02/05/2017 08:05:22 Quando a montanha vai a Maomé

Fonte: Revista Mercado em Foco - ACIL - Por Fernanda Bressan

Ter acesso a serviços e produtos sem sair de casa deixou de ser sonho de consumo para se tornar realidade. Comprar roupas, dar banho no animal de estimação, ter professores de educação física no condomínio e higienizar sofás são alguns exemplos oferecidos em Londrina.

Empresário e educador físico, Fabio Morais de Sousa vislumbrou esse mercado há um tempo, quando não havia nada parecido na cidade no segmento dele. Há 9 anos ele montou a WFit Consultoria Esportiva, especializada em levar atividades físicas para condomínios. “Sempre quis trabalhar com educação física e tinha o sonho de abrir uma academia. Mas vi toda a dificuldade de gerir um negócio, custos com manutenção. À época, começavam a surgir os condomínios e a busca por atividade física. Foi aí que decidi montar uma empresa para atender esse nicho”, recorda Fábio, que na época tinha 24 anos. O modelo já existia em grandes centros como São Paulo. Por que não daria certo aqui? “Estava crescendo o número de condomínios e eles ficavam longe das academias, era um nicho interessante”, completa.

Hoje, Fabio tem 30 funcionários, atende 5 condomínios com uma média de 1.300 alunos. “Oferecemos tudo relacionado à atividade física: corrida, musculação, atividades recreativas para crianças, natação, ioga, pilates, futsal, zumba. Vou até o condomínio e vejo o interesse daquele público. A partir daí, elaboramos o projeto e busco profissionais para atuar nele”, detalha o empresário.

Ele diz ser grande a procura de moradores de condomínios por serviços especializados como este. “Se eles forem se deslocar para isso, terão um custo muito mais alto, além de ter que se locomover, encontrar lugar para estacionar”, explica. Este é um dos motivos para a WFit estar crescendo ano a ano, uma média de crescimento entre 6 e 8% mesmo nos anos mais difíceis para a economia. “Não tivemos dificuldade nesses anos, nem para reajustar contratos. As pessoas estão buscando esse serviço”, atesta Fabio.

Quando começou, Fabio tinha o objetivo de ter uma grande equipe com ele. “Mas não imaginava ter 30 funcionários!”. Em sua rotina, ele busca caminhos para fazer com que os profissionais cresçam e façam o melhor que puderem. “Tenho uma metodologia de trabalho que passo para todos. A parte técnica, de dar a aula, é obrigação deles saberem, faz parte da formação. Eu ofereço algo além, e tem uns 20 profissionais que passaram pela empresa e hoje cresceram e estão em outros lugares. Isso me deixa realizado, minha função é ajudar as pessoas a serem profissionais melhores, quero que todos estejam bem”, acredita.


Tapetes e cortinas

Quem também está satisfeito com o rumo dos negócios é Vicente Neto, proprietário da Tec Tapetes. Há seis anos ele voltou dos Estados Unidos para o Brasil disposto a montar um negócio. Começou pequeno, em casa, e hoje conta com estrutura própria e equipamentos de última geração, como a máquina de limpeza por ultrassom para cortinas e centrífuga de última geração, fundamental para limpeza de tapetes. “Eu tinha um negócio de construir casas aqui no Brasil, por isso voltamos, para proteger o patrimônio que tínhamos conquistado. Mas não gostei do ramo, era um investimento de longo prazo e queria algo que fluísse diariamente. Pesquisando, percebi a carência desse segmento de limpeza especializada e queria ser uma lavanderia especialista no que faz”, recorda.

Com clientela fidelizada, ele acompanha de perto o negócio. Aliás, toda a família põe a mão na massa, um dos fatores que ele acredita ter sido fundamental para o sucesso do empreendimento. “Fomos ganhando a confiança do cliente. Por mais educado que o funcionário seja, ele não vai passar do bom dia e boa tarde com o cliente. Quando estamos presentes, criamos vínculos”, atesta.

