18/09/2017 08:12:19 Empreendedorismo Social

Fonte: Revista Mercado em Foco - ACIL - Por Susan Naime

Aos 32 anos ele já foi eleito pela Folha de São Paulo o mais promissor Empreendedor Social no Brasil, escolhido pelo Instituto de Tecnologia de Massachusetts um dos 35 jovens mais inovadores do mundo e avaliado pela revista Forbes como um dos jovens mais promissores do País. Ronaldo Tenório é co-fundador e diretor executivo da Hand Talk, startup que proporciona soluções de acessibilidade para deficientes auditivos e seus ouvintes. O aplicativo já foi inclusive eleito pela ONU (Organização das Nações Unidas) o melhor app social do mundo. A melhor notícia é que o empresário irá trazer toda essa bagagem de conhecimento e sucesso ao Lidere 2017, encontro empresarial que será realizado pela ACIL em outubro. Enquanto aguardamos com ansiedade pelo evento, a reportagem da Mercado em Foco bateu um papo com Tenório. Confira!

Mercado em Foco: Você já foi eleito empreendedor social do futuro, um dos jovens brasileiros mais promissores pela revista Forbes e ainda ficou entre os 10 jovens brasileiros inovadores pelo MIT. Como foi construir uma trajetória de tantas conquistas sendo uma pessoa muito jovem? Você encontra resistências para a execução de seus projetos?

Ronaldo Tenório:
Acho que tudo foi vindo gradativamente e todo esse reconhecimento é fruto de muito suor e de muito trabalho, e isso ajuda a crescer e evoluir cada vez mais. Como em qualquer negócio, a gente enfrenta resistência, principalmente por se tratar de acessibilidade, que é um tema que algumas pessoas desconhecem. Por esse desconhecimento elas, muitas vezes, fecham os olhos e não enxergam o problema. É um desafio criar esse novo mercado. Mas com todas essas chancelas e as estratégias certas conseguimos diminuir as resistências e encontrar um caminho de sucesso.

Mercado em Foco: Como surgiu a ideia de criar o projeto Hand Talk?

Ronaldo Tenório: A ideia da Hand Talk surgiu em um trabalho acadêmico quando eu cursava Comunicação Social. Tinha duas paixões: a comunicação e a tecnologia. Então decidi uni-las para poder ajudar as pessoas. Comecei a pesquisar sobre pessoas com deficiência e encontrei nos surdos um grande problema de comunicação. Os surdos se comunicavam em libras e os ouvintes em português, e esse problema já começava em casa. Fiz um esboço do projeto da Hand Talk, mas quatro anos depois a ideia permanente estava engavetada. Resolvi neste momento, junto com meus sócios, inscrever o projeto em um desafio de startups. Vencemos, recebemos o prêmio, investimentos e foi onde começou a trajetória da Hand Talk.

Mercado em Foco: Para quem não conhece o aplicativo, como ele funciona?

Ronaldo Tenório: O aplicativo é um tradutor de bolso para libras que é a língua brasileira de sinais, então você pode falar ou digitar um texto e o Hugo [um intérprete virtual 3D] vai traduzir para libras automaticamente. Ele é usado hoje para aprender alguns sinais e também para se comunicar com alguém que é surdo. O aplicativo já tem mais de um milhão de downloads e usuários em todo o Brasil.

Mercado em Foco: Além de português e libras, o “Hugo” já fala outros idiomas? Como está a projeção para levar essa acessibilidade ao mercado internacional?

Ronaldo Tenório: Estamos desenvolvendo a plataforma para novas línguas e em breve iremos lançar. Mas, inicialmente, a pretensão é ir para os Estados Unidos com a língua americana de sinais. Isso são cenas para os próximos capítulos, ainda tem muita coisa que precisamos avançar por aqui e ampliar a penetração e o impacto no Brasil.

Mercado em Foco: Se o aplicativo pode ser baixado gratuitamente, como a Startup sobrevive?

