29/04/2016 00:00:00 Perfil: Sem rodeios

Fonte: Mercado em Foco

Desde o começo de sua carreira, o “rei” Roberto Carlos causa frenesi por onde passa. Nas décadas de 70 e 80, quando veio a Londrina, preferiu se manter no aconchego do Hotel Bourbon, no qual costumava se hospedar durante as passagens pela cidade. Em duas ocasiões, mesmo com o serviço de quarto à disposição, o cantor preferiu pedir um filé à Califórnia do Restaurante Rodeio, estabelecimento vizinho do hotel. “Servi como de costume: na bandeja, quentinho. Ele não olhava mais o cardápio. Chitãozinho e Xororó também não – sempre foi o filé na manteiga”, conta Arlindo Dessunti, proprietário do Rodeio há 36 anos, cheio de orgulho.

Não é à toa que a velha guarda costuma frequentar o restaurante, que completa cinquenta anos em 2016. Tal qual a localização – esquina da Rua Professor João Cândido com a Alameda Miguel Blasi –, a aura do ambiente permaneceu intacta ao longo do tempo. “É simples e acolhedor”, define Dessunti. A tradição é a marca do Rodeio. O cardápio sofreu pouquíssimas modificações durante este meio século de atividade, e o garçom com menos tempo de casa está na ativa há doze anos. Segundo o proprietário, “não tem como mudar. O Rodeio é uma religião”.

O restaurante mantém o endereço e o nome desde que surgiu, em 1966. Em 1968, o primeiro dono o vendeu ao sogro de Dessunti. O atual proprietário – casado com Maria da Glória Dessunti – o assumiu em 1979. “Antes disso, trabalhei no ramo de autopeças durante dezoito anos.” Somados ao tempo à frente do Rodeio, são 54 anos de comércio (e quase 67 de vida).

Para se consolidar como referência entre os restaurantes tradicionais de Londrina, logo no começo o Rodeio lançou mão de porções suficientes para duas pessoas e refeições servidas em qualquer horário. “Ficamos famosos por conta do filé, especialmente à parmegiana, extremamente macio e em porções maiores. Nas décadas passadas, era muito difícil encontrar pratos que servissem mais de uma pessoa.” A maciez da carne dispensa o uso da faca – os cortes são feitos com colher. Um charme.

A boa qualidade, no entanto, isoladamente, não garante a freguesia, que se estabelece a partir de uma junção de fatores. Dessunti afirma que “o segredo está no trato, no atendimento. Eu circulo pelo restaurante, converso com os fregueses, passo boa parte do tempo aqui. Tenho três folgas por semana, à noite, quando o gerente fica no meu lugar, mas minha rotina se dá no Rodeio”. 

Com a ajuda da esposa e das filhas Talita, Maíra e Isabela, o proprietário consegue cuidar do restaurante e dos clientes. O envolvimento da família com o estabelecimento é grande, mas Dessunti não deseja que o futuro das meninas, que escolheram diferentes carreiras para seguir, limite-se ao Rodeio. “É desgastante, sacrificante. Não sei do futuro, mas prefiro que elas sigam os próprios caminhos.”

O cardápio do Rodeio inclui massas, peixes, filés, frango e saladas. Anexa ao restaurante, pela entrada da João Cândido, há a pastelaria, com sucos e vitamina. “O pastel surgiu em 1978. Ali era a cozinha do restaurante. Quando a mudamos para onde ela fica hoje, meu sogro implantou a pastelaria, que também deu certo.” A pastelaria abre às 7 horas. O restaurante abre às 11 horas e costuma fechar à meia-noite. “Maria da Glória chega aqui às seis da manhã para abrir o caixa e colocar a pastelaria em funcionamento. É ela quem mais me ajuda”, derrete-se.

Uma das principais características da equipe do Rodeio tem sido, desde o início, a relação de proximidade, respeito e descontração com a freguesia. Dos anos 60 aos 90, o restaurante atravessava a madrugada aberto. Foi palco de discussões acaloradas entre casais e de importantes decisões políticas. 

“Muitas candidaturas foram discutidas dentro do restaurante. O pessoal da Arena [Aliança Renovadora Nacional, de apoio ao regime militar] sentava de um lado e o do MDB [Movimento Democrático Brasileiro, oposição] do outro. O Rodeio foi grande centro de debates da política londrinense”, orgulha-se Dessunti, que relembra a rivalidade dos dois partidos políticos durante a década de 60. “Atendíamos até o último cliente sair. Às sextas-feiras, o pessoal do curso de Economia da UEL reservava mesa para 20, 30 pessoas. O último saía daqui com o sol nascendo. Hoje, isso não acontece mais.” 

Da década de 80 para cá, muitos outros estabelecimentos surgiram fora do Centro da cidade. “O Centro foi abandonado. Estamos aqui por teimosia e só nos mantemos porque a clientela é fiel.” A presença constante dos fregueses foi o fator decisivo para que, mesmo em meio à crise, o preço dos pratos não tenha aumentado no último ano.

São duas as pessoas que frequentam o Rodeio com assiduidade excepcional: Terezinha Maria Pereira, que há 40 anos começou como lavadeira de pratos e hoje é cozinheira do restaurante, e Nelson Faneco, garçom do estabelecimento há 46 anos e celebridade local. “Você sabia que a história do Nelson foi contada na tevê? Veio até um artista para representá-lo!”, conta Dessunti, empolgado. Seo Nelson, como é conhecido, já saiu em diversos jornais, e não são poucas as pessoas que vão ao Rodeio pelo atendimento dele. A tradição, que começou com o filé macio, se perpetuou com a equipe. “Digo aos funcionários que eles têm que fazer como é feito em casa: com carinho e amor. Esse é o segredo da cozinha”, afirma Dessunti.

A relação do Rodeio com os clientes é tamanha que o restaurante chegou a batizar um de seus principais pratos com o nome de um deles. Trata-se do médico e vereador – já falecido – José Antônio Queiroz, que, freguês assíduo, tomou a liberdade de pedir ao cozinheiro que fizesse um filé com ingredientes que não encontrava no cardápio. Nasceu, assim, o “Dr. Queiroz”, um filé na manteiga completo, com ervilha, brócolis, palmito e aspargo. “Até hoje a família dele nos prestigia”, afirma Dessunti, “do filho até o bisneto”.

Roberto Carlos e Chitãozinho e Xororó não foram as únicas celebridades que passaram pelo Rodeio. Dessunti gosta de compartilhar a história de Jô Soares. “Quando ele veio aqui, Nelson me perguntou se podia fazer uma brincadeira. Eu disse que, por mim, tudo bem. Ele colocou um braço por trás do Jô, e na outra mão segurava um pouco de arroz. Perguntou ao Jô se ele conhecia algum médico para tratar de um problema sério: toda vez que se encontrava com uma celebridade, ficava com urina solta. Aí soltou o arroz na perna do Jô, que deu um salto enorme da cadeira! Sorte que Nelson estava segurando, senão Jô teria caído. Quando foi fechar a conta, Jô perguntou se podia levar o garçom embora e eu disse 'leva, pode levar…'.” 

Parece que Seo Nelson molhou as calças de Jô duas vezes: uma com arroz e outra de tanto rir.