04/01/2018 09:56:16 Aprendizado, o lado positivo de toda recessão

Fonte: Revista Mercado em Foco - ACIL - Por Francismar Lemes

A economia brasileira, pós-maior recessão da história, pede novas leituras do mercado. Consumidores escaldados, investidores internacionais com olhar de desconfiança para o País e, o vigente propulsor econômico, a tecnologia, exigem modelos de negócios mais criativos.

Uma inflexão sobre o que virá começa com o que os empresários fizeram para manter as paredes em pé, enquanto o pior do tornado passava. Também por pensar o futuro, um espaço ainda inexplorado, mas que todos esperam ser de menos incertezas.

As novas leituras considerarão, entre outros fatores, que o país já enfrentou nove recessões, desde os anos de 1980, e que chegou até aqui com uma economia predominantemente de prestação de serviços.

O setor, que corresponde a quase 65% do Produto Interno Bruto (PIB), é o último a sentir os efeitos negativos da economia e será o último a experimentar a recuperação.

Dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística(IBGE) apontam que o volume de serviços prestados em setembro passado caiu 0,3%, na comparação com agosto, registrando segundo mês consecutivo de queda. Conjuntura que derrubou concorrentes da gerente expert em intercâmbio da unidade londrinense da Experimento Intercâmbio Cultural, Carolina Catarin. A empresária comemora um crescimento de 50% em 2017 em relação a 2016.

O que Carolina fez? "A gente teve um 2015 difícil. Não tem como analisar o momento sem levar em consideração o desgaste político. As pessoas estavam com medo. Até quem planejava fazer intercâmbio, desistiu. Identificamos que, apesar do temor, precisavam buscar aperfeiçoamento. O medo não ia livrá-las de perder o emprego. Focamos em intercâmbios de progressão de carreira e não só nos cursos de idiomas. Percebemos um nicho, que podia ser explorado", conta a empresária.

Amy Webb, fundadora e CEO da Webbmedia Group faz um questionamento revelador na revista Harvard Business Review, que coincide com a visão de Carolina.

No artigo, Webb pergunta se as empresas estão preparadas para criar o próximo Uber.

Mais do que um exercício de imaginação, propõe apostas em tendências, que Carolina identificou no mercado londrinense.

"Fizemos um movimento contrário ao da crise, em 2015. Investimos em novas instalações em um prédio mais moderno, que condiz com o produto que oferecemos. Percebemos que, parte da clientela, migrou para a Gleba Palhano. Buscamos uma nova instalação na região, que pudesse oferecer espaços compartilhados, como área gourmet, salas de reuniões, entre outros", conta.

A unidade londrinense da operadora pioneira em viagens de intercâmbio já tinha mais de 10 anos em Londrina quando a empresária assumiu a gestão do negócio, em 2013.

Ao aproveitar a fragilidade da concorrência para crescer, Carolina contou ainda com um reposicionamento da Experimento no mercado, em 2016, comprada pela maior operadora de turismo da América Latina, a CVC.

"Em 2016, consegui manter o crescimento. Em 2017, crescemos muito, algo em torno de 50% com aumento das vendas e procura por pacotes. Acredito que o setor de serviços, na área de turismo, está começando a melhorar", afirma.

Atestar que a crise chegou ao fim ainda é temeroso. Porém, para quem sobreviveu e conseguiu crescer nos piores dias, a exemplo da empresária londrinense, novos números com a reação de atividades, como o turismo, animam o empresariado.

A atividade apresentou crescimento de 2,0% em setembro, comparado com agosto, interrompendo uma série de cinco meses de resultados negativos.

Carolina não tem dúvida de que manter a criatividade e investir, na hora certa, são aprendizados da crise.

Ganhará mais quem tem poder de argumentação

A indústria no Brasil, assim como outros setores da economia, abriu uma caixa de Pandora, desde que a crise se agravou em 2015. Há cada dia, um susto. Porém, o setor fabril aprendeu muito. Um aprendizado, a partir da adoção de práticas ousadas, que, no pós-crise, se transformam em estratégias para ganhar mercados. Um desses expedientes é ter poder de argumentação para atrair investidores.

