sucessão de escândalos de corrupção que fizeram a cidade ostentar a triste marca de ter quatro prefeitos no período reservado para apenas um mandato.

“As notícias negativas repercutem mal, geram um descrédito por parte do eleitor. Às vezes ele aposta em um nome e acaba se decepcionando”, analisa o presidente do Sindicato da Indústria da Construção Civil (Sinduscon), Osmar Ceolin Alves. “Temos que resgatar em Londrina o amor à cidade, acreditar mais e, principalmente, saber escolher. Exigir uma plataforma de trabalho bem definida, ver o histórico político do candidato, ter uma análise mais criteriosa para tomar a decisão certa”.

Na opinião do presidente da Sociedade Rural do Paraná, Moacir Norberto Sgarioni, a imagem política negativa cultivada em Londrina nos últimos anos também traz como reflexo a dificuldade no surgimento de novas lideranças. “Muitas pessoas que poderiam se tornar bons políticos e aumentar nossa representatividade não entram na disputa. Gente que constrói uma carreira de sucesso, tem bons ideais e princípios, prefere não se envolver porque a análise dos políticos na opinião pública está muito desgastada”.

Menos representantes, menos verbas

A baixa representatividade no Congresso Nacional resulta em impacto direto nos investimentos federais para obras de grande porte que colaboram para o desenvolvimento do município. Londrina faz parte do seleto grupo de 417 cidades brasileiras em que os gastos públicos são menores do que os impostos gerados pela produção da economia local.

É nesta conta que se encaixam as emendas parlamentares, instrumento usado por deputados para acrescentar no orçamento federal demandas e projetos das cidades representadas por eles.

“Precisamos de uma visão moderna. Ter uma cidade com projetos em sintonia com seus parlamentares para que, quando o governo liberar determinada verba, eles façam pressão e tomem posição em favor de Londrina. É uma verba a fundo perdido, injeção de dinheiro na cidade com exigência muito baixa de contrapartida. Mas, infelizmente, ainda vemos parlamentares que trabalham de forma isolada, ou atendendo interesses do partido. O partido deles deveria ser Londrina”, analisa Valter Orsi.