03/05/2017 07:44:39 Banco de Olhos do HU registra milésima doação de córnea

Fonte: Folha de Londrina

Há 23 anos, a técnica em enfermagem Eliane de Oliveira Rocha, de 52 anos, realizou um transplante para recuperar a visão prejudicada pelo ceratocone, problema que causa o afinamento da córnea. A cirurgia foi um sucesso e Eliane voltou a enxergar "100%". Recentemente, no entanto, a doença que estava estacionada no olho esquerdo começou a progredir, reduzindo gradualmente a capacidade visual. Na semana passada, Eliane voltou à sala de cirurgia para um novo transplante e os resultados já começam a aparecer. "Percebo que a minha visão está melhorando a cada dia", comemora. 

Eliane entrou na fila do transplante no final de 2016 e, no último mês de fevereiro, passou por uma reavaliação. A cirurgia foi feita no final de abril. A rapidez no procedimento deve-se ao aprimoramento da rede de transplantes no Paraná, da qual faz parte o Banco de Olhos do Hospital Universitário de Londrina que registrou em abril a milésima doação de córnea. O doador foi um homem de 62 anos, que vivia em Arapongas (Região Metropolitana de Londrina) e estava internado no Hospital Honpar. 

O Banco de Olhos do HU completou seis anos de funcionamento no último dia 18 de abril e com o trabalho desenvolvido nesse período se consolida como referência no Estado. Desde o início das atividades, o tempo dos pacientes em fila de espera, que oscilava entre dois e três anos, hoje varia de 15 a 30 dias. "O Banco de Olhos, para o HU, é motivo de orgulho em razão da qualidade do trabalho, das certificações recebidas, dos elogios. A nossa unidade é o banco público do Estado. Os demais estão em unidades filantrópicas e particulares", destacou a superintendente do HU, Elizabeth Ursi. "O Banco de Olhos ultrapassa o processamento de córnea. Há toda uma interação entre os serviços, com a capacitação da equipe, os captadores. Como é uma unidade multifacetada, ele consegue se inserir na região e ultrapassa o seu escopo. Nos encontramos hoje em uma fase de maturidade." 

Além da unidade do HU, há outros quatro bancos de captação de córneas no Estado. A unidade de Londrina atende a cinco regionais de saúde, com 97 municípios em sua área de abrangência. "O banco faz parte do sistema regional de transplante, mas a córnea captada aqui pode ir para todas as regiões do País, como as regiões Norte e Nordeste. A abrangência do Banco do Olhos é nacional. Como no Paraná a fila é pequena, é rotina enviarmos córneas para outros estados", ressaltou a coordenadora do Banco de Olhos, a médica oftalmologista Ana Paula Oguido. 

Segundo dados da Central Estadual de Transplantes do Paraná, em 2016 foram realizados 181 transplantes de córnea na região de Londrina. Em 2017, entre janeiro e fevereiro, foram 14 cirurgias e a fila, até a última sexta-feira (28), tinha apenas seis pacientes, segundo Ana Paula. "Como é um órgão que não depende de compatibilidade para ser transplantado, a fila anda mais rápido." Segundo a médica, as principais doenças com indicação para transplante são ceratocone. Em segundo lugar estão a distrofia e a ceratopatia bolhosa, seguidas por infecção e cicatrizes. 

Após a captação do órgão, a córnea tem que ser processada em até 12 horas e depois de entrar no banco, o transplante deve acontecer em até 15 dias. "Quanto mais cedo for realizada a cirurgia, melhor é a qualidade da córnea", explicou a médica oftalmologista. 
 

DESAFIOS 
Com o trabalho do Banco de Olhos já consolidado em Londrina e região, a meta para os próximos anos é capacitar mais equipes no Norte Pioneiro e atuar para que acabar com as filas em todo o Brasil. "Hoje, no Rio de Janeiro, os pacientes chegam a ficar um ano na fila. Em São Paulo, o tempo de espera é ainda maior. A gente tem possibilidade de ter esse serviço para enviar córneas para cidades ainda mais distantes", afirmou Ana Paula. 

A superintendente do HU também cita os altos índices de recusa de doação de órgãos pelas famílias como um dos grandes desafios a serem superados. "A córnea ainda é o órgão que tem menor recusa, uma vez que pode ser captada com o coração parado, mas há uma questão cultural muito arraigada e é preciso trabalhar isso, melhorando a abordagem para efetivar o aumento das doações", disse Elizabeth Ursi.