04/09/2014 00:00:00 Roberto Alcântara e a arte de nascer de novo - Perfil de um empresário inovador

Por Paulo Briguet

Certa vez, um sábio de Jerusalém chamado Nicodemos foi conversar com Jesus à noite, porque não queria ser visto pelos seus colegas do Templo. E Jesus lhe disse uma frase surpreendente: “Ninguém pode ver o Reino de Deus se não nascer de novo”.


A passagem do Evangelho de São João é um bom começo para falar da trajetória do empresário Roberto Alcântara. Durante a vida, Roberto precisou se reinventar muitas vezes. O inovador é assim: ele precisa nascer de novo diante de cada desafio imposto pelas circunstâncias.

“O impossível é aquilo que ninguém ainda tentou”, gosta de dizer Roberto Alcântara, proprietário da Angelus, empresa de Londrina, referência internacional em produtos tecnológicos inovadores. Roberto nasceu numa família pobre de Paranavaí. Morava numa “região carente, quase uma favela”. O profissional mais respeitado no local era o dr. Renê, um médico anão, que atendia às pessoas pobres, dirigia um carro bonito e frequentemente recebia frangos e perus como pagamento por suas consultas. Um dia, o menino Roberto perguntou: “Mãe, como é que eu faço pra ser doutor?” A mãe lhe deu a receita em uma frase: “É só estudar”. Então, não era impossível. Bastava tentar.

Roberto seguiu o conselho materno. Foi sempre o melhor aluno da classe. Quando chegou a hora de fazer o vestibular, escolheu Odontologia na UEL. Foi aprovado.

Na época, os cursos da Universidade de Londrina eram pagos. Por ser de uma família pobre, Roberto conseguiu crédito educativo e não precisou arcar com as mensalidades. Porém, no meio do caminho, recebeu as listas de materiais para a faculdade e descobriu que Odontologia é um curso caro. Teria de trabalhar para fazer frente às despesas. Ainda estudante, começou a atuar numa clínica popular de odontologia, na Rua Guaporé, procurando tratar (e não extrair) os dentes dos pacientes pobres da região. O consultório era uma salinha de três por quatro metros, sem janelas. Roberto usava uma velha cadeira de dentista, fabricada nos anos 50, a época em que sua família migrara do interior da Bahia para o interior do Paraná, em busca de uma vida melhor.

Roberto se formou em Odontologia em 1984. Por dez anos, trabalhou na clínica da Rua Guaporé, até abrir um consultório de endodontia na Rua Goiás. “Eu estava mais do que feliz ali”, lembra. “Tinha meu consultório, minha especialização, minha família. Não precisava mudar nada.”

Para ajudar uma amiga em dificuldades

Mas o destino tinha outros planos para Roberto Alcântara. Necessário vos é nascer de novo. Em 1994, uma querida amiga sofreu um acidente de carro numa viagem a São Paulo, quase teve de amputar a perna e consumiu todas as suas economias no tratamento hospitalar. Roberto decidiu ajudá-la. “No meu trabalho de dentista, eu gostava de fabricar artesanalmente moldes de silicone para usar nos tratamentos diários. Resolvi colocar esses moldes em caixinhas e ofereci o produto à minha amiga, para que ela os vendesse de porta em porta e ganhasse algum dinheiro.”

Em alguns meses, a venda do pino – chamado Nucleojet – fez tanto sucesso que a amiga estava ganhando mais dinheiro que o dentista. Roberto patenteou o produto e, durante os cinco anos seguintes, criou produtos odontológicos de baixo cunho tecnológico para vendê-los aos colegas. Nascia a empresa Angelus Produtos Odontológicos: mais uma prova de que as coisas mais importantes da vida são aquelas que fazemos sem esperar nada em troca.

Essa foi a primeira fase de Roberto Alcântara como inovador. Mas a necessidade de nascer de novo logo apareceu. No ano 2000, ele quis desenvolver um pino odontológico feito de fibra de carbono. Para atingir tal objetivo, precisava do material utilizado na turbina de foguetes espaciais. Procurou o Centro de Tecnologia da Aeronáutica (CTA), em São José dos Campos. Foi uma longa viagem: dez horas dentro de Uno Mille sem ar condicionado, de terno e gravata. Quase mais quente que a turbina do foguete. Mas deu certo – e o produto foi desenvolvido.

Eram tempos difíceis, em que o empresário não costumava ser bem-recebido nos centros de pesquisa e universidades. “Tinha que entrar pela porta dos fundos, e era apresentado como o ‘primo’ do pesquisador”, recorda o dono da Angelus. “Havia um clima de desconfiança e preconceito entre as empresas e as universidades.”

Em 2005, veio a Lei Federal da Inovação. Isso mudou o quadro. “Nas universidades, parei de entrar pela porta dos fundos e passei a entrar pela porta da frente. Nos centros de pesquisa, parei de ser ‘o primo do pesquisador’ e passei a ser recebido com pompas”. Mas todas as dificuldades serviram para Roberto compreender melhor como funciona a cabeça do pesquisador e conhecer as necessidades dos homens de ciência. “Hoje conheço o perfil de cada pesquisador, de cada instituição.”

Toneladas e gramas de conhecimento

Quando descobriu que um produto americano usado em tratamento de canais era feito à base de cimento, procurou a Votorantim para desenvolver o MTA Angelus, medicamento hoje utilizado por dentistas em vários países. “Na hora de negociar o valor do produto, foi engraçado, porque o funcionário da Votorantim perguntou de quantas toneladas eu precisaria por mês. Eu expliquei que inicialmente precisaria de alguns gramas...”

Hoje o MTA é um dos carros-chefes na linha de produtos da Angelus. Após a Lei da Inovação, começaram a surgir as parcerias, os protocolos, as fontes de financiamento para pesquisa. Em sua nova sede, no Parque Industrial Francisco Sciarra, a empresa tinha pesquisadores acadêmicos trabalhando no desenvolvimento de produtos. Os doutores que Roberto admirava na infância agora trabalhavam para ele.

Necessário vos é nascer de novo. Atualmente a Angelus vive uma fase de expansão, com vários negócios no plano internacional, uma equipe de pesquisadores atuando dentro da empresa e outros espalhados por várias instituições no Brasil. Vencedor por três vezes do Prêmio Finep de Inovação, Roberto Alcântara não para de nascer de novo a cada novo produto desenvolvido, testado e patenteado. Às vezes, pode ser uma ideia simples: como o jacarezinho colorido usado como “luva” para a injeção de anestesia em tratamentos de odontopediatria. Mas também podem ser produtos complexos, cuja pesquisa é financiada em joint-ventures com centros internacionais.

Quando menino, em Paranavaí, a família de Roberto Alcântara não tinha dinheiro para comprar brinquedos. Então Roberto os inventava. Construiu um carrossel, uma mesa de pingue-pongue, um parque infantil. “Sempre fui assim. Se há dificuldades, eu busco as soluções. É um caminho longo, cheio de riscos, mas é preciso acreditar. A inovação deve ser uma estratégia em nossa vida. Se não é assim, as pessoas sempre vão optar pelo caminho mais fácil.”

Angelus é a hora em que o Anjo Gabriel anunciou o nascimento de Jesus a Maria. Uma hora mágica, em que a humanidade começou a nascer de novo para nunca mais ser a mesma. Ao adotar esse nome para sua empresa, Roberto Alcântara tinha em mente o mundo de possibilidades que se anunciou quando a sua mãe anunciou lá em Paranavaí, diante do menino que perguntava como é que fazia para ser doutor: “É só estudar”. E trabalhar. E nascer de novo.