22/06/2015 00:00:00 Waldomiro, o amigo de Londrina

Fonte: Paulo Briguet - Revista Mercado em Foco

Presidente honorário do Observatório de Londrina, Waldomiro Carvalho Grade é uma daquelas raras unanimidades que, com o perdão de Nelson Rodrigues, não são burras. Pelo contrário, Waldomiro é unanimidade inteligente – e bem-humorada.

Vou contar uma historinha sobre o pai dele, o alfaiate Georgino Carvalho Grade. No leito de morte, seu Georgino pediu aos filhos que devolvessem uma trena que ele havia emprestado de um amigo. Correto em tudo que fazia, o alfaiate não queria morrer sem devolver o pequeno objeto ao legítimo dono.

Nesse clima familiar, de trabalho e honradez, nasceu Waldomiro Grade. Nasceu em Londrina – e quase com Londrina. A cidade tem 80 anos; ele, 76. Menino, morava na Rua Ceará (hoje Hugo Cabral), ao lado do Colégio Hugo Simas. “De casa eu ouvia o sinal e ia para a escola”, recorda. Também era seu vizinho o advogado Milton Menezes, duas vezes prefeito da cidade. Pergunto a Waldomiro qual é o seu modelo de homem público. Ele não titubeia na resposta: “Milton Menezes. A impressão que eu sempre tive dele é a de uma pessoa reta, ponderada. Tanto que os resultados de suas duas administrações em Londrina foram muito elogiados”. A admiração de Waldomiro por Milton aumentaria na época da Faculdade de Direito, em que o vizinho se tornou professor: “Ele tinha mais ou menos a idade do meu pai”. Waldomiro se formou em 1964. Foi da terceira turma de Direito em Londrina.

“Minha ligação afetiva com a cidade é extraordinária”, diz Waldomiro, lembrando as pegadas que ficavam no barro das ruas ainda não pavimentadas. Aqueles passos no chão de terra vermelha prenunciavam que o caminho para Waldomiro era mesmo Londrina, sua terra natal. “Acredito que a cidade caminhou bem enquanto os pioneiros ocuparam os principais cargos públicos”, diz Waldomiro, citando os nomes de Hugo Cabral, Milton Menezes, Antonio Fernandes Sobrinho e José Hosken de Novaes. “Depois, por um período, abriu-se caminho para o populismo”, observa.

Waldomiro Grade trabalhou por mais de 20 anos na Receita Federal, onde ocupou os cargos de fiscal e delegado. Uma carreira absolutamente sem máculas. A atuação no serviço público despertou-lhe o interesse para uma carreira política. Foi candidato a vereador em 1976 – ficou só com a suplência. “Tenho impressão de que foi melhor não ganhar. Acho que me aborreceria muito.”

Com a experiência acumulada na Receita Federal, Waldomiro Grade interessou-se pela ideia de criar um Observatório de Gestão Pública em Londrina. Tomando como modelo a experiência de Maringá, juntou-se ao jornalista Fábio Cavazotti e mais alguns cidadãos londrinenses. Apoiado por empresas e instituições como a ACIL, esse grupo fundou o Observatório em setembro de 2009.

Durante cinco anos, Waldomiro esteve à frente do Observatório, de olho nas licitações públicas do Município. A grande qualidade do Observatório é optar por uma abordagem técnica, em que a legalidade e a eficiência ficam acima da ideologia e da política. “O Observatório não pode ter cor política. Na verdade, nosso objetivo é promover a cooperação com os agentes públicos – e garantir a melhor aplicação dos recursos.”

De 2009 para cá, Observatório gerou uma incalculável economia de recursos públicos para Londrina. “Nosso principal foco é o acompanhamento das licitações. Começamos por casos pequenos. Coisas que pudéssemos contar, pesar e medir”, afirma Waldomiro. Na administração Barbosa Neto, durante a reforma do Calçadão, ficou famoso o caso do banco de pedra orçado em R$ 1.800 – e que na verdade custava R$ 200. Assim, passo a passo, licitação a licitação, o Observatório conseguiu aumentar a qualidade do gasto público na Prefeitura. Hoje os avanços são evidentes.

“Contar, pesar e medir.” Aquela trena que o seu Georgino queria devolver ao amigo simbolizava o futuro de seu filho Waldomiro. O presidente honorário do Observatório vem mostrando a Londrina que há medida nas coisas – e esse trabalho merece respeito. Fábio Cavazotti, que assumiu a Presidência do OGPL no dia 20 de março, sabe disso. “Então, dona Elza, me desculpe, mas a sra. vai ter que ‘emprestar’ o Waldomiro algumas vezes”, avisou o sucessor do amigo de Londrina.