23/07/2018 08:17:38 “Precisamos ter um país minimamente sério”

Fonte: Revista Mercado em Foco - ACIL - Por Susan Naime

Apesar de sua relevância, a palavra corrupção, aparentemente, tornou-se batida e corriqueira no vocabulário brasileiro. E apesar de ser unânime a sede por um País melhor, pequenas práticas diárias colocam em risco o direito de gritar por justiça. A reportagem da Mercado em Foco conversou com o delegado do Grupo Especial de Combate ao Crime Organizado (Gaeco), Alan Flore, que leva o leitor (e o eleitor) a refletir sobre sua própria conduta. Confira!


Mercado em Foco: De onde vem a corrupção?

Alan Flore: É difícil fazer uma definição, mas eu acredito que a corrupção se origina das práticas diárias. Ela tem origem na cultura da população, e isso vai relativizando os conceitos que cada um tem. Eu entendo que as pessoas enxergam que existe uma gravidade maior quando determinado ato é praticado por um terceiro. Mas quando aquele ato serve para garantir seus próprios interesses, acabam relativizando a gravidade daquela conduta. Durante todos esses anos atuando na polícia, podemos enxergar que muitas pessoas entendem que criminoso no Brasil é quem vive do crime, aquele sujeito que não faz mais nada e só pratica o crime. Mas se a pessoa tiver uma ocupação lícita e ao mesmo tempo cometer alguns crimes, ela não se enxerga como criminosa, e ainda fica indignada. Talvez isso seja até mesmo reflexo da relativização, daquilo que é certo ou errado, e da gravidade das condutas.

MF: As pequenas práticas ilícitas cometidas no dia a dia podem levar a algo pior?

AF: Sem dúvida levará a algo a cada dia mais grave. Temos assistido hoje no Brasil muitos casos de corrupção que estão sendo descortinados por diversas operações, a mais emblemática obviamente é a Lava Jato. Mas as pessoas muitas vezes não enxergam que o político está lá porque foi colocado por alguém. E nós temos diversas personalidades políticas que estão exercendo mandatos sucessivos, mesmo sendo notoriamente corruptas. Então de que forma essas pessoas chegam lá? O indivíduo fica indignado de ver que o político está levando vantagem no exercício do seu cargo, mas quando chega a eleição, ele não vê mal nenhum receber um presentinho de um candidato, e nem se sente responsável pela desonestidade que pratica quando vende o seu voto. Mas se esse candidato se eleger, esse eleitor não vai ter legitimidade para cobrá-lo em nada. É essa a razão pelo qual nós estamos assistindo esse grande escândalo envolvendo as maiores empreiteiras do país. Por que eles investiam tanto em políticos? Para ter um retorno, óbvio.

MF: Você acha que as pessoas se corrompem porque há muitas oportunidades?

AF: Eu acredito que o caráter vai determinar se a pessoa vai se render àquela tentação que tem diante do surgimento de uma oportunidade. É o ditado que nós conhecemos: ‘A ocasião faz o ladrão’. Muitas pessoas são trabalhadoras, vivem dos seus salários, mas ao mesmo tempo, quando estão diante de uma situação que elas podem levar vantagem em alguma coisa, não hesitam de se beneficiar. Essa é uma forma de corrupção. É o primeiro passo para que a pessoa tenha uma predisposição para infringir uma norma legal praticando um crime.

MF: Você acredita que há melhorias no campo da punição, mas não do avanço moral?

AF: Eu acho que essa questão descortinada através das operações envolvendo a corrupção em larga escala e a níveis nunca vistos anteriormente em nosso país, está levando a uma reflexão da sociedade. Estamos passando por um período de amadurecimento. Agora, do ponto de vista punitivo, servindo como exemplo para garantir que futuramente a gente tenha um país mais sério, eu ainda vejo com bastante desconfiança. Várias operações estão sendo deflagradas no sentido de descobrir e tentar punir os envolvidos em atos de corrupção, que é o principal mal do nosso país, um mal que assola a nossa sociedade, e muitas pessoas não conseguem enxergar até onde vão os malefícios da corrupção. A punição ainda é uma incógnita porque algumas situações do ponto de vista legal acabam dificultando o processo. Um exemplo é o foro privilegiado, que seria uma garantia legal para o exercício de uma determinada função, só que ele serve na prática como garantia de impunidade. A Lava Jato, em primeira instância, salvo engano, julgou cerca de 180 pessoas. O STF, ninguém, ao longo de dois anos. Então, a decisão de limitar o foro privilegiado vai trazer uma pequena repercussão do ponto de vista prático para corrigir esse problema. Mas o problema vai ser corrigido de verdade quando o foro privilegiado for completamente eliminado. Todas as autoridades com foro privilegiado têm praticamente uma garantia de impunidade.

