11/08/2014 00:00:00 'Partidos não priorizam nomes novos na política'

Fonte: Folha de Londrina

Em menos de dois meses, o País voltará às urnas para as eleições gerais, a primeira depois das manifestações populares que levaram milhares de pessoas às ruas, em junho do ano passado. Embora houvesse, naquele momento, um clamor por mudanças e renovação na política, pequena é a repercussão na atual campanha eleitoral, onde a maioria dos deputados estaduais e federais tenta a manutenção do mandato. Ainda que apareçam nos discursos dos candidatos referências sobre a mobilização popular, "é muito pouco, faltam propostas específicas que atendam aquelas manifestações", destacou o professor de Ética e Filosofia Política da Universidade Estadual de Londrina (UEL) Elve Cenci. 

A insatisfação do eleitorado serviu para mandar o recado, segundo Cenci, de que há uma "crise onde os políticos profissionais não representam mais ninguém, a não ser eles mesmos, e que isso está sendo observado pela população". Por outro lado, faltou ao movimento se estruturar melhor na sequência. "Ficou meio anárquico e caiu no vazio, porque faltou apresentar as bandeiras da reforma que se pedia." Para o professor de Ciência Política da Universidade Federal do Paraná (UFPR) Fabrício Tomio, os grupos que protestaram não conseguiram expandir a mobilização ao restante da sociedade. "Se 10% dos eleitores se manifestaram, os outros 90% talvez não estivessem insatisfeitos, ou pelo menos, não a um nível que sirva para a reorientação do voto." 

Com o arrefecimento das cobranças, continua reduzido o espaço para surgimento de novas lideranças políticas, apesar do número de candidatos ter aumentado em relação às últimas eleições gerais, de 22,5 mil, em 2010, para 25,7 mil esse ano. Os especialistas ouvidos pela FOLHA concordam que as barreiras estão principalmente nos partidos políticos, cuja liderança está com os caciques detentores de mandato. Cenci, crítico das atuais estruturas partidárias, afirmou que nomes novos são vistos como concorrentes no interior da legenda. "A liderança que eu formo hoje será o meu adversário amanhã, vai tomar o meu espaço, tirar os meus votos." 

Levantamento feito pela reportagem apurou que na Assembleia Legislativa (AL) do Paraná, a maioria dos deputados estaduais que tenta a reeleição já é veterana. Somados os mandatos apenas dos parlamentares que estão na Casa há duas ou mais legislaturas, são mais de 400 anos. Na avaliação do professor Cenci, essa permanência no poder afasta o político das aspirações do eleitorado. "A democracia é exigente, exige participação, e o distanciamento das pessoas da política permite o vale tudo e o critério da política fica sendo a disputa interna. Me lembro que houve na Assembleia uma disputa por gabinetes, quem ficaria com o melhor, algo absolutamente irrelevante para o povo." Na AL, vigora regra informal em que os melhores e maiores gabinetes acabam ficando com os deputados com mais tempo, com sorteio para os novos deputados. 

Segundo Fabrício Tomio, a disputa entre um calouro na disputa eleitoral e um candidato à reeleição é desigual. "Cada deputado tem o próprio staff, são várias pessoas empenhadas o tempo todo no seu mandato e na sua reeleição. Os estreantes numa disputa não vão ter esse recurso, que é do próprio parlamento, e não terão recursos partidários." 

A AL tem estimado para o próximo ano um orçamento de cerca de R$ 1 bilhão. Cada deputado tem disponível, mensalmente, até R$ 31,4 mil de verba de ressarcimento por mês, mais R$ 78,5 mil para contratação de até 23 funcionários no gabinete, fora o salário parlamentar, que é de cerca de R$ 20 mil. "É um recurso que os novatos não têm. Quem pode fazer campanha durante quatro anos?", questionou Cenci. 

Na avaliação dos analistas, mesmo neste cenário é possível haver mudanças e o surgimento de novas lideranças, mas não isoladamente. "Há uma maior renovação quando algum grupo político desloca outro. Na história recente foi assim com o PMDB na década de 80, com o PSDB na década de 90 e, depois, com o PT no começo dos anos 2000", afirmou Tomio. A tese é reforçada por Cenci. "Não é o novo candidato que tem que fazer esse trabalho sozinho. Ele precisa de apoio social, de um grupo representativo, porque sozinho, somente com muito dinheiro para ter a visibilidade necessária."