O diretor de marketing da Adama, Romeu Stanguerlin, destaca que, na crise, a empresa não parou de investir, buscou aumento de produtividade e inovação. "Depois de uma retração econômica, como a que vivemos no Brasil, o momento é de ter argumentos convincentes para defender e conseguir buscar investimentos internacionais", afirma.

A companhia faz parte do grupo Adama Agricultural Solutions Ltd, fundada em 1945, com sede em Tel-Aviv.

Desde 2011, a ChemChina, maior empresa química da China e uma das 500 maiores do mundo, passou a ter o controle acionário do grupo. No Brasil, representa 15% dos negócios do grupo, sendo a maior unidade industrial fora de Israel. São duas fábricas, uma em Londrina, onde está a sede da companhia, e outra em Taquari (RS).

Stanguerlin ressalta que a companhia não parou de investir no Brasil. Em cinco anos produzirá insumos para defensivos que, hoje, são importados da China. O investimento será de US$ 30 a US$ 50 milhões. Até 2019, a unidade de Londrina ganhará duas fábricas, além das três existentes.

A planta de Taquari já abriga quatro fábricas e contará com uma nova em 2018 e outras duas em 2021. A empresa dobrará o número de princípios ativos produzidos no país para 15, e elevará a produção para cerca de 90 milhões de litros em cinco anos, contra 39 milhões em 2016.

Também ganhará fôlego para brigar pelos mercados de soja, milho, cana-de-açúcar, trigo, algodão e café, e chegar à meta de 7% de fatia no mercado. Hoje, são 4,9%.

Os números positivos são os melhores argumentos para mostrar que vale a pena investir no Brasil.

Uma ideia nova a cada dia

A nova era de negócios, no pós-crise, exigirá inovação de ideias. O preceito entrou para a agenda dos empresários que superaram os efeitos da recessão.

O empresário do setor de varejo, Adriano Shoiti Okuno, proprietário da loja de sapatos femininos Queen Shoes, inovou no cardápio de capacitação dos funcionários. Ele investiu na pessoa do colaborador, com iniciativas simples, como palestras de finanças domésticas.

"A maioria das pessoas, quando recebe o salário, gasta sem planejamento. A orientação ajudou os colaboradores a terem um propósito para o dinheiro. Serão consumidores conscientes, evitando endividamentos", explica Okuno.

Trabalhadores com menos problemas, faltam e adoecem pouco, o que contribui para a saúde da empresa. "Vivemos uma nova era. Todos os setores terão que se adaptar às mudanças, tanto propostas pelo governo, como pelas tecnologias que estão surgindo. Temos que nos adaptar a uma concorrência que não tínhamos, quando começamos, em 1996", afirma o empresário.

Okuno diz que as empresas não podem esquecer o que aprenderam na crise. "Não tem como fazer uma ruptura de tudo. Pode ser que a gente tenha que se renovar de novo", avalia.

Lições para dias melhores

A crise pode agregar valor às empresas, a exemplos dos cases de sucesso londrinense, ou desmoroná-las. Passado o maior susto do mercado até aqui, é hora de aprender com a histórica recente, enfatiza o consultor financeiro Alexandre Shimada.

"O tempo da economia é diferente. Alguns setores, como o de serviços demoram mais para sentir e ainda é possível se prepararem e se organizarem para atravessar o período. Mas, de modo geral, acredito que podemos tirar lições importantes para o futuro", avalia o consultor.

Shimada ressalta que, as empresas que conseguiram superar os abalos da crise, se preocuparam com controle de custos, entrega dos produtos ou de serviços e se mantiveram perto dos clientes.

"Quem fez isso, conseguiu sobreviver. Empresários podem até ter que demitir funcionários, mas se conhecem os processos que esses colaboradores desenvolviam, não perdem qualidade", exemplifica.

Shimada finaliza ao destacar que, o novo contexto de negócios de hoje e no futuro impõe saber jogar as regras.

"Ou o empresário aprende a jogar ou sai do jogo. Se nesse novo contexto, que muitos aprenderam com a crise, não conseguir baixar custos, melhorar a produtividade, por exemplo, não conseguirá conquistar consumidores mais inteligentes e concorrência acirrada", conclui Shimada.