08/09/2014 00:00:00 Ponte aérea Paraná–Vale do Silício

Fonte: Gazeta do Povo

Dezenas de empreendedores do Paraná estão buscando inspiração diretamente no Vale do Silício, na Califórnia, para acelerar negócios inovadores. Sozinhos ou como participantes de projetos de estímulo ao empreendedorismo, eles vão até os Estados Unidos em busca de recursos, modelos de negócios e de conhecimento sobre a cultura inovadora que fez do Vale o centro nervoso da indústria tecnológica global.

O caminho mais comum dessa ponte Paraná–Califórnia tem sido a participação em programas internacionais e em aceleradoras que selecionam startups para uma imersão no Vale com o objetivo de colocar as empresas em contato com a cultura de inovação e risco que caracteriza o mundo tecnológico. É também uma oportunidade para encontros com investidores em busca de projetos em mercados emergentes.

Os próximos a desembarcar na Califórnia serão os sócios da Get Out, Adonis Batista e Lucas Kenji, de Curitiba. A dupla desenvolveu uma plataforma de experiências de lazer, entretenimento, conhecimento e aventura para quem busca algo diferente para fazer nas horas de folga. O projeto, no ar há um ano, tem mais de 200 atividades catalogadas e 1,2 mil clientes atendidos. Trinta startups brasileiras foram selecionadas para participar do TechCrunch Disrupt 2014, que começa nesta segunda-feira, em São Francisco.

A Get Out é a única paranaense do grupo. Até dia 10 de setembro, os empreendedores brasileiros vão participar de capacitações e de uma maratona de programação. A ação é apoiada pelo Sebrae nacional e a Agência Brasileira de Promoção de Exportações e Investimentos (Apex-Brasil). “É um segmento de grande potencial, que pode ser mais bem organizado para ter acesso a capital e desenvolver mercados”, explica a gerente para a área de projetos da instituição, Flávia Egypto.

Para os sócios, estar no Vale é ter a oportunidade de conhecer o mercado internacional, contatar potenciais investidores e ampliar o networking, uma das premissas de quem atua no segmento. “Os contatos e a rede de compartilhamento de informações são bases importantes para o nosso trabalho”, explica Adonis Batista.

Foi essa transparência que encantou a advogada Caroline Dias, CEO do Grupo Universal Decor, uma das 13 startups selecionadas para a 4ª edição da TechMission, capacitação promovida pela Brazil Innovators, rede global de empreendedores digitais, com mais de 15 mil integrantes, realizada em meados de agosto. “A facilidade de parceria entre as empresas e no acesso às informações são um choque de realidade, comparado ao comportamento do empresário brasileiro. Eles não temem a concorrência. Não há segredos, a diferença está na capacidade de execução dos projetos”, comenta.

Mais do que saber sobre os outros, a experiência no Vale do Silício pode ensinar muito sobre o próprio negócio. Essa foi uma das lições assimiladas pelo diretor de tecnologia e co-fundador do portal de educação profissional Já Entendi, Wagner Mariotto Bonfiglio. A empresa participou do 500 Startups, programa de aceleração mundial, entre janeiro e maio deste ano. “Todos são extremamente práticos e diretos. Isso ensina a extrair o melhor da própria empresa para expor aos parceiros e investidores”, diz.

Cultura de risco zero limita criatividade

A cultura da inovação talvez seja o maior ativo do Vale do Silício, ao mesmo tempo em que é, também, a maior deficiência no Brasil. Lá, a cultura estimula a geração frenética de empreendimentos de alto impacto e valor agregado. Aqui, reduz o ritmo de desenvolvimento do segmento. É justamente para superar este degrau que pesquisadores, entidades, poder público, investidores e empreendedores do estado, em especial Curitiba, estão se organizando.

Um dos esforços está sendo capitaneado pelo Instituto Brasileiro de Qualidade e Produtividade (IBQP). A pedido do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq), do Minis­­tério da Ciência, Tecnologia e Inovação (MCTI), a entidade está realizando rodadas de discussões para definir políticas de incentivo e aceleração do empreendedorismo inovador no país. Além de Curitiba, as discussões serão feitas em Belo Horizonte e São Paulo. “A ideia é levantar os gargalos que limitam a criação de um ecossistema que estimule esse novo modelo de negócio”, explica o professor Marcio Spinosa, coordenador de inovação do IBQP e professor da pós-graduação em Gestão Urbana, da PUCPR.

O trabalho inclui as ponderações de 60 especialistas do Paraná e São Paulo sobre os fatores indutores à inovação no Vale do Silício, como a crença na prática inovadora, a pesquisa abundante e a tolerância ao risco. “A cultura americana valoriza o fracasso como um aprendizado. Isso é estimulante para o empreendedor, que não desiste diante do erro”, observa o professor Marcos Schlemm, da pós-graduação em Administração da PUCPR e visitante da Haas School, da Universidade de Berkeley, na Califórnia.

Para os pesquisadores e boa parte dos envolvidos no ecossistema brasileiro, a questão cultural é determinante. Além da intolerância ao erro, que limita o apetite dos investidores e leva à criação de projetos que limitam ao máximo o risco dos investimentos, há fatores essenciais, como a educação. “Não temos uma postura empreendedora em nenhum dos níveis escolares. No Vale, os estudantes são estimulados a formarem suas empresas”, explica Schlemm.