04/12/2014 00:00:00 Sem surpresas, BC eleva Selic em 0,50%


O Comitê de Política Monetária (Copom) do Banco Central (BC) decidiu ontem, por unanimidade, elevar a taxa básica de juros, a Selic, em 0,50 ponto percentual (p.p.), para 11,75% ao ano. O índice é o maior desde os 12,00% de outubro de 2011 e mostra que a prioridade passou a ser o combate à inflação, segundo opinião de economistas ouvidos pela FOLHA. 

O aumento era esperado por agentes do mercado diante da alta do dólar e do endurecimento do discurso em relação a gastos públicos e à inflação da nova equipe econômica, anunciada na semana passada pela presidente Dilma Rousseff. Ainda, a medida dá sinais de que o governo federal quer recuperar a credibilidade frente a investidores e deve servir para atrair aportes da moeda norte-americana no País, para reverter o processo de desvalorização do real. 

Em outubro, a inflação oficial medida pelo Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) fechou em 6,59% para 12 meses, resultado abaixo dos 6,75% de setembro, mas acima dos 6,50% do teto da meta estabelecido pelo BC para o ano. Ao mesmo tempo, a valorização do dólar ajudou a elevar os preços, porque boa parte dos insumos consumidos no País são importados e há uma crescente demanda nacional por produtos com origem no exterior. 

Para o presidente do Sindicato dos Economistas de Londrina, Ronaldo Antunes, a alta de 0,50 p.p. era esperada. "É uma forma de reforçar o combate à inflação com o uso da política monetária, para que no ano que vem comece a usar a política fiscal, de corte de gastos", diz. Ele acredita que, diferentemente do que ocorreu nos últimos anos, as ações do BC e do Ministério da Fazenda tendem a ser sincronizadas em 2015, em busca do objetivo comum de recuperação das contas públicas. 

Antunes explica que o País deve receber mais investimentos estrangeiros em dólares para títulos de dívida pública, porque passa a oferecer uma rentabilidade até quatro vezes maior do que outras nações. O professor de economia Azenil Staviski, da Universidade Estadual de Londrina (UEL), completa que o aumento da Selic mostra que o governo busca retomar a confiança dos empresários, mas que é preciso dar mais sinais. "Será insuficiente se eles (do governo) não tomarem outras medidas de política fiscal em médio e longo prazo, com redução do gasto público." 

Há preocupação, entretanto, sobre os efeitos no consumo das famílias, que tem sido o motor da economia e que desacelerou neste ano. "A Selic mais alta ataca a inflação, mas vem em um momento ruim, de fim de ano, que pode desaquecer as vendas a prazo e diminuir o consumo", diz Staviski. Porém, ele lembra que o reflexo da Selic deve ser sentido aos poucos e chegar, principalmente, no primeiro trimestre de 2015. 

Outro temor é que a alta da Selic ampliará as dificuldades de empresas, segundo nota emitida ontem pela Confederação Nacional da Indústria (CNI). Apesar da consideração de que a preocupação do Copom é necessária porque a inflação continua próxima do limite máximo da meta e há pressões por novos aumentos de preços, a tendência é que a queda no consumo prejudique a receita e os investimentos de empresários no curto prazo. "O desafio da política econômica é promover outras ações para conter as pressões sobre os preços e conduzir a inflação para a meta com menor impacto sobre a atividade produtiva e emprego", destaca na nota. 

Crítica

Antunes afirma que os governos f ederal, estadual e municipal têm sinalizado com a alta de impostos para melhorar a arrecadação, antes de falar em corte de gastos. "Isso vai custar dinheiro para o contribuinte, mas o pior é que em algum momento se pagará com empregos", cita. (Com Agências)