16/03/2015 00:00:00 Perfil: Adoçando Londrina

Fonte: Felipe Brandão - Revista Mercado em Foco

Doce é sinônimo de festa, de alegria. E assim tem sido para os londrinenses ao longo dos últimos 30 anos por poderem contar com a “Esquina Doce”. Fundada em 1980, a loja Baccaro conquistou gerações de consumidores através do varejo de guloseimas de qualidade a preço de atacado. A história desse belo empreendimento começa muitos anos atrás na figura de Emílio Baccaro, comerciante nato que emprestou seu sobrenome a uma das marcas mais tradicionais do comércio da cidade.


Emílio Baccaro Neto nasceu em 23 de setembro de 1950, na cidade de Bocaina, interior de São Paulo. Em 1966, mudou-se com a família para Ibiporã, onde conheceu Margarete, com quem se casou em 1974 e a quem permaneceria unido durante toda a vida. A chegada em Londrina se deu no ano seguinte, para trabalhar com tios que eram representantes locais das balas Ailiram, fabricadas em Marília (SP).


A criação da Baccaro se deu em fevereiro de 1980, em uma sociedade de Emílio com seu tio Bruno Baccaro, ainda voltada apenas para o atacado. A sede escolhida localizava-se na Avenida Duque de Caxias, esquina com a Avenida Bandeirantes, onde permaneceu até o final de 2013. Esse ponto estratégico conferiu à loja o slogan de “Esquina Doce”, hoje facilmente associado à marca.


Em 1982, Bruno deixou o empreendimento e Margarete, até então professora, entrou em seu lugar para auxiliar o marido. “Eu não tinha nada a ver com o comércio, mas, diante da necessidade, fui trabalhar junto com o Emílio. A partir daí, o foco passou a ser o comércio varejista, no sistema de autosserviço com vendedores especializados. Passamos também a oferecer cursos de culinária, voltados para o ramo dos doces, o que também teve uma grande repercussão e atraiu um grande público”, relembra.


Para Margarete, o segredo do sucesso das lojas Baccaro foi dispor de um atendimento diferenciado na venda de bons produtos, isso sem falar, é claro, nos preços. “Comprávamos diretamente das indústrias para poder vender a um valor acessível. Nossa preocupação não era com uma grande margem de lucro, mas sim em vender bastante para manter o preço bom. Isso fez o nome ficar conhecido.”


Em dado momento, a família se viu diante de um impasse. A professora universitária Thaís Baccaro, filha do casal e única herdeira do negócio, desejava seguir o exemplo da mãe e enveredar pela carreira acadêmica. Foi quando se falou pela primeira vez em venda. A decisão, segundo contam Margarete e Taís, não foi fácil. “Depois de muito pensar, decidimos que a empresa não poderia morrer e optamos por passá-la adiante. Foi um ano de negociação, com várias pessoas interessadas, até que encontramos a proposta ideal, de alguém disposto a continuar o negócio dentro da proposta original.” A sede da loja foi transferida para a Mato Grosso, ainda sob a gestão da família, e um mês depois, em dezembro de 2013, a venda foi realizada.


ESPÍRITO DE AVENTURA


Em janeiro de 2014, Emílio foi diagnosticado com tumor no cérebro, para consternação da família e dos amigos, que o acompanharam até seu falecimento, em outubro do mesmo ano. Segundo Thaís, seu pai possuía um círculo de amizades bastante amplo, vínculos esses que foram fortalecidos em boa parte por conta de uma paixão particular do senhor Baccaro: os esportes a motor. Ele era um aficionado por modalidades como o motocross, rallys e enduros – competição de resistência em motocicletas em terrenos acidentados – e foi, inclusive, membro da organização do Rally dos Sertões, evento de que participou por 14 anos.


“Ele tinha inúmeros troféus de competição de motocross e jipe de que tinha participado. Chegou um momento em que tivemos que fazer uma seleção, privilegiando só os três primeiros lugares, e jogamos os demais fora para não acumular tanto. Com os que restaram, fizemos um painel, que ele mesmo construiu após a cirurgia, com toda a dificuldade que ele estava”, narra Thaís. Para ela, os vínculos afetivos que ele formou nos esportes e na vida profissional foram de fundamental importância durante os dez meses de tratamento da doença. “A Bacarro passou a ser, além da questão do doce, um ponto de encontro dos amantes de jipe. Tanto é que costumávamos brincar que, além de doceiro, ele prestava consultoria gratuita na área de jipes, até mesmo para pessoas desconhecidas.”


Uma das pessoas que se aproximaram de Emílio por meio dos esportes foi o também comerciante João Batista Barros Neto, 61 anos. Os dois foram grandes amigos durante mais de 40 anos e percorreram juntos eventos esportivos em todo o Brasil. João Batista fala com orgulho dessa época: “Éramos parceiros em tudo. Conhecemos as trilhas do país inteiro, participamos do 1º Motoclube de Londrina, do Jeep Clube da cidade. Mas nosso forte mesmo era trilha, mato, cachoeira, essas coisas todas. Chegamos a estar entre os 10 primeiros colocados em nível nacional nessas competições.”


Marcos Rogério Norberto, 46 anos, representante comercial da Penacchi Distribuição, faz questão de valorizar a humanidade do comerciante. Marcos trabalhou como fornecedor da loja Baccaro durante vários anos e também desenvolveu uma boa amizade com Emílio. “Ele tinha respeito profundo por cada funcionário, vendedor, representante com quem trabalhava. Fazia questão de atender pessoalmente a clientela sempre que podia, mesmo contando com outras pessoas para isso. O cliente tinha que ser bem atendido, disso ele não abria mão.” Thaís Baccaro destaca também o clima familiar que havia entre os funcionários da loja. “Era como uma extensão da nossa própria família. Tanto é verdade que, em mais de 30 anos, a empresa jamais teve sequer uma causa trabalhista.”


Para Margarete e Taís, a grande lição deixada por Emílio foi saber crescer profissionalmente sem deixar de lado a vida pessoal. “Com meu pai aprendi que é possível conciliar uma carreira profissional de sucesso com qualidade de vida no campo pessoal. Ele viveu e viveu muito bem”, diz a filha, orgulhosa. “O Emílio era mesmo um comerciante nato, gostava de conversar, de ser gentil, e tinha mesmo o comércio no sangue, como toda a família dele. Porém, mais do que seu talento comercial, sua honestidade e integridade são seu maior legado”, destaca Margarete.


João Batista afirma ter aprendido muito com Emílio, como pessoa e também como profissional, já que os dois compartilhavam o mesmo ramo de atuação. “O Emílio era um exímio comerciante. Ele chegou ao ápice daquilo que ele propôs pra sua carreira, com um crescimento e um profissionalismo tremendo. Deixou pra mim muitas histórias e um carinho imensurável. Eu tive a honra de conhecer o Emílio, a verdade é essa”, finaliza.