MF: O que você pensa sobre o brasileiro estar acostumado com essa realidade a ponto de considerá-la normal?

AF: O brasileiro está acostumado com aquilo que ele vê no seu dia a dia. E isso faz com que cada um seja levado a ter as mesmas práticas. Não digo todas as pessoas. Mas entender que ‘não vai dar em nada’, ou encarar os fatos com certa naturalidade, é algo que faz parte da cultura do povo, e o que nós precisamos para corrigir esse problema é justamente mudar essa realidade, demonstrar que existem consequências para a prática de atos ilegais, seja um ilícito penal (um crime) ou um ilícito que possa caracterizar uma improbidade administrativa. Essas pessoas precisam ser alcançadas pela justiça de algum modo. A política do ‘rouba, mas faz’, infelizmente, é aceita por grande parte da nossa população.

MF: Além da questão cultural e do foro privilegiado, quais são as dificuldades hoje para se combater a corrupção?

AF: O enfrentamento da corrupção no Brasil é bastante difícil, seja em razão dos meios de investigação, que são amplamente atacados, seja pela cultura que existe também no meio jurídico de que a corrupção não é algo tão grave. Já ouvi um deputado dizer que o Brasil se perdeu porque resolveu deixar de enfrentar os criminosos para ficar se preocupando em apurar corrupção. O corrupto não é um criminoso?

MF: As manifestações populares são doses de esperança?

AF: Sim, as manifestações são muito importantes para que se faça essa reflexão tão necessária hoje. É dessa forma que o Brasil pode melhorar do ponto de vista de sua seriedade. Nós precisamos ter um país minimamente sério. O Brasil tem um potencial enorme pelos seus recursos naturais, sua dimensão territorial. Mas o que precisamos ter aqui é seriedade. Achar que no Brasil pode tudo dificulta o crescimento, dificulta a melhoria da condição de vida da população, principalmente das pessoas de baixa renda. Isso acaba corrompendo completamente o sistema.

MF: Essa é uma discussão para ser levada para dentro de casa, junto das famílias?

AF: Sem dúvida alguma. Ninguém nasce já preparado para viver em uma sociedade desenvolvida. Eu acho que as pessoas, ao longo da sua existência, pela experiência de vida que elas têm, aprendendo boas práticas, vão melhorando. O ser humano tem a necessidade de ir melhorando, se desenvolvendo, intelectualmente, inclusive. Todos nós de uma forma geral já praticamos alguma infração imoral em algum momento, ou cortar uma fila, estacionar em local proibido, mas é imprescindível que o cidadão vá corrigindo essas práticas no seu dia a dia para que o seu conceito de certo ou errado não seja relativizado.

MF: Estamos em um ano eleitoral, qual é a reflexão que você acha que cada cidadão deveria fazer?

AF: Votar em candidatos que o eleitor saiba que pelo menos tem uma vida pregressa, de boas referências, boas práticas. Não se render aos eventuais agrados que alguns candidatos se propõem a oferecer para eleitores porque se o indivíduo já está ali tentando explorar a desonestidade do seu eleitor, com toda certeza, se esse candidato for eleito, ele vai também ser uma pessoa desonesta. O eleitor deve se conscientizar da necessidade de escolher bons governantes para que o país possa se desenvolver, para que essas práticas devastadoras à sociedade, como o desvio de recursos públicos, por exemplo, possam ser enfrentadas da forma que precisa, senão nós teríamos a necessidade de um estado policialesco, onde se deixa somente a cargo dos órgãos de segurança, dos órgãos de investigação, a tarefa de apurar, alcançar aqueles que praticam infrações penais, mas não se tem a mesma importância ou atenção para a escolha desses candidatos que estão ocupando esses cargos.