05/03/2018 08:32:26 As muitas faces do Bitcoin

Fonte: Revista Mercado em Foco - ACIL - Por Beatriz Amaro

“Bitcoin é empolgante porque é barato”, afirmou Bill Gates. Difícil entender a sentença – quase tão difícil quanto precisar o valor exato da criptomoeda mais famosa do mundo. Em 17 de janeiro, depois de uma queda de 10,48%, um bitcoin valia R$ 33.300. No começo do mês, o valor girava em torno dos R$ 50 mil. Não parece nada barato. O que quis dizer, então, o fundador da Microsoft? Para tentar responder à pergunta, é preciso entender o que é, para que serve e como funciona o bitcoin.

Uma criptomoeda é uma moeda digital (ou virtual) que utiliza a criptografia para garantir a segurança das transações financeiras que a envolvem. Acredita-se que o bitcoin começou a ser desenvolvido em 2007 por Satoshi Nakamoto, uma pessoa (ou grupo de pessoas) de quem se sabe apenas o nome, e que, um ano depois, publicou um artigo intitulado “Bitcoin: Um sistema eletrônico de pagamento peer-to-peer”, ou seja, de pessoa para pessoa, onde o computador de cada usuário conectado realiza funções de servidor e cliente ao mesmo tempo. Isso significa que o bitcoin é uma moeda descentralizada, que dispensa a presença de uma autoridade central/instituição financeira para existir (como acontece com as “moedas reais”, como o dólar, o euro, o real, a libra, etc.). O sistema de produção de bitcoins, conhecido como mineração, é baseado em cálculos matemáticos resolvidos por usuários com computadores com alta capacidade de processamento. Os resultados destes cálculos compõem a blockchain, uma espécie de “livro contábil aberto” totalmente rastreável por quem faz parte da rede.

Em 2011, estabeleceu-se a paridade entre bitcoins e o dólar norte-americano. A partir daí, a moeda começou a se popularizar, e a ideia de fazer negócios sem depender de um banco atraiu cada vez mais pessoas. Além disso, a ausência de um mercado financeiro que a regule faz com que ela seja livre de taxas: um bitcoin vale um bitcoin em qualquer lugar do mundo. Isto chamou a atenção para sua utilidade como meio de pagamento, que é a grande função de uma criptomoeda na visão de Eduardo Contani, professor e doutor em Administração com ênfase em Finanças pela Universidade de São Paulo (USP). Para ele, “bitcoin não é investimento e nem moeda, mas o maior experimento social que ainda não foi rompido”. Uma moeda virtual é interessante porque, além de quebrar o paradigma da dependência humana em relação às instituições financeiras e estatais, a não incidência de tributos sobre as transações faz com que elas sejam mais vantajosas. É daí que vem a declaração de Bill Gates.

O BITCOIN COMO INVESTIMENTO

Apesar de funcionar muito bem como meio de pagamento, o bitcoin se popularizou entre investidores. Este, na opinião de Contani, é um uso arriscadíssimo do ativo, que se comporta como uma commodity: a volatilidade nos preços é crescente e não há garantia de valor de mercado. Hoje, um bitcoin pode valer R$ 30 mil; amanhã, o valor pode aumentar para R$ 50 mil ou diminuir para R$ 10 mil – o que determina o preço são leis nebulosas de oferta e procura. “O risco para quem investe em bitcoins é infinito. No ano passado, foi a moeda digital que menos subiu. Moedas virtuais não têm nenhuma segurança porque não são regulamentadas”, afirma o professor.

Além disso, o bitcoin não tem lastro (garantia implícita de um ativo) e não é um meio fiduciário (substituto das moedas sem lastro cuja garantia se baseia na confiança de que governos não inflacionarão o ativo), portanto “é uma coisa de momento”, nas palavras de Contani. Ele explica que o bitcoin é “uma moeda deflacionária, ou seja, não corre inflação sobre ela. Hoje o real vale menos que daqui a 10 anos. Um bitcoin sempre será um bitcoin”.

