26/08/2015 00:00:00 Perfil: uma avó para todo mundo

Fonte: Michelle Aligleri - Revista Mercado em Foco 

Quem não gosta de comida de vó? O tempero caprichado e o cheirinho especial da carne assada são diferentes na casa das avós. Tudo fica ainda mais gostoso se a “nonna” morar numa chácara cercada de árvores, em uma casa com grandes varandas e mesas em meio ao bosque. Este lugar dos sonhos onde se é recebido com a brisa no rosto e ao som dos passarinhos existe e fica bem pertinho do centro de Londrina. Ele faz parte da realidade da dona Sebastiana Cândida Terciotti, 72 anos – ou Tatau, como é chamada desde criança.

O apelido que começou com os irmãos ainda na infância dá nome hoje a um restaurante rural que funciona há onze anos no Patrimônio Regina, zona sul da cidade. A Vó Tatau recebe em sua casa todos os domingos cerca de 700 pessoas para o almoço. A chácara enfeitada por primaveras e cuidada com muito zelo é a morada de Sebastiana desde 1963, mas o marido dela, João Gercy Terciotti, já vivia com a família no local em 1942, bem antes de eles se conhecerem e se casarem. Foram nos 42 mil m2 da chácara que cresceram os três filhos e seis netos da Vó Tatau. Além deles, a mãe dela também mora no terreno. São nove famílias vivendo no local, cada uma em sua casa.

A ideia de abrir o restaurante surgiu quando, com os netos mais crescidos, os filhos de Sebastiana decidiram sair para trabalhar na cidade. “Tínhamos um barracão na chácara que antigamente era usado para fazer bailes e estava fechado. Colocamos o espaço para alugar no jornal, mas os negócios que apareceram não nos interessaram. Decidimos então tentar montar um restaurante”, lembra. A iniciativa surgiu também porque sempre aos finais de semana a chácara ficava cheia de amigos e mais parentes que vinham para o almoço de domingo. Foi preciso coragem e muito trabalho para abrir o negócio e passar da informalidade para a recepção de clientes e pessoas desconhecidas.

“Inicialmente nos propusemos a receber 70 pessoas. Meu marido reformou as mesas e cadeiras que já tínhamos aqui, trouxemos os pratos, talheres, copos e panelas das nossas casas e abrimos”, conta. O primeiro dia de funcionamento foi um domingo de Páscoa e o restaurante foi aberto apenas para a família, que já frequentava a chácara anteriormente. “Atrasamos o almoço em duas horas”, diverte-se Vó Tatau, lembrando-se do improviso necessário para atender a todos. No segundo domingo os amigos foram chamados e então o movimento não parou mais. Apenas três meses após o início das atividades foi preciso ampliar a área do salão para atender todos os clientes que queriam experimentar o tempero da Vó. “Nossa propaganda sempre foi boca a boca”, garante, destacando que a empresa nunca investiu em publicidade.

Vó Tatau lembra que durante vários anos todo o lucro era reinvestido no restaurante. “Ficamos muito tempo sem tirar dinheiro daqui”, comenta. O esforço valeu a pena, a comida ganhou fama pela cidade e o sucesso é tanto que há dois anos o restaurante não abre no Dia das Mães porque não dá conta de atender o público. “Temos 800 lugares, mas já chegamos a receber mais de 1.300 pessoas nesta data. Acaba ficando complicado porque as pessoas fazem fila na porta e não é assim que queremos receber. Como não conseguimos atender a todos de uma maneira que consideramos adequada, preferimos não abrir nesta data”, explica.

Se no início eram atendidas 70 pessoas por domingo, hoje este é o número de funcionários que trabalham para que o restaurante funcione. A maior parte dos trabalhadores é da família – filhos, netos, sobrinhos e tios colocam a mão na massa. Até mesmo a banda que faz sucesso nos almoços é formada pelos irmãos da Vó. Ela conta que os funcionários que não são da família de sangue fazem parte da família do coração. “Todos que trabalham aqui nós já conhecíamos antes de montar o negócio. A maior parte nós vimos crescer e sempre frequentaram a nossa casa. A equipe é muito boa e trabalhadora, muitos trabalham na cidade durante a semana e no restaurante aos finais de semana”, destaca.

O restaurante só abre aos domingos, mas o trabalho todo começa na quarta-feira, quando se tempera as carnes para congelar e se faz o preparo das massas e doces caseiros que são servidos como sobremesa. Todos os pratos servidos nos dois fogões a lenha são feitos no dia, por isso aos domingos quatro cozinheiras e seis ajudantes iniciam a jornada às 5 horas. Há cerca de um ano a Vó Tatau deixou os fogões sob o comando da filha Célia Regina Terciotti Magro, 51 anos, mas tudo o que vai para a mesa passa pela aprovação dela. “Quando comecei a assumir o fogão eu levava os pratos para a minha mãe antes de servir para ter certeza que o tempero estava na medida certa”, explica Célia.

Os dois fogões, um com comida mineira e outro com comida italiana, são montados ao meio-dia e reabastecidos até às 15 horas. O cardápio é sempre o mesmo e se faltar alguma coisa os clientes sentem falta e questionam, afirma a Vó. Segundo ela, há clientes “de carteirinha” que frequentam a chácara desde o início. “Recebemos muitos e-mails, especialmente de pessoas de outras cidades que passam por aqui. Fazemos tudo com muito amor, como se fosse para receber a nossa família e sempre antes de iniciar o trabalho fazemos uma oração pedindo para Deus que cada um possa dar o melhor de si naquele dia”.

Os clientes podem ficar curtindo a chácara até às 17 horas, em época de horário de verão o período se estende e há muito o que fazer. O espaço tem parquinho para as crianças, pônei e jardins. Vó Tatau nunca imaginou em ver a chácara como está hoje. “Quando casei eu trabalhava na lavoura de café, só comíamos o que a terra dava. Tudo era feito em casa e só comprávamos na venda o açúcar e a farinha. O terreiro onde secávamos o café é hoje o estacionamento do restaurante. Quando olho para tudo isso eu nem acredito que é verdade”, emociona-se a Vó Tatau. Para elas, o melhor do restaurante não está na comida nem no espaço, mas no sorriso dos clientes. “É muito gratificante ver a alegria das pessoas quando vão embora. Muitos vêm nos agradecer e neste momento eu percebo que todo o meu cansaço valeu a pena.”