Ronaldo Tenório: O aplicativo é nosso cartão de visita, então ele é de graça e faz com que as pessoas tenham um primeiro contato com acessibilidade, inclusive para passarem a exigi-la nos canais de suas empresas. O nosso modelo de negócio vem através de produtos para empresas, a gente torna os canais de comunicação acessíveis com o Hugo. Hoje, é como se a internet estivesse offline para as pessoas com deficiência auditiva. Com o botão Hand Talk instalado, a empresa possibilita a comunicação com mais pessoas, além de cumprir a lei brasileira de inclusão social que entrou em vigor no ano passado.

Mercado em Foco: Você acha que ainda falta a integração das academias com o mercado, para serem ferramentas de impulsionamento ao empreendedorismo?

Ronaldo Tenório: Falta muito. Está melhorando, mas ainda há uma distância entre academia e mercado. Sabemos que a academia tem um time diferente do mercado, projetos mais voltados à pesquisa. Mas acho que falta incentivo, mais proximidade, mais programas de empreendedorismo de inserção no mercado. Encontramos iniciativas interessantes, mas ainda está longe dos principais mercados.

Mercado em Foco: Esse projeto parece ser muito mais uma transformação social do que qualquer outra coisa. É possível enxergar esse trabalho como um mero negócio, até porque a Hand Talk precisa ser viável financeiramente, não é?

Ronaldo Tenório: Quando você tem um negócio social, você tem o compromisso de gerar impacto e outro compromisso de ser sustentável financeiramente. Eu costumo dizer que quando você é um empreendedor social você não pode ser missionário, nem mercenário. Tem que manter essa base equilibrada para poder trazer retorno financeiro e, ao mesmo tempo, causar impacto para as pessoas.

Mercado em Foco: O ministério da educação incluiu seu aplicativo em todos os tablets que foram distribuídos na rede pública de ensino. Como você enxerga isso?

Ronaldo Tenório: Foi em 2014, se não me engano, que o Governo Federal comprou tablets para usar nas escolas públicas e, desde aquela época, eles nos procuram para inserir o aplicativo Hand Talk nos aparelhos para serem utilizados por professores e alunos do ensino público do país. Na época foram mais de 600 mil tabletes adquiridos e a Hand Talk pôde melhorar a comunicação entre surdos e ouvintes dentro da sala de aula.

Mercado em Foco: Li em algum lugar que vocês têm um quadro no escritório onde colocam depoimentos sobre o aplicativo. É uma forma de vocês não perderem o grande objetivo do aplicativo? Como vocês recebem esse retorno?

Ronaldo Tenório: Nós temos um quadro onde compartilhamos as mensagens e depoimentos mais marcantes que recebemos dos usuários. Acredito que quando você passa muito tempo na frente do computador, programando, desenvolvendo, você perde a noção do que está acontecendo na outra ponta com o usuário que está usando o aplicativo dentro de casa, na escola, no trabalho. Então, fazemos questão de dividir com todo mundo cada depoimento, não só para estimular todas as pessoas que fazem parte da Hand Talk, mas também mostrar a elas o resultado do trabalho que estão fazendo. É uma moeda importante que a gente tem quando se trata de um negócio social, uma moeda de impacto das boas ações, e isso tem que estar presente sempre na cultura da Hand Talk para que possamos sempre ter vontade de executar um trabalho com excelência.

Mercado em Foco: Você é inspiração para empreendedores que têm a cabeça cheia de ideias, mas medo de encarar um mercado versátil e competitivo. O que você falaria para essas pessoas?

Ronaldo Tenório: Muitas pessoas me contam que têm uma boa ideia, mas medo de falar porque podem copiá-la. Esse é um erro grande. Se ela não falar para ninguém, nunca irá executá-la, e amanhã outra pessoa pode aparecer para colocar aquela ideia em prática. Então, não seja o cara que fala “poderia ser eu”. Seja a pessoa que fala “fui eu que consegui fazer”. A gente tem que tentar acertar e, se errar, não tem problema, é só levantar rápido e continuar tentando até acertar. É preciso muito suor e esforço porque nada cai do céu.