O que pode ser feito sem que se corra riscos tão grandes é especular. Luis Outi, assessor de investimentos, acredita que “não se investe em moeda – especula-se com a variação. Para especulação de curto prazo com capital reduzido, eu diria que o bitcoin é muito indicado. Ele sobe rapidamente, então é possível ter lucro. Se ele cair, não se perde tanto assim”.

A compra de bitcoins, seja qual for sua cotação, também pode representar um negócio interessante para quem tenha intenções menos especulativas e mais marginais, como a lavagem de dinheiro. Outi lembra que “o bitcoin é uma maneira fácil de mandar dinheiro para fora do país, sem que ninguém saiba, e depois trazê-lo de volta. Pode-se até perder alguma coisa com a desvalorização, mas ele continuará limpo”. Este é um dos motivos pelos quais o governo federal e demais autoridades estão relutantes quanto à regularização da moeda no país.

Quem deseja adquirir bitcoins deve refletir também sobre os riscos associados à guarda e “manuseio” da moeda virtual. Ao adquiri-la, o detentor recebe uma chave privada que funciona como uma espécie de senha e que permite o recebimento e a transferência de bitcoins. A chave fica guardada em uma carteira, que pode ser virtual, online ou em hardware, por exemplo, e exige os mesmos cuidados que o armazenamento de dinheiro em espécie. Se uma pessoa salva suas chaves em um pen drive e o perde, não há nenhuma forma de recuperar o que foi perdido.

Existem inúmeros tipos de carteira, bem como vários outros riscos e vantagens que o bitcoin pode oferecer. A maneira mais segura de obter estas informações é recorrer a uma corretora. O professor Eduardo Contani dá a dica: “comprar de alguém que te vende diretamente [peer-to-peer] é mais arriscado ainda, especialmente para um iniciante. Tem muita gente que usa bitcoin para esquemas de pirâmide. É possível checar se o endereço que você recebeu é válido, mas isto é difícil para quem está fora do mercado financeiro. É melhor ficar num porto seguro e conversar com quem já investe”.

BITCOIN NO COMÉRCIO

No Japão, mais de 260 mil estabelecimentos comerciais aceitam bitcoins como forma de pagamento. O país tem o maior mercado de câmbio da moeda no mundo e abriga as grandes corretoras de criptomoedas.

Países como a China determinaram o fechamento destas corretoras, além de proibirem atividades de financiamento através das ofertas iniciais de moedas. O Brasil segue trajetória parecida: a Comissão de Valores Mobiliários (CVM) proibiu a compra direta de moedas virtuais por fundos de investimento regulados e registrados no país.

Com uma legislação extremamente endurecida quando se trata de criptomoedas, é difícil converter bitcoins em reais. Segundo Contani, só é interessante que um empresário aceite bitcoins em seu negócio “se houver alguma solução como uma máquina, por exemplo, que o converta instantaneamente em dinheiro”. Outi afirma que, hoje em dia, “pode demorar até uma semana para que esta conversão seja feita. Até lá, a moeda pode ter desvalorizado muito.” Mesmo assim, cerca de 25 estabelecimentos aceitam bitcoins como forma de pagamento em Londrina.

Para o “cidadão comum”, que não está inserido no mercado financeiro, Contani afirma que a principal aplicação da criptomoeda poderia ser, portanto, como meio de pagamento. “É difícil ser seu próprio banco, mas é vantajoso. Muitos brasileiros não trabalham com bancos e também podem ser beneficiados. Para quem faz viagens internacionais, as vantagens são muitas”, avalia. Outi, por sua vez, acredita que “o bitcoin sobrevive com base nas expectativas” e, como elas são altas, neste momento a especulação pode valer a pena. “As pessoas se sentem atraídas pela ideia de ganhar dinheiro fácil”, afirma. É uma via de mão dupla, no entanto: muita gente cai no conto do vigário e acredita em falsas promessas, mas, por outro lado, nas palavras de Outi, “o investimento em criptomoedas é um dos mais arriscados; uma pessoa precisa saber disso antes de comprá-las nas casas de câmbio”.