29/09/2014 00:00:00 Propostas econômicas de presidenciáveis são superficiais

Fonte: Folha de Londrina


O debate sobre políticas econômicas entre os presidenciáveis está recheado de polêmicas na reta final de campanha, mas foi pouco produtivo porque contou apenas com propostas superficiais. A opinião é dividida por três economistas que, a pedido da FOLHA, compararam programas de governo e declarações dos três primeiros colocados nas pesquisas de intenção de voto, sobre os temas autonomia do Banco Central, política energética e Petrobras, mudanças na legislação trabalhista e reforma tributária. 


Para a análise, foram usados dados do programa de governo de Marina Silva (PSB), a única dos três que disponibilizou o documento em site de campanha, além de textos com diretrizes de campanha e declarações em entrevistas de Aécio Neves (PSDB) e Dilma Rousseff (PT), conforme orientação das assessorias dos candidatos. Com raras exceções, porém, os analistas apontaram compromissos semelhantes e que não detalham como chegar aos resultados que propõem.

 
A discussão sobre emprego e legislação trabalhista aparece como a menos divergente. Apesar da troca de acusações em entrevistas e programas eleitorais sobre a possibilidade do aumento do desemprego caso os adversários vençam, os três citam a necessidade da criação de vagas, da valorização do salário mínimo e se mostraram voltados a promover atualizações nas leis. "Todos os candidatos dizem que algumas atualizações precisam ser feitas, com a necessidade de alguma flexibilização, e que é claro que é preciso defender os direitos", diz o professor de economia Adilson Volpi, da Universidade Federal do Paraná (UFPR).

 
Para o professor de economia Sidnei Pereira do Nascimento, da Universidade Estadual de Londrina (UEL), os sindicatos ainda relutam que ocorra flexibilidade para determinadas categorias. Ele diz que setores mais organizados, como a indústria automobilística, já possuem negociação diferenciada em momentos de crise, quando ocorre o layoff, ou suspensão temporária de horários ou contratos de trabalho. "Existem outras situações, como na agricultura, em que seria possível aumentar a formalização se houvessem regras parecidas. Há um período do ano de trabalho intenso e outro mais parado, mas as contratações acabam sendo temporárias por falta de flexibilidade."

 
Conselheiro do Conselho Regional de Economia (Corecon) do Paraná, Cid Cordeiro completa que os três candidatos se manifestam, apesar de genericamente, em favor do aumento das vagas de emprego. "É um compromisso importante porque nos anos 80 e 90 houve muito desemprego, em uma época em que as políticas de governo não estavam colocadas para o mercado de trabalho." 


Reforma tributária


Outro ponto em comum foi a percepção de que uma reforma tributária é necessária. Marina, por ter programa de governo, detalha melhor quais as propostas, mas não mostra o caminho que seguirá para implantá-las. "Desde 94, muita gente colocou a reforma tributária no programa de governo e, até hoje, ninguém conseguiu fazê-la", diz Nascimento, especialista na área. 
Cordeiro lembra que a reforma significaria aumentar o peso da tributação direta, sobre renda e propriedade, e diminuir o da indireta, sobre o consumo. "O problema é que sempre alguém vai perder e hoje temos o exemplo de prefeitos que nem mesmo conseguem elevar o IPTU (Imposto Predial e Territorial Urbano), apesar da valorização dos imóveis, porque há chiadeira geral."

 
O que também não se explica são os objetivos com a reforma. "Têm sido feitos remendos e é preciso uma mudança estrutural, mas não estão claros nas propostas quais são os desafios para os próximos anos", diz Volpi.