21/05/2015 00:00:00 Zona Leste: a cidade cresce para lá

Fonte: Loriane Comeli - Revista Mercado em Foco

Terrenos planos, baixa concentração de empreendimentos comerciais, ausência de construções verticais, localização privilegiada e um complexo comercial, que começou a funcionar a partir de 2012, são os principais ingredientes da receita de crescimento e desenvolvimento nos últimos anos da zona leste de Londrina, região que até o final da década passada ainda era alvo de muito preconceito em razão de habitações irregulares, favelas e criminalidade.

Hoje, o cenário mudou bastante. Ainda há problemas, mas imobiliaristas, construtoras e empreendedores avançam para a região, que já tem um grande complexo comercial, com um shopping, três universidades, dezenas de novos prédios e condomínios residenciais e espaço para o futuro teatro municipal. “Até os próprios moradores que já estavam lá antes deste boom investem em melhorias nas suas casas e os comerciantes ampliam e melhoram suas lojas”, diz o presidente do Sindicato dos Corretores de Imóveis de Londrina e Região (Sincil), Marco Antônio Bacarin.


Paulo Costa da Silva é um exemplo de comerciante que montou seu próprio negócio, um petshop na Avenida São João, estimulado pelo progresso da região. Formado em Química, Silva quase se tornou piloto de avião, mas, ao final do curso, na primeira aula prática, pensou: “Aqui em cima não é o meu lugar”, lembra. Ele chegou a cogitar abrir uma loja de produtos de limpeza, mas, diante da concorrência e dos altos investimentos em estoques, preferiu cuidar dos animais.


Há cerca de 10 meses, resolveu usar a garagem de sua residência para oferecer serviços de banho e tosa para cães e gatos. Com diferenciais, como ambiente climatizado e possibilidade de o dono assistir aos procedimentos, o negócio vai bem. “Estou muito satisfeito. Desde que abri, não houve um mês que tenha faturado menos que no mês anterior”, relata, afirmando que sempre morou na zona leste. “Aqui tem tudo. Só faltam mesmo mais algumas agências bancárias.” Na São João, foi instalada recentemente uma agência do Bradesco.


Outro morador da região que se entusiasmou com o crescimento do comércio local e viu no grande número de novos moradores dos condomínios e prédios uma oportunidade de negócios foi o advogado André Feijó, 41 anos. Ele não hesitou em deixar a estressante rotina nos fóruns para dedicar-se a um sonho antigo: a culinária. Abriu, há dois meses, uma hamburgueria na Avenida São João.


"Aqui é perto da minha casa, e percebi que esta região está numa crescente. A cada dia há mais lojas e áreas residenciais. É um dos últimos lugares para Londrina crescer”, diz Feijó, justificando a escolha do ponto. “Há muito para crescer. Acho que as pessoas ainda não perceberam o potencial da região.”


Entre a clientela, que a cada dia se avoluma para experimentar hambúrgueres de carne bovina, suína e de frango recheados com calabresa, queijo ou bacon, além de petiscos variados e chope, Feijó vê principalmente moradores da zona leste. “Cerca de 70% moram aqui”, estima. São moradores dos condomínios próximos, funcionários do comércio e universitários. “Vem muita gente com a família.”


Localização privilegiada

O presidente do Sincil, Marco Antonio Bacarin, diz que a instalação do Complexo Marco Zero foi fundamental para garantir o desenvolvimento da zona leste, mas a infraestrutura prévia ajudou muito. “Não foi preciso levar toda a infraestrutura. Já havia instalação de água, saneamento, energia, asfalto.”


Também se trata de uma região cercada por vias de acesso rápido, como as avenidas Dez de Dezembro, Arcebispo Dom Geraldo Fernandes (Leste-Oeste) e Brasília (BR-369). Há projetos para ligar a zona leste até Ibiporã pela Estrada dos Pioneiros. “Outro fator, é que a região está muito próxima do centro de Londrina”, acrescenta. E também perto da rodoviária e do aeroporto.


Bacarin cita ainda um importante atrativo natural: a topografia. “Além dos terrenos planos, o solo é propício a escavações e construções". O corretor lembra que a região ainda continua crescendo. "Ainda tem muitos terrenos grandes vazios. O potencial é muito bom.”


Visualmente melhor

Para o gerente do Boulevard Londrina Shopping, Fábio Segura, o desenvolvimento percebido até agora “é apenas o começo”. “Ainda tem o teatro para ser concluído, as torres comerciais e residenciais e muitos terrenos na região para serem usados”, comenta. “Há também a informação de que o centro de eventos seria construído na zona leste. Isso é só começo.”


