17/07/2017 08:09:28 Todos os cromossomos do mundo

Fonte: Revista Mercado em Foco - ACIL - Por Luciano Pascoal

A história de uma cidade, de um povo, de um país, é um conjunto de histórias de muitas culturas. Jovens ou antigas, as cidades nascem graças à coragem, à determinação de homens e mulheres que se deslocaram de suas origens para iniciar uma nova vida. Trazem na bagagem seus costumes, suas religiões, suas comidas, seus olhares estrangeiros.

Em Londrina não foi diferente. A primeira caravana de 12 homens que chegou por estas terras em agosto de 1929 era composta por descendentes de outras nacionalidades. O chefe da expedição, George Craig Smith, era um paulista filho de ingleses. Sua comitiva contava com um engenheiro russo, Alexandre Razgulaeff, o empreiteiro português Alberto Loureiro, o agrimensor filho de italianos Spartaco Bambi e o cozinheiro filho de alemães Erwin Fröelich. Essa diversidade étnica se faz presente em todos os migrantes que aqui chegaram para desbravar e habitar o norte do Paraná e está na gênese da nossa cidade.

Nem bem demarcaram os primeiros lotes e construíram as primeiras casas de madeira, os britânicos da Paraná Plantation, empresa responsável pela colonização da região, já organizaram uma grande campanha publicitária em vários países europeus, vendendo um novo Eldorado e prometendo "as terras mais férteis do mundo e um clima adequado à todas as raças". A resposta foi rápida.

Quando se tornou município em 1934, Londrina já contava, de acordo com registros da Companhia de Terras, com 1.346 habitantes de 33 etnias de todos os continentes. A cidade era pequena, mas já estava estruturada, com rua principal e comércio funcionando. Três anos depois surgia uma entidade para organizar a rápida expansão econômica do lugar, a Associação Comercial de Londrina. Todos os diferentes grupos étnicos se espalharam por todos os seguimentos socioeconômicos da cidade e foram representados nas lideranças da ACL (hoje ACIL) desde o seu nascimento.

Líbano

Um de seus fundadores e primeiro presidente nasceu em Biblos, no Líbano, e desembarcou no Brasil em 1912 antes de completar 18 anos. Na bagagem trazia a formação de História e Contabilidade na cidade de Nazaré, antiga Palestina, e muitos sonhos. Com faro apurado para os negócios, David Dequêch chegou em Londrina em 1931 e construiu uma das primeiras casas de madeira do lugar e a primeira missa foi celebrada em 1933 no armazém da família.

David era um desbravador, falava seis idiomas e em pouco tempo se tornou uma referência na cidade. A ancestral origem comerciante da família foi fundamental para que liderasse a fundação da então ACL, onde foi presidente por dois mandatos (1937 -1944 e 1949 – 1959). A criação de uma entidade que pensasse o futuro da cidade era urgente. Ao contrário dos planos de colonização ingleses que previam cidades com no máximo 20 mil habitantes, os jovens empreendedores já enxergaram um horizonte próspero e florescente.

Em 1937, Londrina já contava com as Casas Pernambucanas, o Banco do Noroeste e a Caixa Econômica, além de cinco escolas primárias. Em 1939, a cidade já atinge 70 mil habitantes, mais de 11 mil casas e 120 automóveis. “Eu não vim para Londrina. Londrina é que veio depois que eu estava aqui”, relembrou David no livro “Poder Emergente do Sertão”, do jornalista Widson Schwartz. A verve foi repassada para os descendentes. Seu filho Nilo Dequêch e seu neto David Dequêch também estiveram à frente da associação.

Checoslováquia

Trajetória similar fizeram os irmãos Rapcham quando deixaram a então Checoslováquia na década de 1930. A família passou dois anos trabalhando na lavoura de café no interior de São Paulo antes de comprar um lote de terra por aqui em 1937. Neste mesmo ano nasce Alberto Rapcham. A família se instala no Distrito da Bratislava, em Cambé, que leva o nome da região de origem no antigo país comunista. Alberto se formou em Matemática e Administração para dar continuidade à estirpe comerciante. Mas a Engenharia é sua grande paixão. Há 50 anos fundou a Indrel, empresa especializada no desenvolvimento e fabricação de produtos para as áreas médico-hospitalar e de pesquisas científicas. Os frutos da família que buscou no norte do Paraná seu lar hoje são exportados para mais de 30 países. Alberto Rapcham foi presidente da ACIL entre os anos de 1988 e 1990.

Itália

Os italianos e seus descendentes que se embrenharam nas selvas paranaenses também estiveram no comando da Associação. Igarassu Landucci Louzada chegou em 1951, aos 27 anos, vindo do interior de São Paulo, com a mulher e três filhos. Não demorou muito para sentir as grandes oportunidades que a jovem cidade oferecia. “Eu e o Lizandro (de Almeida Araújo, presidente da então ACL em três oportunidades) percebemos que havia uma grande dificuldade das lojas daqui em repor os estoques, já que toda a produção vinha de São Paulo. Decidimos então nós mesmos fazermos esse trabalho e atender a essa demanda”. Foi fundador de uma das mais tradicionais confecções da cidade, a Loja Cartola. Durante sua presença à frente da ACIL (1986/88) promoveu mudanças importantes no estatuto, proibindo a reeleição de presidentes e sua gestão também foi pioneira na inclusão de mulheres na diretoria.

Japão

Já a segunda maior colônia japonesa do mundo também esteve bem representada. Jorge Kayamori, às vésperas de completar 90 anos, guarda uma memória intacta de sua trajetória pioneira. “Morávamos em Echaporã e a vida era muito dura. E aqui nós encontramos um caminho bastante promissor”. Chegou aos 20 anos e começou vendendo tecidos. Passou pelas Casas Pernambucanas e Fuganti. Mas se destacou à frente da loja de produtos automotivos Motosima, onde ficou 25 anos.

Graças a este trabalho foi eleito presidente da ACIL por duas gestões, de 1968 a 1971. “Tivemos muitos relacionamentos com o comércio, com políticos, com órgãos públicos. O diálogo sempre foi minha principal característica”. Um dos destaques da sua gestão foi a aprovação do projeto de construção do prédio de 18 andares onde fica a sede da associação, o Edifício Palácio do Comércio. Seu pai, Kiuji Kayamori, chegou no Brasil em 1914 na segunda grande leva de migrantes japoneses. “Eles sofreram muito para se adaptar e pode criar os filhos. Por ser descendente de orientais, nós acreditamos que, tendo capacidade, terá sucesso. Na minha vida tudo o que eu fiz, consegui atingir o topo. É preciso fazer bem feito e ter muita perseverança”.

Para estar no comando de uma entidade tão importante para os rumos econômicos de uma cidade como Londrina, é preciso dedicação, coragem, persistência, liderança. Estas e outras características também estão na índole dos todos os que ajudaram a construir nossa história, independente de suas origens. Os desafios são diários. As batalhas, constantes. Para superar os obstáculos e abrir novos horizontes na nossa rica trajetória é preciso carregar na alma o sonho de todo imigrante: construir uma vida nova.