08/07/2019 09:38:02 A Terra Vermelha quer renovar seu 'coração'

Por Ranulfo Pedreiro - Revista Mercado em Foco - ACIL

O lixo se acumula nas ruas do centro histórico, onde as calçadas semidestruídas são ocupadas por ambulantes e a insegurança persegue os transeuntes. O trânsito sofre com a falta de estacionamentos, enquanto o espaço público apresenta bancos quebrados, pouca iluminação, abandono e mau cheiro. Pelos cantos escuros, a prostituição e o consumo de drogas convivem ao lado de moradores de rua. A sujeira impera mesmo nas áreas mais arborizadas.

Não, não estamos falando do Centro de Londrina. Essa era a realidade de Bogotá no início dos anos 1990, quando a capital da Colômbia recebeu o título de cidade mais violenta da América Latina. Com a ação de dois prefeitos, Antanas Mockus e Enrique Peñalosa, Bogotá passou por uma profunda transformação. Em dez anos, o índice de violência caiu 70%, graças ao despertar da cidadania, do gosto pela cidade, do prazer de se andar em um espaço público onde as pessoas se respeitam - e exigem respeito.

“Vou falar de Bogotá, minha cidade, que tinha um centro desastroso, abandonado, perigoso, sujo. Chegou um prefeito, o Enrique Peñalosa, e hoje o centro é uma beleza. Todo o quadrilátero é um lugar de pedestres, de turismo, encontro. As pessoas de rua foram encaminhadas para lares, o consumo de drogas e os desmandos dispersaram com a prostituição. Essa prefeitura fez uma situação que revitaliza qualquer cidade”, comenta o padre Rafael Solano.

Sacerdote da Catedral Metropolitana de Londrina, Rafael Solano relembra o passado de Bogotá. Ao lado da principal igreja da cidade, o bosque permanece abandonado, sujo e inseguro. Como, de resto, boa parte do Centro - o coração da Terra Vermelha.

“Ande pelo Bosque, e você vai se conscientizar sobre o que é o Bosque. Venha dar uma olhada, você não imagina a depredação. Tenho plena certeza de que, sem conscientização, o Bosque e o Centro estão definitivamente comprometidos. Nós, como Catedral, estamos fazendo tudo o que está ao nosso alcance. Que Londrina possa brilhar pela grandeza que é”, alerta.

A situação do Centro chegou a um nível capaz de alarmar as autoridades. Assim como a Catedral vem realizando ações de melhoria, várias entidades estão unindo forças para que o Centro reconquiste a devida importância. Em Bogotá, a conscientização foi fundamental para o fortalecimento da cidadania. E é também a principal solução apontada para a revitalização do Centro de Londrina.

“A população precisa aprender a ajudar, a colaborar. Em vários lugares, a comunidade trabalha, cada um faz um pouquinho. Mas muitos jogam o lixo nas ruas, nos bueiros”, assegura o vereador Gerson Araújo (PSDB), presidente da Comissão de Política Urbana e Meio Ambiente da Câmara de Londrina.

Vontade de se expressar

Ao lado da Associação Concha dos Amigos e Moradores do Centro, a Comissão da Câmara realizou uma audiência pública no dia 6 de maio para discutir problemas e soluções. “Nós tivemos a Câmara praticamente lotada. A reunião começou às 19hs terminou às 22h30, exatamente porque todos quiseram falar e fazer propostas. A maioria das pessoas quer melhorar o centro”, explica Gerson Araújo.

Entre os resultados da audiência pública está a criação de um grupo de trabalho composto por integrantes da Câmara, da Associação e da Prefeitura. “Nós já encaminhamos requerimento tanto para a Associação quanto para a Prefeitura para que eles façam a nomeação. Esse grupo de trabalho deve se reunir e estabelecer as metas para reivindicar o que for necessário para o Centro”, destaca Araújo.

“A partir de agora, não há retrocesso. A Câmara está disposta a fazer isso, a Associação está empenhada e o prefeito assumiu conosco a disposição de dar todo o apoio possível às mudanças que forem necessárias”, completa o vereador. Marcelo Belinati compareceu à audiência e se comprometeu com a revitalização.

Segundo Amanda Salvioni Sisti, gerente de Projetos Urbanísticos e Edificações do Instituto de Pesquisa e Planejamento Urbano de Londrina (IPPUL), as ações da Prefeitura englobam diferentes secretarias na revitalização do Centro. “São ações e projetos que se comunicam entre si, a gente trabalha em parceria”, revela.

Entre os projetos do IPPUL, está a revitalização da Rua Sergipe, no trecho que vai da Avenida Higienópolis até a Rua Jacobe Bartolomeu Minatti, próximo à Leste-Oeste. Dez quadras vão contar com reforma das calçadas, respeitando normas de acessibilidade, iluminação e instalação de bancos e floreiras.

Outra iniciativa envolve o Calçadão, em frente ao Teatro Ouro Verde. O IPPUL elaborou um termo de referência para realizar as obras. Como a área envolve um edifício tombado, há questões legais que exigem um projeto especial de restauro. Por enquanto, o projeto está na fase de orçamento, com valores sendo levantados junto a escritórios de arquitetura, para elaborar a licitação. O restauro precisa manter a ambientação do espaço, preservando o piso em petit-pavê. As melhorias contam com luminárias, bancos e outros móveis urbanos.

