23/07/2015 00:00:00 Inventores pés vermelhos

Fonte: Lucas Marcondes - Revista Mercado em Foco

Londrina tem em seu DNA o gene da (re)invenção. Antes celeiro mundial do café, a cidade buscou novos caminhos após a fatídica geada negra de 1975. Os campos que outrora abrigaram o “ouro verde” foram substituídos principalmente pela soja. O município que era apenas um ponto cinza em meio ao sertão do norte do Paraná deu um salto para se tornar referência regional e nacional no setor de serviços. Hoje, Londrina mantém a chama inventiva acesa. E as possibilidades são cada vez mais amplas. Um bom exemplo vem da Agência de Inovação Tecnológica da Universidade Estadual de Londrina (Aintec-UEL). Apenas em 2014, a Aintec depositou 23 pedidos de patentes de produtos no Instituto Nacional de Propriedade Industrial (INPI). O número superou todas as marcas de anos anteriores.

Entre os atuais inventores pés-vermelhos está a professora Maria Antonia Celligoi, do Departamento de Bioquímica da UEL. Ela e sua equipe desenvolveram em laboratório dois tipos de açúcar obtidos a partir de microorganismos encontrados no alimento japonês natô, que nada mais é do que uma mistura de grãos fermentados de soja. O produto já foi aplicado em barras de cereal em substituição ao açúcar comum e o público aprovou: 89 de 100 estudantes da própria universidade que consumiram o alimento o classificaram como “muito bom”. Além disso, está em fase de desenvolvimento um achocolatado feito com base no produto. “É fácil de produzir e tem várias aplicações. Existem pesquisas que mostram que o produto reduz o colesterol, a glicemia e diminui a inflamação de células cancerígenas”, detalha a pesquisadora.


Invenções naturais

Ainda na UEL, mas no Departamento de Microbiologia, outros dois grupos de docentes e estudantes compõem o rol das patentes requisitadas via Aintec durante o ano passado. Os professores Gerson Nakazato e Renata Kobayashi desenvolvem produtos antimicrobianos naturais, como óleos essenciais. Apenas em 2014, a equipe da qual eles fazem parte foi responsável por quatro dos 23 pedidos de patentes feitos através da Agência de Inovação Tecnológica. “Parcerias são extremamente importantes no desenvolvimento dessas pesquisas. Um exemplo é o Departamento de Biologia Animal e Vegetal, que tem um professor que trabalha com determinada espécie de abelha cujo mel pode ser usado em nossos produtos porque possui atividade antimicrobiana”, conta Nakazato. O grupo do professor Galdino Andrade Filho, também da Microbiologia, requisitou a patente de um biofertilizante natural. “É um fungo que se associa às raízes do vegetal e transfere fósforo do solo para a planta. Em alguns casos, como o do algodão, o produto pode substituir a adubação a base de fosfato”, explica.


Mas ainda é longo o caminho até que a patente de uma invenção se torne um produto a ser consumido no mercado. “A nossa legislação é bem morosa em relação a outros países. Leva-se, em média, oito anos, para ter toda a proteção em cima da patente. Nesse período, dependendo da tecnologia, ela pode estar ultrapassada”, critica o diretor da Aintec, Edson Miura. O professor Galdino Andrade Filho compartilha da mesma opinião. “Eu depositei uma patente em 2008 e, até hoje, o processo não foi finalizado. Eu conheço pesquisador que espera há 15 anos. Na Coreia do Sul você tem uma patente em dois anos. Na Argentina são três anos.”


Além disso, os pesquisadores entendem que a academia e o mercado ainda possuem diferentes maneiras para estreitar parcerias. Para a professora Maria Antonia Celligoi, trata-se de uma via de mão dupla, em que os empresários também têm de dizer quais são as carências do consumidor de seus produtos. “Não posso só querer que o mercado me acolha. A indústria e o comércio têm de trazer para nós as suas necessidades. Estamos desenvolvendo coisas que as empresas podem vir conhecer”, diz a pesquisadora, comentando também que a universidade se encontra mais aberta a este tipo de iniciativa. “Quando eu entrei na UEL, em 1987, não se falava em patentes. A prestação deste tipo de serviço era proibida. Mas a universidade evoluiu nesse sentido. Falta muito, mas melhorou”.


Os professores Gerson Nakazato e Renata Kobayashi afirmam que o laboratório onde trabalham possui totais condições de atender empreendedores da região. “A universidade e a indústria podem se aproximar mais. Se uma empresa quer pesquisar um novo produto – um cosmético, por exemplo – nós podemos testá-lo aqui e auxiliar no desenvolvimento da ideia. Aqui nós temos toda a infraestrutura”, garante Renata. E, segundo os pesquisadores, apenas o campo onde trabalham pode atender diferentes segmentos da economia. “Precisamos de parceiros para colocar no mercado os produtos que podem ser utilizados em áreas como a farmacêutica, veterinária e de odontologia. O empresário pode comprar minha patente até mesmo antes de ela ser registrada”, explica Nakazato.


Futuro promissor

Fabrício Bianchi, consultor do Sebrae-PR, avalia que Londrina vive uma nova página de sua história quando o assunto é inovação. Contudo, de acordo com ele, a cidade ainda tem de encarar desafios que atingem todo o País. “Um grande gargalo que existe em nível de Brasil é fazer um link nessa tríplice que envolve quem precisa, quem produz e quem pesquisa tecnologia. É preciso criar a cultura da troca para que as pessoas se conheçam”. Ao mesmo tempo, o consultor destaca boas ideias voltadas à inovação. Entre elas, os R$ 10 milhões disponibilizados apenas neste ano pelo programa Sebraetec e a lei de inovação de Londrina, projeto que, por enquanto, se encontra em gestação graças a uma parceria entre entidades públicas e privadas, mas promete um grande avanço para o tema na cidade.


E, no universo acadêmico, apesar dos percalços já listados, há quem acredite que é possível que universidade e mercado caminhem juntos. Caso do Núcleo de Empresas Juniores (NEJ) da UEL, que reúne 14 negócios de ramos como farmácia, psicologia e ciência da computação criados por estudantes. “A inovação é um dos nossos diferenciais. Como ainda não somos profissionais, precisamos dela para sair na frente. Há empresas juniores que estão com lista de espera de clientes desde o ano passado. É muito comum empresas contratarem mais de um de nossos serviços”, relata a presidente do NEJ, Amália Clivati. Seja em iniciativas como a dos universitários empreendedores, ou por meio de invenções que prometem ser revolucionárias, as sementes da inovação já foram lançadas. Dessa vez não são de café, mas têm o mesmo potencial de, mais uma vez, revelar Londrina para o mundo.