Parte do serviço é feito na casa do cliente, para outras, há o serviço de “leva e traz”, tudo para trazer comodidade e para que o cliente não perca tempo. “As cortinas nós buscamos, lavamos a mão e reinstalamos do mesmo jeito que estava antes. Tiro foto do ambiente para montar exatamente como estava. Em muitas casas, a decoração foi feita por arquitetos e nada sai do lugar. Precisamos deixar assim novamente. Já o sofá, lavamos na residência do cliente mesmo”, conta. Para ele, é fundamental unir a praticidade com qualidade no serviço.

A dificuldade de locomover sofás fez com que tudo fosse pensado para atender o cliente na residência. “Ir até o cliente é uma comodidade para ele e uma praticidade para mim também. Já pensou como seria difícil locomover o sofá, passar pela porta, trazer até a empresa e depois levar de volta? O valor seria muito alto”, pontua.

O crescimento da Tec Tapetes foi de passo a passo e segue até hoje. “As coisas foram acontecendo, tudo gradativo. É fundamental ser verdadeiro com o cliente, não prometer o que não pode cumprir, e também ter tecnologia de alto nível para atender. Tem cortinas de R$ 20 mil e com tecnologia, atendemos sem medo”, frisa.

Banho e tosa

Há pouco mais de um ano, Crisleine Ferreira Carraro também resolveu investir no serviço em domicílio: dar banho em pets com tosa higiênica. A dificuldade dos clientes para levar os bichinhos até os petshops devido a correria do dia a dia fez com que muitos deles gostassem da ideia de ter o animal limpo no conforto do lar. Foi assim que nasceu a Bem me Care.

“Deixei minha carreira para trabalhar com animais. Fiz Artes Visuais e trabalhei por quatro anos na área, mas comecei a ver que a empresa estava instável e isso começou a me desmotivar. Pedi demissão e um ano depois a empresa fechou! Isso mostrou que a minha decisão estava certa”, recorda, se orgulhando da própria intuição. “Nesse tempo, fui pesquisando o que ia fazer e uma amiga me ajudou a entrar em um petshop mesmo sem experiência. Fiquei alguns meses lá, mas comecei a pensar em ter algo meu. Percebi a dificuldade do dono levar o cachorro, tinha ainda a preocupação de deixar os animais em gaiolas nas horas de espera. Como não havia condições de abrir espaço físico, tive essa ideia de ir até a casa do cliente”, recorda. “Arrisquei no negócio e entrei no escuro mesmo porque é algo novo ainda. No início, demorou para as pessoas me conhecerem, mas o cliente que quer o bem-estar do animal prefere esse atendimento”, diz.

Há alguns perfis de animais que também se beneficiam do banho em domicílio. “Tutores de cães com idade avançada, diabéticos, cardíacos e com outros problemas de saúde me procuram. Nem sempre é fácil para esses animais ficarem nos petshops. O mesmo acontece com filhotes antes de tomarem todas as vacinas já que o recomendado pelos veterinários é que eles evitem lugares aglomerados e expostos a outros cães. O banho domiciliar atende esse público”, acrescenta.

Banheira, soprador, secador e produtos de higiene são os itens que Crisleine leva para a casa de seus clientes. E é sempre bem recebida por eles. “Fiquei preocupada no início porque animal é igual criança na frente dos pais. Ouvi dizer que poderia ter dificuldade, mas não tenho esse problema, ao contrário, eles ficam relaxados”, descreve.

A decisão de deixar o emprego para se tornar empresária deu a ela a oportunidade de atuar com o que mais gosta. “Foi um desafio. Tinha uma estabilidade, todo mês tinha meu salário sem imprevistos. Mas como minha família não depende da minha renda, foi mais tranquilo. Me sinto muito melhor hoje, estava com uma carga de estresse muito grande e hoje faço o que eu amo. O melhor de tudo é poder fazer o meu horário.”

Esses são exemplos recentes de serviços em domicílio, mas não é de hoje que recebemos profissionais prestadores de trabalho em casa. Eletrodomésticos com problemas, por exemplo, costumam receber a visita de um técnico para avaliação e conserto. Há também o carro que passa reparando panelas, o sorvete de carrinho na rua, a pamonha! A roda já foi inventada, faltam os segmentos perceberem a demanda para investir nessa linha. Já pensou receber pão francês quentinho em casa? É o mundo voltando às origens e valorizando o tempo, tão escasso na atualidade.