05/03/2015 00:00:00 Poupança: um mau negócio em tempos de inflação

Fonte: Loriane Comeli - Revista Mercado em Foco

A boa e velha caderneta de poupança, sinônimo de segurança e rentabilidade, continua segura, mas já não goza mais do status de rentável, especialmente entre empresários e investidores com maiores volumes de recursos. Em 2014, o Brasil registrou um dos mais baixos volumes de aplicações na caderneta de poupança, instituto criado há 154 anos, no reinado de Dom Pedro II.


"Com a inflação de 7%, em termos de rentabilidade, a poupança não é interessante", afirma o professor de Economia e Finanças da Universidade Estadual de Londrina (UEL), Azenil Staviski. Os investimentos na caderneta de poupança são remunerados a taxa de 0,5% ao mês, mais a TR (taxa referencial) que gira em torno de 0,1%.


"No cenário atual, a poupança basicamente está repondo o poder de compra da moeda", completa o professor, acrescentando que médias e grandes empresas não mais depositam suas economias em poupança. "Os grandes empresários, que fazem uma gestão eficiente de caixa, normalmente preferem outras aplicações de curto prazo que tenham taxas mais atrativas".


Por ser completamente livre de tributos e não ter valor mínimo a ser depositado, a poupança ainda é largamente utilizada por pessoas físicas, com baixo volume de recursos – os pequenos poupadores. "Neste caso, continua sendo o investimento adequado", aconselha Staviski. "O cidadão tem que pensar o seguinte: não é quanto eu ganho aplicando, mas quanto deixo de pagar juros quando eu consigo poupar para utilizar este recurso lá na frente".


Criada pelo decreto 2.723, de 12 de janeiro de 1861, a caderneta de poupança tinha como função original "receber, a juro de 6%, as pequenas economias das classes menos abastadas, e de assegurar, sob garantia do Governo Imperial, a fiel restituição do que pertencer a cada contribuinte". As retiradas poderiam ser feitas a cada oito dias. Ao longo dos anos sofreu modificações, mas, a essência é a mesma. "É um patrimônio social brasileiro. Um presente para o pequeno poupador. Incentiva os cidadãos a poupar e é a principal fonte de financiamento para habitação, saneamento etc", afirma o economista.


O sócio-administrador da Horus Investimentos, Otávio Monteiro, tem um conselho afiado para quem quer ganhar dinheiro com aplicações financeiras, especialmente no meio empresarial. "Risque a poupança da lista de possibilidades". Para Monteiro, existe vasto preconceito quanto a outras aplicações, especialmente, quanto ao risco, e um desconhecimento generalizado acerca de investimentos mais rentáveis.


"Eu atribuo esse preconceito ao público mais velho, que é muito ressabiado com relação aos investimentos, principalmente em razão do histórico econômico brasileiro: bancos quebrando, troca de moedas e o evento do confisco (no governo de Fernando Collor de Mello). Aquilo deixou muita gente desconfiada. Mais isso já faz 25 anos. As pessoas deixam de ganhar dinheiro por preconceito", enfatiza.


O consultor, que atua no setor há 21 anos, também cita a falta de profissionalismo dos empresários para fazer o dinheiro render. "Há casos de empresários cuja empresa vale R$ 50 milhões, com aplicações financeiras de R$ 30 milhões. A aplicação vale quase tanto quanto a empresa e ele não tem profissionalismo nenhum para gerir isso", comenta. "O dinheiro fica nas mãos do gerente do banco, que tem interesse divergente do empresário".