18/08/2015 00:00:00 É de pequeno que se empreende

Fonte: Vinícius Bersi - Revista Mercado em Foco/ACIL

Aos 11 anos, Murilo tinha um desejo e uma oportunidade. Ele queria muito um Ipod e viu a chance de tê-lo quando uma tia contou que faria uma viagem aos Estados Unidos, país onde o produto era bem mais barato que no Brasil.

Murilo pediu à mãe que desse à tia o dinheiro para a compra do aparelho digital de música. A resposta foi não. Os pais do Murilo não poderiam fazer a despesa naquele momento.

Foi então que o garoto decidiu trabalhar para ganhar o dinheiro. Na primeira iniciativa empreendedora, ele tentou vender ímã de geladeira. Ninguém se interessou pelo produto e o garoto não ganhou nenhum real.

Depois ele partiu para o ramo gastronômico. O garoto encontrou uma receita de brownie na Internet. A mãe deu o dinheiro para a compra dos ingredientes e ele fez o bolo, mas o resultado também não foi bom. O brownie não ficou gostoso e ele nem tentou vender o produto.

Persistente – como todo bom empreendedor –, o garoto decidiu fazer uma nova tentativa. Ele mesmo comprou os ingredientes com o dinheiro que tinha ganhado de presente de Natal, preparou a receita e os biscoitos finalmente ficaram bons.

Começou então a operação de venda para familiares, amigos e amigos da família. A mãe do garoto decidiu dar uma força. “Eu o aconselhei a fazer uma fanpage no Facebook para divulgar o produto, mas fiquei surpresa ao saber que ele já tinha feito uma página na rede social”, conta a empresária Rafaela Pedro.

Em duas semanas, o garoto conseguiu o dinheiro para a compra do Ipod. Na terceira, ele juntou o suficiente para a compra de uma bicicleta.

O sucesso do negócio até assustou os pais do garoto que proibiram o Murilo de dedicar tanto tempo aos brownies. “Nós decidimos dar uma segurada, porque ele estava achando que era fácil ganhar dinheiro e que poderia comprar qualquer coisa”, explica a mãe.

Para Murilo ficou a certeza de que a realização de desejos exigem esforço, disciplina e liderança. “Foi bom que eu descobri que nem tudo é fácil”, diz.

Atualmente, Murilo faz e vende os brownies de forma eventual, em períodos que não há provas ou trabalhos escolares. A ideia é que ele possa viver a experiência empreendedora sem comprometer a educação formal.

A psicóloga Vivian Karina da Silva aponta que a experiência do empreendedorismo na infância deve ser lúdica. O “negócio” não pode comprometer ou inviabilizar nenhum outro aspecto do desenvolvimento infantil. “A atividade deve ser feita de uma forma que não ocupe o tempo do estudo, do lazer e do esporte; outras atividades que são importantes para a parte física e mental da criança”, alerta.

No Brasil qualquer trabalho é proibido para adolescentes menores de 14 anos. A legislação não alcança atividades empreendedoras como as de crianças e adolescentes que não têm empregador, mas são remuneradas por algum tipo de empreendimento. Para o advogado trabalhista Osvaldo Alencar, nesses casos, o bom senso deve prevalecer. “A questão da liderança é muito interessante, mas o bom senso é imprescindível. O Estado e a sociedade devem evitar a adultização da criança, o que é muito ruim para o desenvolvimento dela”, aponta.

Educação empreendedora

Quando se pensa em empreendedorismo logo vem à mente a ideia de um novo negócio sendo aberto e de um empresário arrojado disposto a encontrar soluções para problemas e garantir o sucesso do empreendimento. O empreendedorismo sem dúvida se materializa nessa situação, mas um projeto de educação empreendedora da Prefeitura de Londrina em parceria com o Sebrae trabalha com uma ideia mais ampla do significado de empreender.

Crianças de 66 centros de educação infantil e escolas do ensino fundamental são expostas a situações que as fazem desenvolver habilidades como autonomia, persistência, criatividade, inovação, planejamento, proatividade e liderança.

“No futuro a criança pode até ser um empresário, mas a proposta é que independentemente da atividade desenvolvida ela possa ser empreendedora”, explica a coordenadora do grupo de estudos de professores empreendedores, Luzimar Mazeto.

A consultora do Sebrae Daniele Conte aponta que em qualquer ramo de atuação profissional o empreendedorismo é uma característica desejada. “A nossa sociedade exige pessoas com múltiplas competências, autonomia e que saibam se adaptar às mudanças e resolver problemas.”

No programa realizado pela Prefeitura em parceria com o Sebrae, não há uma disciplina específica para o tema da educação empreendedora. As reflexões e atividades são feitas durante as aulas de várias matérias. O trabalho é orientado por uma apostila com conceitos da pedagogia empreendedora do professor Fernando Dolabela – referência nacional no tema – que entende o empreendedorismo para além da importância econômica, como um poderoso instrumento para promoção de liberdade e justiça social.

As crianças elegem um sonho coletivo. Os desejos vão desde andar a cavalo, ir ao cinema ou até assistir a uma partida do Londrina Esporte Clube no Estádio do Café. A partir daí às crianças vão planejando e executando as ações que levam à concretização do sonho.

Todos os passos a serem dados para a realização são registrados em um caderno – o mapa do sonho. A pequena Júlia, de 5 anos, é estudante do Centro de Educação Infantil Nissia Rocha Cabral e já tem o sonho de ser veterinária. “Toda vez que vejo um cachorrinho na rua quero levar ele pra casa”, conta, com carinho. Ela sabe o que precisa fazer para alcançar o objetivo. “Vou ter que estudar muito”, diz com convicção.

No mapa do sonho de Lisa, 4 anos, o desenho é de um avião que ela pretende pilotar quando for adulta. No universo de Lisa a idade adulta chega aos 10 anos. Já o Felipe da turma dela sonha com uma casa na fazenda. “Meu pai e minha mãe vão poder ficar na minha casa, e eu também vou de ônibus”, garante.

Além da preparação para a conquista dos grandes sonhos, a atitude empreendedora aparece nos pequenos desafios do cotidiano das crianças. A turma da Lisa e do Felipe foi batizada de turma do Batman e eles decidiram que iriam desenhar o super-herói em tamanho real. Em princípio, as crianças resolveram deitar a professora em um papel kraft para contorná-la de lápis, mas perceberam que a professora era baixinha e a representação não seria fidedigna. Decidiram então chamar a professora Marieli – a mais alta da escola. A professora atendeu ao pedido, deitou sobre o papel kraft, as crianças fizeram o contorno e conseguiram o resultado esperado.

“Houve trabalho de equipe, demonstração de liderança, muita criatividade e eles solucionaram todos os problemas que foram surgindo, a professora ficou apenas olhando”, conta Ana Maria de Souza, que participa do curso de professores empreendedores. Na educação empreendedora, o professor é sobretudo um provocador. Cabe ao profissional lançar um problema e estimular a criatividade das crianças para resolvê-lo.