Segura também comenta sobre os benefícios do complexo Marco Zero. Inaugurado há menos de dois anos, o shopping fechou 2014 com mais de 92% dos espaços alugados, aumento das vendas em relação ao ano anterior e com mais de 2,3 mil empregos diretos. “Visualmente, a gente percebe que tudo mudou. O entorno foi valorizado. A região está crescendo. O desenvolvimento é acelerado. A violência diminuiu”, avalia.


Ele destaca que paradoxalmente ao que se possa imaginar, aumentou o número de lojas de rua. “Um estudo da Abrasce demonstra que o comércio de rua cresce quando se instala um shopping. O comércio tradicional se fortalece”, afirma, referindo-se à Associação Brasileira de Shoppings Centers.


A origem de tudo

O Marco Zero – ponto que daria início, em 1929, à futura cidade de Londrina – também pode ser considerado o começo da nova onda de desenvolvimento da zona leste. Pelo menos assim considera o imobiliarista Raul Fulgêncio, idealizador do complexo que reúne o Boulevard Shopping, a Leroy Merlin e o Ibis Hotel, além das 16 torres residenciais e comerciais que serão erguidas no mesmo terreno de 236 mil metros quadrados, dos quais 20 mil m² são para o Teatro Municipal, que está na primeira fase das obras.


Fulgêncio, sócio do shopping, lembra que tudo começou com um telefonema de um amigo de Porto Alegre, que queria um terreno para um supermercado. Sua equipe encontrou a antiga área da Anderson Clayton, que já pertencia à Coimbra, e estava à venda. Era uma área com um “potencial fantástico”: “Estava a 800 metros do calçadão (da Avenida Paraná), uma área plana, virgem, sem empreendimentos”, descreve o imobiliarista, lembrando, porém, que nem todos pensavam assim. “Aliás, quase ninguém pensava assim.”


Ele não conseguiu encontrar investidores no mercado imobiliário para comprar a área. Foi um grupo de dez amigos, que não eram do ramo, como médico, fazendeiro e comerciante, que se arriscaram. “O próximo passo era convencer algum shopping a vir para cá, para aquela área”, conta.


Os empresários gostavam da ideia, aprovavam o plano de negócios, mas “quando viam o terreno, desanimavam”. “Era muito feio: tinha aquele pó de soja, a linha férrea, tudo era abandonado. E havia muita criminalidade, drogas, prostituição”, relata o imobiliarista.


Experiente negociante e com visão no mercado imobiliário, Fulgêncio conseguiu “vender o que a área ia ser e não o que era”. “Pasme: quatro shoppings se interessaram e acabei podendo desenvolver o projeto do jeito que planejava.”


Ao ser perguntado sobre o adensamento da região, o empresário não titubeia, dizendo que muitos deixaram de ir ao shopping da região sul e vão a pé para o Boulevard. "Isso equilibra a cidade como um todo. Alivia o tráfego para a região sul. Não se pode ter uma visão míope".


Quarta universidade começa a funcionar em 2016

Ao lado do desenvolvimento comercial e o avanço das áreas residenciais, a zona leste de Londrina também começa a se destacar pela presença de instituições de ensino superior. A região terá, em 2016, sua quarta universidade: um campus do Centro Universitário Cesumar (Unicesumar), de Maringá, será instalado na Vila Santa Terezinha.


A Unicesumar comprou, em 2013, área de 33 mil metros quadrados na Avenida Santa Mônica, onde pretende construir, inicialmente, um prédio de 11 mil metros quadrados para oferecer 15 cursos e atender até 4,5 mil alunos. Segundo o vice-reitor, Wilson de Matos Filho, os investimentos chegam a R$ 40 milhões, incluindo construção e terreno (R$ 9 milhões).


Optamos pela zona leste, que possui grande potencial de crescimento, principalmente com as políticas públicas de financiamento que têm proporcionado o acesso ao ensino superior das classes econômicas C e D”, diz Matos Filho, consciente dos problemas sociais de que ainda padece a região.


Entre os impactos positivos esperados, o vice-reitor citou a criação de empregos – mais de 400, sendo a maior parte das áreas administrativa e operacional, o que permitiria que os próprios moradores da região se candidatassem – e serviços que a universidade poderá prestar, “em especial, para as pessoas carentes do entorno da instituição”, como assistência jurídica e atendimento à saúde nas áreas de fisioterapia, nutrição e psicologia.


Além disso, ele citou a vinda de estudantes de outras cidades e estados, que devem optar por morar na zona leste. “Pelos estudos que temos, prevemos que, em média, um terço desses alunos virá de outras cidades e estados. Certamente procurarão residir nas imediações da instituição, para facilitar a sua mobilidade.”