22/05/2015 00:00:00 Reportagem: Parcerias, estratégia para crescimento

Fonte: Pauline Frank de Almeida - Revista Mercado em Foco


A busca por novos mercados, tecnologias e formas de negócio para o desenvolvimento de uma empresa não precisa ser uma empreitada solitária. Em tempos de crise financeira, a escolha de um parceiro pode ser uma estratégia para crescer. Porém, planejar e se preparar é fundamental. É preciso estar com a “casa em ordem”, possuir um time de gestão de excelência e estar aberto a uma negociação franca, em busca da construção de um contrato de parceria confiável – para evitar um trauma futuro.


Mas o que caracteriza uma parceria? É a junção de uma ou mais empresas para atingir um objetivo que sozinha nenhuma delas conseguiria. Wellington Moreira, da Caput Consultoria, ressalta que “não existe uma parceria clássica se não houver interdependência entre as partes dentro do escopo definido para atuação.”


Um exemplo em voga atualmente são as Parcerias Público-Privadas (PPP). Em um contexto que a administração pública não possui recursos para um determinado serviço e a iniciativa privada não teria segurança em investir sozinha, os setores se unem para desenvolver o projeto.


Por onde começar?


Qual é o meu objetivo e como eu posso atingi-lo?
Essas são as primeiras perguntas a se fazer ao pensar em uma estratégia de negócio e na parceria não seria diferente. Para o empresário e vice-presidente da Terra Roxa Investimentos, Fernando Kireeff, após a estabilização da moeda, os mercados brasileiros são cada vez mais competitivos e para se sustentar, o negócio tem duas saídas: se especializar ou crescer em escala. “Para você atingir um desses objetivos, as parcerias fazem muito sentido”, declara.


Uma alternativa, por exemplo, são os fundos de investimento, em que é possível ter acesso a capital para acelerar o crescimento da empresa. “Essa é uma tendência não muito antiga no Brasil, e no interior muito menos. Para os próximos anos, isso deve se intensificar. A gente já tem visto a procura desses fundos de investimentos em nossa região de Londrina, onde há potencial", aponta.


Passo a passo


Após decidir que a aliança é um bom negócio, a empresa precisa se preparar para o parceiro. Como? Sua imagem é fundamental, desde a fundamentação de sua vantagem competitiva aos membros da gestão – com pessoas comprometidas de visão estratégica – e a parte financeira. Até mesmo a preparação cultural é importante, especialmente quando envolve um ator internacional. “Dependendo da procedência do país, os executivos são muito fixados em datas, processos, o que foi dito é aquilo e acabou. Nós da cultura latino-americana somos mais do relacionamento com pessoas”, comenta o diretor da KPMG Brazil em Curitiba, Eduardo Navarro.


Com a “casa em ordem” é o momento de avaliar o perfil do parceiro. O consultor da Caput, Wellington Moreira, destaca a importância dos valores das empresas serem semelhantes e de uma empatia entre os envolvidos, principalmente quando as parcerias serão longas, como de empresas de software, que podem durar de três a quatro anos para o desenvolvimento de uma tecnologia. “É importante também que as competências sejam complementares para não gerar concorrência”, lembra.


Riscos devem ser mensurados


Em uma parceria, há riscos para todos os envolvidos e eles precisam ser colocados no papel, como a atração de um parceiro que não vai gerar os benefícios esperados. Sem planejamento, a aliança pode desviar o foco dos gestores das operações. Há ainda a necessidade de saber mensurar exatamente quais informações devem ser repassadas aos parceiros. Em alguns casos, por inabilidade dos gestores, detalhes confidenciais acabam sendo entregues. Na contramão, o gestor pode ser tão centralizador que não permite a sinergia natural, em que é preciso ceder detalhes estratégicos que vão beneficiar o negócio.


Empresas familiares, por exemplo, podem ficar temerosas com a possibilidade de uma parceria, justamente porque novas pessoas são adicionadas, com um impacto na cultura da empresa. Porém, hoje, várias delas estão se profissionalizando para fugir do amadorismo e buscar uma cultura executiva de maior impacto.


“Elas estão procurando se profissionalizar, estão em linha com o fisco, com controles internos mais robustos. Muitas delas já estão caminhando para a auditoria de empresa internacional porque isso ficou muito mais acessível e dá credencial para falar com investidores internacionais”, observa Eduardo Navarro, da KPMG.


Há certo temor em buscar investidores internacionais diante da possibilidade de falhar. Porém, essas alianças são possíveis – não apenas para atores estrangeiros que vêm ao Brasil em busca de novos mercados, mas da parte dos brasileiros que internacionalizam suas operações. Uma das coisas que chamam a atenção nas empresas locais é o fato de que conhecem bem o mercado e têm tradição diante dos consumidores e fornecedores, o que é um diferencial na busca de um parceiro internacional.


Possibilidades


A oportunidade de parcerias se estende por toda a cadeia produtiva e vai desde acordos estratégicos à criação de uma
joint venture. Elas podem surgir horizontalmente, envolvendo competidores em busca de um mesmo objetivo, quanto verticalmente com clientes e fornecedores.


No caso de parcerias horizontais, um exemplo recorrente é de empresas de Tecnologia da Informação (TI) que se unem. Luís Carlos Albuquerque Silva e seu sócio Leandro Martini se conheceram justamente no Arranjo Produtivo Local (APL) de TI de Londrina e se uniram para o lançamento de um novo negócio.


Silva é proprietário da Level de Rolândia, que produz softwares para gestão pública, e Martini é dono da DroidTech de Cambé, do setor de automação. Através de um edital do Senai, eles reuniram cerca de R$ 800 mil para abrir a Digiglass em Londrina, com a criação e um equipamento – uma espécie de celular gigante – que pode ser usado para fotos em tempo real em eventos ou provadores em 3D de marcas.


“Eu não tinha um sócio há quatro anos e você muda para abrir um negócio em conjunto, passa a compartilhar. Nós tivemos um trabalho bem interessante de gestão com o Sebrae e conseguimos definir bem os papéis de cada um”, diz o empresário.


ESPAÇOS COLABORATIVOS FAVORECEM PARCERIAS


As parcerias não servem apenas para grandes empresas, mas também para as pequenas que estão começando. Espaços colaborativos, como o Arranjo Produtivo Local da Tecnologia da Informação, onde surgiu a DigiGlass, favorecem a união. Em Londrina, o Café Gardênia, inaugurado em novembro de 2014, encontrou uma chance de se desenvolver através do espaço colaborativo Junt.Us.


A empresária Tatiana Bittencourt conheceu o parceiro Empório Anastácio no Movimento de Empreendedoras Londrinenses em Ação. A princípio, ele se tornou seu fornecedor, e a convivência gerou a parceria estratégia de um jantar temático sobre o filme “Comer, rezar e amar”. Empório Anastácio entrou com a chefia da cozinha e Café Gardência com o local e organização do evento. “Foi um aprendizado, deu muita gente, aumentou nossa divulgação. Já estamos preparando o próximo”, avalia Tatiana.



Setores que devem gerar parcerias em 2015

  • Agronegócio (tanto para fusões e aquisições quanto para cooperação de tecnologia, no caso de pequenas e médias empresas);

    Construção civil;

  • Logística;

  • Tecnologia da Informação;

  • Educação;

  • Alimentos.