Um estudo mais amplo, envolvendo o Bosque, o Centro Histórico, a Praça Marechal Floriano Peixoto e outras praças do Centro, está em fase de coleta de dados e levantamento pelo IPPUL.

Paralelamente, um grande Plano de Mobilidade Urbana Sustentável (PlanMob) está em fase de elaboração, com propostas especiais para o Centro. O PlanMob Londrina é previsto pela Lei Federal 12.587 e precisa ser executado por municípios com população acima dos 20 mil habitantes. A licitação foi vencida pela empresa Logit, com um valor de R$ 3.032.000,00.

Ainda está previsto, junto à Secretaria de Cultura, melhorias da Biblioteca Pública e o restauro do Museu de Arte. Algumas praças do Centro já ganharam pintura de bancos, poda de árvores e grama pela CMTU. “Tudo isso compõe as ações da Prefeitura para o Centro”, resume Amanda Salvione Sisti.

Como a tinta sai, a lâmpada queima, a árvore cresce e o banco quebra, um cuidado permanente de manutenção se faz necessário. Reparos constantes impediriam o avanço da degradação aos níveis excessivos de hoje.

“Tem que ser um trabalho permanente, constante, que não seja eventual. O comércio está aqui todos os dias. O escritório está aqui todos os dias. O cidadão está aqui todos os dias. A conservação permanente, principalmente deste espaço de circuito cultural, econômico, hoteleiro e de comércio, é importante, necessária e útil”, ressalta Solange Gaya, presidente da Associação Concha dos Amigos e Moradores do Centro. “Temos que ter legislação ou efetivar, ser atento e praticar o que está dentro do Código de Posturas do Município. E fazer um grande trabalho de conscientização”, complementa.

Nova concepção para o Bosque

Entre as mudanças, estaria a revogação do Bosque como reserva permanente. A medida surgiu como emenda ao Código Ambiental de Londrina, em 2011. O artigo 130 do Código prevê um “Sistema de Áreas Verdes”, correspondentes a “toda área de interesse ambiental ou paisagístico, de domínio público ou privado”. Segundo o artigo, “qualquer intervenção ou uso especial das Áreas Verdes ou de Lazer do Município de Londrina somente será permitida após autorização expressa da SEMA”.

O artigo é interpretado como um impeditivo para reformas. A intenção é revogá-lo para que o Bosque volte a ter o status de praça e receba melhorias. “O Bosque, anos atrás, era praça, era lazer, era algo que fazia bem. Pode ser feito algo maravilhoso, inovador, para atrair pessoas, trazendo mantenedores, com um belo projeto. Podemos ter até um Museu do Meio Ambiente ali dentro”, assegura Solange Gaya.

Como grande parte da população local está na terceira idade, a segurança e a reforma de calçadas tornam-se primordiais. Gaya também cita a importância de se aumentar as áreas para embarque e desembarque, sem que haja multas por parte da CMTU, e a destinação correta do lixo, que se acumula assustadoramente em determinados locais. “O Centro tem que ser redescoberto, e com muito investimento”, avisa.

Desde que assumiu a presidência da ACIL, em fevereiro, Fernando Moraes vem estudando formas de desenvolver a região central. “A principal bandeira da nossa gestão é o Centro, que está precisando não só de uma revitalização, mas também de uma segurança melhor, de combater com mais eficiência os ambulantes”, explica.

Para isso, a ACIL vem conversando com diferentes interlocutores. “Alguns acham que revitalização é ir lá, dar uma pintadinha e plantar umas florzinhas. O nosso sonho é desenvolver um projeto muito bem feito. Isso foi uma solicitação do governador. Nós tivemos uma reunião e ele falou que conseguiria verba, principalmente do Paraná Urbano, mas precisa de um projeto muito bem elaborado para a gente ter essa revitalização”, acrescenta.

Com tanta gente preocupada, o ambiente estaria favorável às obras. “O prefeito gostou muito e a gente está trabalhando em conjunto para desenvolver esse projeto para o governo e ter uma revitalização de verdade. A população tem que se conscientizar, mas hoje todo mundo vê a necessidade dessa revitalização. O clima está muito bom. Não vamos largar o osso enquanto não tivermos esse projeto para levarmos ao governo e fazer esse novo Centro”, afirma.

Um importante passo já foi dado pela ACIL para voltar a dar vida ao Calçadão de Londrina. “A primeira edição do projeto Feira na Praça, realizada em maio, foi muito bem aceito pelo público. Levamos gastronomia, brincadeiras, música e alegria para a Praça Gabriel Martins. Esse é o objetivo: valorizar o espaço público, movimentar o comércio, dar vida ao nosso Centro”, ressalta Moraes.

Os problemas do Centro são evidentes. Poucas questões costumam ser unânimes em Londrina. A revitalização é uma delas. É o momento, portanto, de arregaçar as mangas. O exemplo de Bogotá nos mostra que é possível.