30/09/2019 09:25:18 Da medicina à liderança sustentável

Fonte: Susan Naime - Revista Mercado em Foco/ACIL

Considerado pelas revistas Veja e Exame um dos palestrantes mais requisitados do país, Eugênio Mussak se formou em Medicina, mas escolheu dedicar-se ao ensino e a inspirar pessoas para potencializar o coletivo. Em suas mais de mil palestras proferidas no Brasil e exterior, tem o dom de conectar várias áreas do conhecimento humano, abordando temas relacionados à qualidade de vida, liderança, gestão de pessoas e educação. Mas o amor por disseminar conhecimento não para aí. Mussak também é professor em conceituadas instituições de ensino nas áreas de liderança e gestão de pessoas, além da publicação de 12 livros, entre eles Metacompetência, Gestão Humanista de Pessoas, Liderança em Foco, Motivação: do querer ao fazer, Caminhos da Mudança e Pensamento Estratégico para Líderes de Hoje e Amanhã. O estudioso e pensador está entre os grandes nomes do Lidere 2019. Confira a entrevista que fizemos com ele enquanto aguardamos a chegada do evento.

 

Mercado em Foco: Você compara empresas a organismos vivos. Por quê?

Eugênio Mussak: Nós recebemos uma herança extremamente mecanicista da Revolução Industrial, que é quando a gestão começou a se tornar ciência. Até hoje utilizamos expressões como “as engrenagens da empresa”, “minha equipe está azeitada”. Vícios de linguagem que denunciam um jeito de pensar. Entretanto, comparar a empresa com um organismo vivo faz muito mais sentido do que compará-la a uma máquina. Afinal, a empresa tem células, que são as pessoas, tecidos, representados pelos grupos de trabalho, órgãos internos, sistemas que devem atuar em harmonia para manter o organismo vivo. A empresa nasce, cresce, gera descendentes, adoece, pode até morrer. Além disso, a empresa está inserida em um ecossistema altamente mutante, chamado mercado, e deve procurar se adaptar às mudanças e evoluir. Tudo igualzinho ao que acontece na natureza.      

MF: Quais os melhores métodos ou ferramentas que os gestores devem colocar em prática para “Inspirar pessoas para potencializar o coletivo”?

EM: A pessoas sempre buscaram receber, em contrapartida a seu trabalho, principalmente duas coisas: reconhecimento e bom ambiente de trabalho. Por reconhecimento entenda-se, em primeiro lugar, a remuneração justa, mas não é só isso. Também interessam a oportunidade de crescer, de aprender e de sentir valorizada. E o bom ambiente de trabalho inclui aspectos psicológicos, e não apenas físicos. Entretanto, é crescente a busca das pessoas por trabalhos que façam sentido, que tenham significado, que entreguem ao colaborador um gostinho de missão, de causa, especialmente os mais jovens.       

MF: Neste novo cenário, cabe às empresas investirem na felicidade de seus colaboradores?

EM: Eu não acredito que alguém possa assumir a responsabilidade de fazer o outro feliz. Não acho que a empresa tenha esse papel, que é pessoal, íntimo. Entretanto, acredito que a empresa pode, e deve, fornecer os meios para que as pessoas construam a vida que vale a pena, que é o que poderíamos chamar de felicidade. A empresa que respeita a dignidade de suas pessoas, que dá motivos para que seus funcionários se orgulhem dela, que disponibiliza os meios adequados para que as pessoas exerçam seu papel, em que elas se sentem úteis, valorizadas, têm maior chance de contar com indivíduos mais felizes, inteiros, engajados e produtivos.

MF: Em um dos seus livros, você fala sobre fazer uma coisa de cada vez. De que maneira conciliar isso com a necessidade crescente de fazer várias coisas ao mesmo tempo e a pressão das empresas por resultados?

EM: Um dos conceitos mais contemporâneos é o da completude. Está demonstrado que as pessoas mais produtivas e que acumulam mais bons resultados em suas carreiras, não são as que são extremamente talentosas e competentes em uma determinada função, por exemplo, as competências técnicas. O que vale é a interação sinérgica entre mais de um tipo de competência. Desenvolver vários tipos de competências que se complementam e completam é o segredo. Entretanto, isso não significa que você tenha que fazer várias coisas ao mesmo tempo. Eu opto pela ideia de se fazer uma coisa de cada vez, assim você estará focado, o que aumenta a atenção, a energia, o cuidado, o que leva a melhores resultados. Tentar fazer várias coisas ao mesmo tempo não pode dar em boa coisa. Só que por mais estranho que possa parecer, isso exige disciplina e gestão do tempo. Caso contrário você acaba ficando improdutivo.     

MF: Podemos dizer que em tempos difíceis é quando os líderes são mais necessários. Quais atributos um líder precisa ter para liderar um negócio e uma equipe diante de mudanças tão rápidas e tão dramáticas como as de hoje?

EM: Não tenho dúvida alguma sobre isso. Tempos difíceis exigem lideranças fortes. Também fazem surgir novos líderes, ao mesmo tempo em que denunciam fraudes. Tempos difíceis exigem preparo, coragem, persistência, resiliência e fé no futuro. São tempos excepcionais, capazes de promover mudanças evolutivas, elevar o patamar, mudar de posição. Líderes são fundamentais nesses momentos, pois são os que percebem essa fantástica oportunidade que está escondida na crise. 

MF: Competência técnica x competência comportamental. Como avaliar e lidar com esses dois tipos de comportamentos dentro da empresa?

EM: É evidente que as competências técnicas são mais fáceis de serem avaliadas, observadas e testadas. Entretanto, as habilidades comportamentais, que incluem relacionamento, comunicação, empatia, disponibilidade, determinação, respeito, gentileza e tantas outras, que atualmente se está chamando de habilidades ou competências, socioemocionais, são as mais capazes de se transformarem em resultados mais exitosos, especialmente no coletivo. 

MF: Falando um pouco sobre tecnologia, gestão 4.0 e até mesmo a cultura empresarial, quais são as tendências para os departamentos de Recursos Humanos?

EM: Atuar como parceiro do negócio e estimular a criação de uma cultura que apoie as decisões estratégicas da empresa. Poderia dizer com bastante segurança que o RH está cada vez mais imbuído da responsabilidade de liderar as mudanças necessárias dentro da empresa. E isso só se faz através das pessoas.