09/06/2016 00:00:00 Na Mercado em Foco: Know-how compartilhado

Fonte: Revista Mercado em Foco - Por Renato Oliveira

A globalização trouxe novos ares para o mundo dos negócios. O modelo tradicional, a cada dia, dá lugar a novos formatos de ambientes estratégicos. E montar uma empresa da estaca zero começa a ceder espaço para as cada vez mais conhecidas incorporações, fusões, aquisições e as parcerias estratégicas - as chamadas joint ventures. O “compartilhamento de know-how”, como pregam consultores experts no assunto, é um conceito que saiu da academia e está cada vez mais em evidência, ganhando espaço em nichos tradicionalistas. 

Em âmbito local, o cenário é aquecido no setor de consultorias especializadas em mediar negócios e prospectar mercado para empresas de capital nacional e estrangeiro. Existem projetos de joint ventures em andamento e alguns negócios fechados, mas falar em um setor fortalecido ainda é prematuro. 

O presidente do Grupo Value, Moacir Vieira dos Santos, comanda uma empresa especializada na área de consultoria empresarial que atua como mediadora de negócios como fusões e aquisições, joint ventures, serviços financeiros como factoring e fomento mercantil. Por razões contratuais, negócios desta natureza costumam ficar a sete chaves mediante cláusulas e acordos formais. No entanto, ele conta que Londrina é constantemente sondada por grupos estrangeiros para negócios envolvendo parcerias estratégicas. 

Com a perspectiva de crescer 30% ao ano mesmo em um cenário de crise, a Value está terminando de costurar um acordo entre uma empresa da região, especializada no comércio de carne suína in natura e processada, com um grupo do Uruguai que vai entrar com sua força de vendas internacional como a parceria comercial no negócio. “Até o próximo semestre vamos ter uma empresa de importação de suínos começando a atuar no Mercosul e depois na Europa”, aponta Santos.

O presidente da Value conta que a mesma empresa recebeu recentemente uma visita de um importador da ilha de Malta, que tem forte penetração no continente europeu. “Falta apenas obter a certificação de um selo da Europa para avançar nas negociações”, completa. 

Com sede em Curitiba e atuação em 22 Estados do Brasil, a KPMG é uma rede global de consultores independentes com 4 mil nomes conectados que trabalha no mercado de incorporações, aquisições, fusões e joint ventures. O diretor Eduardo Navarro protege todos os negócios nos quais a empresa faz a intermediação. No entanto, ele cita a Angelus Produtos Odontológicos, do empresário Roberto Queiroz Martins Alcântara, que recentemente associou-se à inglesa Prima Dental, como uma joint venture que repercutiu no mercado local. 

Segundo Navarro, esse tipo de negócio foi falado de forma ampla no meio empresarial e promete aquecer o segmento, principalmente pela atuação de Alcântara na presidência da Associação de Desenvolvimento Tecnológico de Londrina (Adetec). Navarro conta que a parceria visa ampliar os canais de distribuição para mercados internacionais como o japonês e o norte-americano. A meta é uma receita de R$ 30 milhões, em 2016, com a Angelus Prima Dental, sendo 50% do montante no mercado exterior. 

Sercomtel

Outra movimentação envolvendo as joint ventures está sendo protagonizada pela Sercomtel. Com a necessidade de gerar oportunidades de negócios, o ex-presidente da companhia, Christian Schneider, criou a Sercomtel Participações, que funciona como uma unidade de negócios. Em dezembro do ano passado, a parceria estratégica foi assinada com a empresa alemã Rohde and Schwarz. O negócio é uma joint venture para o desenvolvimento de softwares de segurança e criptografia.

Schneider explica que a multinacional alemã detém o know-how da maior empresa do mundo em criptografia, que elaborou um sistema utilizado na Segunda Guerra Mundial. “Com esse conhecimento deles, entro na área de segurança em comunicações e a empresa tem uma porta para entrar no Brasil. Assim se vislumbrou essa possibilidade de parceria”, diz. 

O ex-presidente da Sercomtel afirma que o segundo passo é exatamente a formatação de um estudo de confidencialidade para ter acesso aos produtos do portfólio da Rohde and Schwarz que poderiam ser comercializados junto ao mercado brasileiro, e, então, elaborar um plano de negócios que seria, a princípio, uma empresa com “modelo de agregação joint venture”. “Buscamos parcerias para monetizar com capacidade instalada comercial ou técnica dos produtos a serem vendidos no Brasil”, explica.

Natureza jurídica 

O consultor Moacir Santos explica que a joint venture é uma união de forças no mundo dos negócios que pode ter dois formatos: um com personalidade jurídica e outro sem esta personalidade. No primeiro caso, diz ele, são empresas que se unem e formam um negócio no qual ambas têm participação. Santos explica que uma empresa possui a tecnologia A e outra a B e, quando se juntam, sai um produto C que não poderia ser feito por apenas uma das empresas. 

Eduardo Navarro ressalta que a prática de joint venture é comum no setor de tecnologia da informação, quando uma empresa possui  o hardware e outra o software. O outro caso - das empresas formais - é quando empresas se juntam para constituir uma terceira, esta com personalidade jurídica. “Isso é muito comum em consórcios, que é um modelo de negócios já existente e mais antigo”, conta.

Navarro explica que o compartilhamento de know-how significa o mesmo que unir competências e experiências em torno de um objetivo comum: uma empresa. Ele cita como exemplo o caso de uma companhia brasileira que detém conhecimento de mercado e força de vendas, enquanto outra da Itália possui a tecnologia e tem o produto. “Nada mais inteligente do que unir das duas empresas e criar uma terceira onde uma entra com um capital de negócios e outra com o produto em si”, completa.

Riscos e entraves

O diretor da KPMG Consultoria explica que dois estágios dividem a montagem de uma joint venture: fase de negociação e estágio operacional. No primeiro estágio se dá a montagem da parceria que, segundo ele, é o estágio mais desafiador. “Os problemas nesta área estão relacionados à troca de informações, pois os parceiros em certos casos têm receio, não fornecem informações suficientes sobre aspectos financeiros, custos e projeções para avaliar a joint venture”, diz.

No entanto, não basta um bom projeto se não houver alinhamento claro e objetivo entre as partes envolvidas na hora da execução. Navarro explica que a avaliação dos reais benefícios de realizar a joint venture com determinados parceiros, processos internos frágeis durante a execução e a diligência financeira e comercial são tão importantes quanto o contrato legal.

Mas como em todo projeto que possui algum conceito por trás, a execução daquilo que se considera o mote da joint venture, que é compartilhar o know-how e informações estratégicas, acaba sendo o motivo do fim de muitos projetos. Navarro afirma que se os empresários não pretendem compartilhar informações comerciais ou estratégicas, o projeto pode ficar pelo caminho. Como alternativa, ele recomenda contratar um assessor financeiro, principalmente quando há barreiras legais.